O pessimismo com a nova rodada de negociações da repactuação de Mariana

Negociadores saíram desanimados da primeira das três reuniões em Brasília nesta semana
Imagens da destruição de Bento Rodrigues, distrito de Mariana, após o rompimento da barragem de Fundão
O rompimento da barragem aconteceu em 2015 e provocou a maior tragédia ambiental do país. (Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil)

Interlocutores do poder público saíram pessimistas da primeira das três reuniões da mesa de negociação da repactuação de Mariana marcadas para esta semana, em Brasília.

O Fator apurou que a reunião desta terça-feira (6) tratou sobre termos da Gestão de Áreas Contaminadas (GAC) – ou seja, as responsabilidades das empresas Vale, BHP Billiton e Samarco, e dos governos estaduais e federal, nas regiões que foram afetadas pelo rompimento da barragem de Fundão, em 2015.

Uma fonte que participou do encontro afirmou que a reunião teve poucos avanços e deixou uma impressão pessimista quanto a um acordo pela repactuação. “Ficou a dúvida no ar se as empresas querem mesmo fazer esse acordo”, conta o interlocutor.

Ainda segundo essa fonte, o poder público tem “se desdobrado dentro dos limites legais” para conseguir negociar e atender demandas feitas pelas mineradoras que, no entanto, estariam “recuando” nas conversas mesmo quando são atendidas em pontos cruciais.

“Fica a sensação que estão tentando ganhar tempo para manter a Fundação Renova, manter o Comitê Interfederativo (CIF), e depois judicializar o que acharem que deve”, desabafa um dos negociadores da repactuação.

Nesta quarta-feira (7), a segunda reunião vai tratar dos povos e comunidades tradicionais que foram atingidos pelo rompimento. A expectativa é que seja um encontro tenso pela falta de consenso no tema até aqui.

Pelo que a reportagem apurou, a União tem defendido que as mineradoras realizem uma consulta prévia e informada seguindos os termos da convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Essa convenção trata sobre Povos Indígenas e Tribais e prevê que essas comunidades precisam ser consultadas sempre antes que sejam previstas medidas legislativas ou administrativas suscetíveis de afetá-los diretamente. Essas medidas podem ser tanto adotadas pela esfera pública quanto pela esfera privada.

Os valores do acordo ainda são negociados, embora não sejam mais o principal entrave. Na última proposta feita pelas mineradoras, no início de junho, houve a oferta de pouco mais de R$ 82 bilhões de “dinheiro novo” – sendo R$ 140 bilhões somando, inclusive, o que já foi gasto com a Fundação Renova.

A União ainda tenta crescer o valor de dinheiro novo na negociação – cerca de R$ 5 a R$ 8 bilhões a mais.

A propósito, o destino da Fundação Renova é um dos pontos já pacificados entre os negociadores. O acordo, se fechado, deve prever o fechamento quase total da entidade, com exceção de projetos que façam o atendimento da população (por exemplo, com o fornecimento de água em regiões muito afetadas pela contaminação do rio). Esses projetos funcionariam até a substituição por ação estatal.

A reunião de quinta-feira (8) vai focar nas indenizações a pessoas e entidades atingidas.

Em junho, O Fator teve acesso a detalhes da última proposta das mineradoras na negociação. Desde então, o poder público pediu alterações e reuniões foram feitas, mas ainda sem novas ofertas.

Detalhamento da Proposta de junho:

Obrigações de Pagar: R$ 82 bilhões
A proposta inclui R$ 82 bilhões em obrigações de pagar ao Poder Público a serem desembolsados ao longo de 20 anos. Estes pagamentos serão feitos em parcelas anuais, iguais e sucessivas, corrigidas pelo IPCA. Deste montante:

Aproximadamente 70% (cerca de R$ 57,4 bilhões) será destinado a beneficiar diretamente as pessoas da região afetada, através de programas como:

  • Programa de transferência de renda para os mais vulneráveis
  • Fortalecimento do sistema de saúde local com a criação de um fundo perpétuo
  • Universalização do saneamento na Bacia do Rio Doce
  • Programa coletivo para Povos e Comunidades Tradicionais elegíveis
  • Repasse direto aos Municípios
  • Fundo de resposta a enchentes
  • Fundo para deliberação direta das comunidades
  • Assessoria Técnica Independente
  • Fortalecimento do Sistema Único de Assistência Social (SUAS)
  • Investimento nas rodovias da região
    Os 30% restantes (cerca de R$ 24,6 bilhões) serão dedicados a outros programas socioambientais geridos pela União e Estados, incluindo iniciativas de desenvolvimento rural, resposta a desastres, adequação às mudanças climáticas, fiscalização de barragens, educação ambiental, cultura e turismo, prevenção à violência doméstica, apoio a microempreendedores e fomento ao crédito rural.
    Obrigações de Fazer: R$ 21 bilhões
    A Samarco permanecerá responsável por obrigações de fazer estimadas em R$ 21 bilhões. Deste valor:

60% (aproximadamente R$ 12,6 bilhões) beneficiará diretamente as pessoas da região, incluindo:

  • Soluções indenizatórias definitivas para pessoas elegíveis
  • Conclusão dos reassentamentos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo
    Os 40% restantes (cerca de R$ 8,4 bilhões) serão destinados a benefícios ambientais diretos, como:
  • Recuperação de 5 mil nascentes
  • Reflorestamento de mais de 40 mil hectares (equivalente a 28 mil campos de futebol)
    Valores já investidos: R$ 37 bilhões
    A proposta reconhece os R$ 37 bilhões já investidos pela Fundação Renova em medidas de reparação e remediação, dos quais:

Segundo as empresas, pelo menos R$ 17 bilhões já beneficiaram diretamente mais de 430 mil pessoas através de indenizações e assistências financeiras.
Condições e Observações Importantes:

Segundo as mineradoras, o aumento da proposta está condicionado a termos, incluindo:

  • Inexigibilidade de gerenciamento de área contaminada
  • Levantamento da restrição à pesca
  • Encerramento das portas indenizatórias com data de corte pretérita (PIM, AFE, Novel e afins)
    A proposta é não vinculante, confidencial e sujeita a aprovações societárias.
    As empresas ressaltam que a oferta busca atender aos principais pleitos do Poder Público, visando a pacificação social e segurança jurídica.
    A proposta é válida apenas no contexto da mediação conduzida pelo TRF-6 e não pode ser usada contra as empresas para fins litigiosos.
    A proposta foi enviada ao Tribunal Regional Federal da 6ª Região em 11 de junho.

A barragem de Fundão se rompeu em novembro de 2015, matando 19 pessoas e gerando dano ambiental ainda incalculável. A estrutura era administrada pela Samarco, mineradora controlada pela Vale e pela BHP Billiton.

Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília, e pela Itatiaia. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.

Leia também:

TJMG derruba liminar que determinou suspensão da implantação do novo sistema de regulação do SUS

Governo de MG admite ‘dificuldades pontuais’ em novo sistema do SUS, mas diz que falhas foram solucionadas

O MDB quer Pacheco… para o TCU

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse