O Militante é infeliz

Ao invés de abraçar o “sim” da vida, o militante diz “não” a tudo que não cabe em seus ideais de mundo
Foto: Agência Brasil

Imagine uma alma que vê injustiça em cada esquina, um ser que acorda todos os dias num campo de batalha imaginário, travando lutas incessantes com o mundo ao seu redor. É o militante – alguém que, aos olhos de Nietzsche, personifica um desgosto peculiar e crônico. A tristeza do militante vem não de sua causa, mas de uma vida dominada pelo ressentimento. Uma alma incansavelmente sofrida, sempre de prontidão para nos lembrar o quão horrível é o mundo.

O ressentimento é o combustível que mantém o militante em pé. É a energia que ele extrai da impotência e da incapacidade de criar sua própria realidade. Esse sentimento não nasce do simples sofrimento, mas de uma falta de poder, de uma incapacidade de agir no mundo de acordo com sua própria vontade. Ao se ver impotente diante das forças da vida, ele vira-se contra elas, cria um inimigo abstrato e, na maioria das vezes, invisível, contra o qual se bate sem cessar. Essa constante luta, no entanto, é a própria essência da sua infelicidade.

O militante não pode ser feliz, pois a felicidade seria a aceitação de um mundo imperfeito – e ele, em sua nobre missão, não pode se conformar, acreditando que o peso da sua amargura é sinônimo de grandeza de espírito. É como se dissesse ao mundo: “Eu sofro mais que vocês, e isso me faz especial!” Ele segue, num ciclo interminável de ressentimento e tristeza, essa miséria existencial que lhe garante algo que ele julga ser uma causa.

Bora pro Divã

Nietzsche entendia o ressentimento como um tipo de “força negativa,” nascida da incapacidade de criar valor a partir de si próprio. Para ele, ressentimento é aquilo que brota quando o indivíduo se sente incapaz de alcançar algo grandioso ou afirmar a própria existência de maneira livre e corajosa. A frustração que vem dessa impotência acaba por se transformar em ódio e, pior, num desejo velado de vingança.

Vendo o mundo como um lugar onde sempre há algo que falta, onde sempre existe um algoz a combater, o militante se torna um profeta da carência, incapaz de experimentar a liberdade que nasce da criação de si mesmo e de uma vida vivida a partir da afirmação, e não da negação.

Esse tido pode manifestação social nos conta que muitas vezes direcionamos para fora – para os outros, para o sistema, para a sociedade – aqueles sentimentos e desejos que não conseguimos enfrentar em nós mesmos. No fundo, o militante está em guerra consigo mesmo, mas projeta essa guerra no mundo, em causas e batalhas externas que, convenientemente, o distraem de lidar com os próprios conflitos. Ao depositar sua frustração nos “outros”, ele evita confrontar o próprio sofrimento, o vazio existencial, e talvez até um profundo medo de ser irrelevante, a única certeza possível diante da imensidão do universo.

A realidade dói

O paladino da verdade não age apenas a partir de uma racionalidade política. Ele também está movido por mecanismos inconscientes que escapam ao seu controle. Assim, o militante é ser divido: em sua consciência, ele se coloca como salvador do mundo, mas em seu inconsciente, ele se vê impotente diante da complexidade da vida, uma emoção primitiva, um desejo de vingança contra aquilo que não pode ser dominado ou compreendido.

Mas a verdade mais triste é que esse ressentimento não é direcionado apenas ao “outro”, mas também contra a própria vida. O militante está preso em uma luta interna: a batalha para ser alguém que ele não é, para viver de acordo com uma moral que o aprisiona, enquanto a verdadeira realização passa por uma aceitação daquilo que ele tenta constantemente negar.

No entanto, ao invés de abraçar o “sim” da vida, o militante diz “não” a tudo que não cabe em seus ideais de mundo. Esse “não” constante o distancia da própria realidade e lhe confere uma posição patológica de eterno “acusador”.

Labirinto sem saída

Enquanto o militante brada, o mundo passa. O tempo, imperturbável, escapa-lhe pelas mãos. Sua tristeza vem de uma vida em que o “nada é suficiente” – e, nessa ânsia de mudar tudo, perde-se o sabor do que há de belo e grandioso. E aqui reside a grande ironia: aquele que busca uma realidade mais justa e iluminada perde a própria capacidade de ser livre e de criar sua própria luz, vivendo no mesmo ciclo de revolta e escuridão.

O militante é triste porque sua alma é tão pesada quanto suas lutas – e essa não é uma batalha que alguém possa vencer, é uma batalha que, por definição, dura a vida toda.

Afinal, a última coisa que o militante quer é ser feliz – isso seria muito alienante.

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