Impasses sobre mercúrio nas áreas atingidas e comunidades tradicionais marcam semana de negociações na repactuação de Mariana

Pessimismo inicial começou a ser superado, mas negociações ainda estão emperradas
Rompimento da barragem de Mariana aconteceu em novembro de 2015
Tragédia de Mariana, em 2015, deixou 19 mortos. Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil

As negociações para a repactuação do acordo de Mariana, realizadas em Brasília entre terça e quinta-feira desta semana, enfrentaram dois obstáculos principais: a inclusão do mercúrio nas análises ambientais e as obrigações relacionadas aos Povos e Comunidades Tradicionais (IPCTs). Apesar do pessimismo emblemático que marcou partes das conversas no primeiro dia, a quinta-feira (8) foi de avanços significativos. Há uma expectativa para que, ainda nesta sexta-feira (10), seja criado um cronograma para novas rodadas de discussões para este mês.

Participaram dessa rodada de negociações representantes da União, dos governos de Minas e Espírito Santos, do MP estadual e federal e representantes das mineradoras Vale, BHP Billiton e Samarco.

Principais Entraves nas Negociações

  1. Questão do Mercúrio:
  • As autoridades insistem na inclusão do mercúrio na lista de elementos a serem investigados e remediados pelas empresas, independentemente de nexo causal.
  • As empresas resistem a essa demanda, criando um impasse nas negociações.
  1. Povos e Comunidades Tradicionais (IPCTs):
  • Há uma divergência sobre a natureza das obrigações: as empresas propõem uma “obrigação de pagar”, enquanto a União defende uma “obrigação de fazer”.
  • Esta diferença implica em abordagens distintas para a reparação e assistência às comunidades afetadas.

Avanços e Agenda para Agosto

Apesar dos desafios, o terceiro dia de negociações trouxe uma atmosfera mais positiva, com maior disposição para o entendimento mútuo entre as partes. Como resultado:

  • Um calendário final para as próximas reuniões de agosto será definido.
  • Após uma pausa na próxima semana, as negociações serão retomadas com uma nova rodada de quatro dias em Brasília.
  • Espera-se que esses encontros resolvam os impasses remanescentes e avancem significativamente em direção a um acordo final.

Outros Temas em Discussão

  • Ajustes na Gestão de Áreas Contaminadas (GAC): Discussões sobre o número de substâncias a serem analisadas e possíveis exclusões de elementos.
  • Indenizações e PTRs: Definição de critérios de elegibilidade, pendente de dados da União sobre o cadastro de agricultores e pescadores, respeitando a LGPD.

Contexto e Expectativas

Estas negociações ocorrem quase nove anos após o rompimento da barragem de Fundão em 2015, em um cenário de grande complexidade. A presença de representantes de comunidades afetadas e especialistas tem enriquecido as discussões, trazendo perspectivas cruciais para a mesa de negociação.

O processo de repactuação busca estabelecer novos termos para a reparação dos danos causados pelo desastre, com o objetivo de atender às necessidades de todas as partes envolvidas, especialmente das comunidades afetadas.

Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília, e pela Itatiaia. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.

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