Por que as pesquisas estatísticas usadas para eleições não se aplicam à escolha do Papa

Foto: Agência Brasil

Confesso ser fascinado pelas cerimônias do Conclave. Batizado na Igreja Católica Apostólica Romana, comecei a acompanhar a chaminé da Capela Sistina e vi dois conclaves até hoje. O primeiro elegeu o cardeal Joseph Ratzinger, que virou Bento XVI, e o segundo fez o jesuíta Jorge Mario Bergoglio assumir o manto de Francisco. Nessas duas ocasiões, a avalanche de “furos” e palpites sobre os possíveis eleitos deu aquele nó na cabeça de qualquer um. Eu e meu amigo Thassius Veloso até nos divertimos em 2005 criando o blog “Plantão do Papa” – num tempo em que garimpar e traduzir notícias na internet era mais trabalhoso que hoje.

É comum ouvir dizerem que “quem entra no conclave como papabile, sai como cardeal”. Trata-se de um dito popular que reforça a soberania do Colégio dos Cardeais – afinal, tentar fazer uma fria contagem de votos em cima de um rito tão tradicional e simbólico para bilhões de fiéis pode ser até desrespeitoso. Mas se for pra falar de regras usadas para previsões políticas, falemos: por que considero tentar prever o próximo Papa tão diferente de uma pesquisa eleitoral para prefeito ou presidente? Simples: enquanto nas eleições do TSE temos montes de sondagens, no conclave não existe viabilidade prática de um instituto medir intenção de voto papal. É aí que a estatística entra em campo, com a famosa lei dos grandes números. 

A Lei dos Grandes Números é um princípio fundamental da estatística que estabelece que, à medida que o tamanho de uma amostra aumenta, a média amostral tende a se aproximar da média real da população. Em termos simples, quanto maior a amostra, mais precisa será a estimativa.

Para pesquisas eleitorais, isso se traduz na necessidade de amostras de tamanho adequado para representar com precisão o eleitorado total. O tamanho dessa amostra não cresce proporcionalmente ao tamanho da população – e esta é a chave para entender por que é tão difícil fazer previsões confiáveis para um conclave com poucos eleitores.

Vamos aos números para entender melhor esse problema. A fórmula para calcular o tamanho da amostra necessária para uma margem de erro específica é: n = (z²pq)/e². Nessa equação, n é o tamanho da amostra, z é um valor para o nível de confiança desejado que indica quantos desvios-padrão um ponto está distante da média. No cálculo de tamanho de amostra, usamos z=1,96 porque ele corresponde a um intervalo de confiança de 95%. O valor de 95% é considerado o “ponto ideal” que os estatísticos adotaram como padrão para a maioria das pesquisas científicas e eleitorais. A variável p representa a proporção estimada da população que possui a característica de interesse da pesquisa (como a intenção de votar em determinado candidato), e q é o complemento de p, ou seja, q = 1-p (a proporção que não possui essa característica). Numa pesquisa eleitoral, quando não temos estimativas prévias confiáveis sobre essas proporções, usamos p = q = 0,5, resultando no maior tamanho de amostra possível. O e é a margem de erro – aqui no caso, 0,02, ou 2%.

Agora, vamos calcular o tamanho da amostra para cada eleitorado: Belo Horizonte, minha querida capital mineira, tem 1.992.984 eleitores. Se quiséssemos fazer uma pesquisa confiável para a eleição municipal com margem de erro de 2%, precisaríamos entrevistar aproximadamente 2.398 pessoas. Parece bastante, mas representa apenas 0,12% do eleitorado total. Perfeitamente razoável.

Se ampliamos nossa mira para Minas Gerais, com seus impressionantes 16,5 milhões de eleitores, a amostra necessária para a mesma precisão seria de cerca de 2.400 pessoas – praticamente o mesmo número! E mesmo para o Brasil inteiro, com seus 155,9 milhões de eleitores, ainda estaríamos falando de 2.401 pessoas. Isso ilustra um ponto muito divertido dessa parte da estatística: o tamanho da amostra depende principalmente da margem de erro desejada, não do tamanho da população total.

