Ministro do STJ anula provas e tranca ação penal sobre desvio de verbas públicas em Minas

Investigação apurava irregularidades em contratos de limpeza urbana em Uberaba
Fachada do STJ
Volume de processos contra Chico Ferramenta era acima do comum na Corte. Foto: Lucas Pricken/STJ

O ministro Ribeiro Dantas, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), determinou o trancamento de ação penal e anulou todas as provas obtidas por meio de quebras de sigilo bancário e telefônico no âmbito de investigação sobre supostos desvios de verbas públicas na execução de contratos de limpeza urbana em Uberaba (MG).

A investigação, que resultou na Operação Monturo deflagrada em maio de 2020, apurava possíveis irregularidades na execução do serviço de limpeza urbana no município entre 2016 e 2019, envolvendo contratos com as empresas Limpebrás e Lara.

Segundo a denúncia do Ministério Público, foi montado um esquema de desvio de verbas públicas através de subcontratações dos serviços de limpeza. O esquema teria envolvido servidores municipais, incluindo o então secretário de serviços urbanos Antônio Sebastião de Oliveira, o secretário de finanças Wellington Luiz Fontes e empresários do setor.

As buscas e análises do material digital e documentos físicos da Monturo produziram um vasto material probatório, indicando várias fraudes em outros contratos da Prefeitura de Uberaba, com fortes indícios de superfaturamento e desvios de verbas milionários. Da análise deste material foram instaurados vários inquéritos pela Delegacia da PF de Uberaba. Alguns seriam finalizados até o final do ano. Todos os envolvidos já haviam sido intimados.

A decisão

Na decisão, o ministro Ribeiro Dantas considerou nula a quebra de sigilo bancário que deu origem às investigações, por falta de fundamentação adequada. Segundo o ministro, a decisão judicial que autorizou a quebra foi “lacônica” e “nem sequer pode ser considerada per relationem, pelo simples fato de não fazer referência às razões de pedir do órgão acusador”.

O ministro citou trecho da decisão original que se limitou a mencionar “a relevância das apurações” para justificar a medida, sem apontar “a necessidade e a utilidade da medida, tampouco fez referência a eventual movimentação bancária suspeita”.

Por consequência, foram anuladas todas as provas derivadas, incluindo buscas e apreensões e interceptações telefônicas. Como a denúncia criminal se baseou integralmente nessas provas consideradas ilícitas, o ministro determinou o trancamento da ação penal.

O esquema investigado

De acordo com a inicial do Ministério Público, o esquema funcionava através da subcontratação de empresas para serviços como capina manual, roçagem e varrição. As empresas subcontratadas supostamente retornavam parte dos valores recebidos a servidores municipais específicos.

O MP apontou, por exemplo, que em um dos serviços subcontratados havia grande diferença entre valores: “A título ilustrativo, aponta-se, em um dos itens subcontratados, a gritante diferença entre o valor pago pelo Município de Uberaba à empresa Limpebrás e o valor pago por essa à terceirizada”.

A investigação identificou que para o serviço de capinação manual em 2018, enquanto a Limpebrás recebia R$ 0,93 por m² da prefeitura, pagava R$ 0,68 por m² à subcontratada, que por sua vez contratava outra empresa por R$ 0,28 por m².

Com a decisão do STJ, todas as provas obtidas a partir da quebra de sigilo bancário foram anuladas e a ação penal foi encerrada, sem prejuízo de eventual nova investigação com base em outras provas lícitas.

Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília, e pela Itatiaia. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.

Leia também:

Ganem diz que denúncia sobre fraude ao domicílio eleitoral se baseou em ‘ilações de matérias jornalísticas’

Justiça prorroga afastamento de servidores investigados por fraudes em contratos da Sudecap

Delegado que chefiou inquérito do atentado a Bolsonaro em Juiz de Fora perde ação contra a Jovem Pan após matérias sobre vínculo com o PT

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse