Mujica, Ratzinger e a dignidade em saber a hora de parar

Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai
Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

No dia 07 de julho de 2021, recebi um ultimato: pare agora. Lembro bem porque essa data marcou o diagnóstico do meu colapso emocional. O diagnóstico de “transtorno depressivo e estresse pós-traumático” no atestado médico encerrou anos de acreditar que parar era fraqueza, até meu corpo puxar o freio de mão de uma vez.

O médico, um geneticista que tinha que investigar meu cariótipo, viu a minha cara e aferiu a minha pressão arterial. Ele me encaminhou para um cardiologista, mas também foi claro: afaste-se do trabalho imediatamente. Na prática, descobri o significado do tal burnout, termo que a psicóloga Christina Maslach definiu como uma resposta prolongada ao estresse crônico, manifestada por exaustão emocional, despersonalização e sensação de baixa realização pessoal. Em bom português: eu havia fritado a ponto de virar um zumbi. E ali estava a receita médica: “repouso e afastamento”. Tomar vergonha na cara também foi por minha conta.

A princípio, encarar o ócio forçado deu um nó na minha identidade. Quem era eu sem o cargo, sem as metas insanas, sem a rotina corrida?

Os dias de licença não caíram bem. Não me importei. Virou demissão. Bom também. Aí começou a cair a ficha do ensinamento do psicólogo Daniel Kahneman: “Nada na vida é tão importante quanto você pensa que é quando você está pensando a respeito”. Em outras palavras, a gente superestima nossos desafios quando está imerso neles. Meu trabalho parecia o centro do universo quando eu vivia afogado nele, mas bastou eu sair para perceber que o mundo continuou girando e, pasmem, eu não fui atingido por um raio por “desistir”.

Passei dois meses na Europa. Minha mãe, achando que eu tinha ficado doido, não discutiu, mas também não me deixou ir sozinho. Esteve lá comigo. Assistimos um show do Genesis em Glasgow.

De volta ao Brasil, troquei de cidade e emprego; quase um bon vivant. Aquela ligação das duas da manhã? Esquece. Me procurem no Galeto Sat’s.

Hedonista, eu? Se ser hedonista é dar valor às pequenas alegrias, então assumi o rótulo sem culpa. Acordar sem despertador, ir à Le Dépanneur da Voluntários da Pátria antes de pegar o metrô até o Piranhão. Que heresia deliciosa! Passei a dizer “não” à sobrecarga e “sim” ao autocuidado. Priorizar o prazer de viver conscientemente, em vez de cuidar da loucura alheia, tornou-se meu novo padrão. Como Victor Frankl escreveu certa vez, “Quando não podemos mais mudar a situação, nós nos desafiamos a mudar a nós mesmos”.

Comecei a redescobrir hobbies esquecidos, viver. Aquela sensação de alegria espontânea tem nome: flow. Mihály Csíkszentmihályi o descreveu como o estado em que estamos tão imersos numa atividade prazerosa que perdemos a noção do tempo: “a verdadeira felicidade é quando a vida flui.”

Os tarados por política acompanharam essa história pelo lado da treta. Não importa mais. Se você não sabe, não procure. O advogado custou caro até hoje, mas valeu a pena. Tinha quem dizia que iriam me matar. Tinha quem torcia o nariz e sussurrava que eu tinha surtado só ficava muito preguiçoso. Um sujeito me chamou de egoísta por preferir cuidar de mim em vez de me expor pelos problemas dele. É o que Roger Waters chamou de “the bravery of being out of range”. Na verdade eu estava aprendendo uma lição poderosa: saber parar também é uma forma de sabedoria. Essa, porém, não é uma história sobre política, embora a política passe por ela.

Hoje, já no meu novo eu, feliz e com limites saudáveis de trabalho, apresentei a um cliente do mundo político o resultado de um trabalho que me ocupou nos últimos dois meses. Cheguei em casa e vi a notícia da morte de Pepe Mujica. Esse também é um político. Mas aqui quero falar de outro exemplo dele.

Em 2020 aos 85 anos, Mujica renunciou ao cargo de senador e se aposentou da vida pública ativa. “Na vida, há um tempo para chegar e um tempo para se despedir”. A frase poética e um tanto literal, vinda de quem já viveu de tudo, mostra a lucidez de perceber que sua missão já se cumprira. Na campanha do atual presidente Yamandú Orsi, Mujica anunciou estar “perto de se retirar para o lugar de onde não se volta”. Em sua última entrevista, em janeiro deste ano, se despediu dos uruguaios e se recolheu em sua fazenda: “O que eu quero é me despedir dos meus compatriotas. É fácil ter respeito por aqueles que pensam como você, mas você tem que aprender que a base da democracia é o respeito por aqueles que pensam diferente”, declarou.

Até mesmo um Papa enxergou dignidade em parar na hora certa. Em 2013, Bento XVI surpreendeu o mundo ao anunciar sua renúncia ao pontificado. Joseph Ratzinger, aos 85 anos, mostrou coragem ao admitir: “já não tenho forças para exercer adequadamente o ministério petrino” . Com saúde fragilizada e idade avançada, Bento XVI reconheceu seus limites físicos e decidiu passar o bastão (ou melhor, o báculo) adiante. Ele saiu em pleno respeito, abrindo caminho para uma nova liderança na Igreja Católica, o Papa Francisco. Muitos viram nesse gesto humildade e modernidade: um líder espiritual admitindo que não é super-homem.

Se eu disse mais cedo que entreguei um projeto que me ocupou pelos últimos meses, volto à minha agenda graciosamente livre para me preocupar só com o que me faz feliz. E isso também deixa meu cérebro mais afiado para entregar bons resultados para meus clientes. Meus próximos compromissos são com os Pretenders, o Nile Rodgers, e, ao fim do mês, com Marina Lima no Palácio das Artes.

Marina me lembra de um caso mais dramático e, ao mesmo tempo, digno de muito respeito: o de seu irmão, o poeta e filósofo Antônio Cícero, que levou o saber parar a um nível definitivo. Aos 79 anos, diagnosticado com Alzheimer, ele optou por uma morte assistida na Suíça, enquanto ainda tinha lucidez para decidir. Em uma carta a seus amigos, escreveu: “Espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade . Que frase poderosa e serena!

Cícero explicou que já não conseguia escrever, nem mesmo ler com a concentração de antes, e não reconhecia mais algumas pessoas próximas. Para um intelectual cuja vida sempre foi feita de ideias e versos, perder isso era insuportável. Com a coragem que lhe era peculiar, ele decidiu parar antes de se ver totalmente consumido pela doença. Morrer também é parar, e Antônio Cícero encarou esse dilema extremo de frente, sem tabu. Seu gesto reacendeu debates sobre autonomia, eutanásia e, acima de tudo, sobre a dignidade de escolher quando dizer adeus. Não há como não sentir um misto de tristeza e admiração ao pensar nisso. Ele nos deixou uma última lição poética: se a vida tem um ciclo, ele preferiu fechar o dele pelo próprio punho, com a mesma elegância com que viveu. Daniel Kahneman, que citei mais cedo, optou pelo mesmo caminho. Comparado a isso, pedir demissão ou mudar de carreira é fichinha, não é?

Martin Seligman, o pai da psicologia positiva, enfatiza que uma vida plena se apoia em prazer, engajamento e significado. Ou seja, tão importante quanto persistir é saber parar, refletir e redirecionar.

Hoje olho para trás e não reconheço aquela versão de mim que achava que tirar o pé do acelerador seria o fim do mundo. Que minha vida dependia de gerir o sucesso e o fracasso alheio. Aprendi, na prática e na teoria, que cuidar da própria vida pode ser libertador. Quando a gente abraça nossos limites, eles deixam de ser inimigos e se tornam guias.

Encontrar dignidade em saber parar não significa “largar tudo e vender arte na praia” (a menos que esse seja seu sonho, aí vá em frente!). Significa ter a coragem de priorizar a vida que vale a pena ser vivida. Viktor Frankl, lá atrás, falava do porquê da vida, aquele sentido maior que nos faz aguentar tudo. Eu descobri que meu porquê não era viver a vida alheia, e tudo bem! Meu porquê passou a ser a busca de uma vida mais leve e consciente, onde eu estou presente de verdade.

Voltei ao mercado de trabalho depois de um tempo, sim (meu estilo de vida custa caro), mas voltei diferente. Me dedico exclusivamente à minha pessoa jurídica, com um ritmo saudável, e sem medo de, no futuro, parar de novo se sentir que devo. Perdi o medo de fechar ciclos. Não preciso mais esperar a hipertensão arterial. Agora sei identificar os sinais de que é hora de desacelerar: quando a alegria some por muito tempo, quando telefone tocando à noite vira terror… É quando lembro do Mujica com seu “cansaço de longa viagem”, do Bento XVI acenando adeus, do Antônio Cícero buscando a última liberdade. Lembro que todos eles sobrevivem em suas lições.

Saber parar é, em última análise, um ato de amor-próprio e de humildade diante da vida. Humildade para reconhecer que não somos infinitos (nem insubstituíveis), e amor-próprio para nos poupar do sofrimento desnecessário.

No fim das contas, não se trata de encorajar ninguém a jogar a toalha a qualquer contrariedade: perseverança tem seu lugar, claro. Trata-se de desfazer o estigma do fim de ciclo. Encerrar algo não é falhar, é simplesmente parte natural da jornada. Pode ser o emprego estressante, um projeto inviável ou até um ciclo pessoal de hábitos que já não fazem bem. Há imensa dignidade em saber dizer “basta” quando necessário. É como o maestro que encerra a sinfonia no tom certo, em vez de prolongar as notas até virarem ruído. Ou como saber a hora exata de sair da festa.

Termino este relato com bom humor e esperança. Leveza, aprendi, é coisa séria. Troquei a ambição cega pela ambição de ser feliz, e garanto que funciona. Se me virem por aí numa segunda-feira de manhã com um sorriso bobo, não estranhem. Não é falta de juízo, é sanidade recuperada.

Em suma, descobri que a vida tem mais sabor quando a gente se permite saboreá-la, e não dá para fazer isso correndo sem parar. Que tenhamos então a sabedoria de Pepe Mujica, a coragem de Bento XVI, a profundidade de Antônio Cícero (mas, esperamos, sem precisar ir tão longe quanto ele). Que tenhamos a nós mesmos. E que possamos, com leveza e humor, saber a hora de parar, apreciar o dolce far niente quando preciso, e depois recomeçar quantas vezes for necessário, cada vez mais conscientes e vivos.

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