Mas e para o conclave? Aí a história muda completamente. A bula “Romano Pontifici Eligendo” é o código eleitoral da eleição do Papa, e limita o número de cardeais eleitores a 120. Com apenas 120 votantes no conclave, para conseguir a mesma precisão estatística, teríamos que entrevistar nada menos que 114 cardeais! Isso representa 95% do colégio cardinalício! Ou seja, para fazer uma pesquisa minimamente confiável, teríamos que conversar com quase todos os votantes. E se você fala com quase todos, já não é mais uma amostra – é praticamente a eleição em si.

Talvez você esteja pensando: “Mas e se aumentarmos a margem de erro?” Pois bem, mesmo com uma margem generosa de 3%, ainda precisaríamos entrevistar 108 dos 120 cardeais, ou seja, 90% deles. A matemática é implacável.

Vale lembrar outro fator que complica ainda mais as previsões: diferentemente das eleições regulares, onde vence quem obtém maioria simples (ou em segundo turno), o conclave exige uma maioria qualificada de dois terços dos cardeais presentes para eleger o novo Papa. Isso significa que, mesmo que um cardeal seja o preferido por 60% dos eleitores — o que seria uma vitória esmagadora em qualquer eleição de presidente ou governador — ele ainda não teria votos suficientes para ser eleito Sumo Pontífice. Esta regra, estabelecida para garantir amplo consenso na escolha do líder da Igreja, adiciona outra camada de imprevisibilidade matemática ao processo. Não basta ser o favorito da maioria; é preciso construir alianças que atinjam esse patamar elevado de aprovação – tudo isso enclausurado e longe dos analistas.

Por isso esses “especialistas em Vaticano” que surgem na TV a cada morte papal dão verdadeiros tiros no escuro. Não há método estatístico que supere essa limitação fundamental: com um eleitorado tão pequeno, qualquer previsão significativa exigiria entrevistar quase todos os votantes. Some a isso o fato de que os cardeais são extremamente discretos sobre suas preferências, o secretismo absoluto do conclave (selado com juramento), e temos a receita perfeita para a imprevisibilidade.

As especulações midiáticas, portanto, baseiam-se mais em análises de perfil, tendências históricas e supostas alianças entre grupos de cardeais do que em qualquer método estatístico sólido. São mais “achismos” sofisticados do que ciência de dados. Ainda que fôssemos confiar nessas análises de perfil, porém… teríamos que supor que o analista conhece detalhadamente o perfil de mais de 90% dos cardeais, incluindo afetos e desejos que seriam expostos num voto secreto. Se tem cara de lorota, jeito de lorota, talvez seja mesmo lorota.

É fascinante pensar que, enquanto nossa democracia contemporânea recorre a pesquisas cada vez mais sofisticadas para tentar prever resultados eleitorais, uma das eleições mais importantes e antigas do mundo – a do pontífice romano – permanece essencialmente imprevisível, protegida não apenas pelo segredo eclesiástico, mas também pelas próprias leis da matemática.

Então, na próxima vez que você ver aquela fumaça branca saindo da Capela Sistina, lembre-se: o que acabou de acontecer lá dentro foi estatisticamente imprevisível – os católicos dizem que é um voto guiado pelo Espírito Santo. É um dos poucos momentos na atual era de dados e algoritmos em que somos todos genuinamente surpreendidos, exatamente como os fiéis que se aglomeravam na Praça de São Pedro há séculos, esperando descobrir quem seria seu novo líder espiritual.

E talvez seja melhor assim. Num mundo onde tudo parece previsível e mapeado, a escolha do Papa permanece um dos últimos grandes mistérios institucionais, protegido não só pelo ritual e tradição, mas também, ironicamente, pela fria e racional matemática estatística.

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