Mais de 100 indígenas Tikműʼũn-Maxakali se reúnem nesta quinta-feira (15), às 15h, no auditório da Procuradoria-Geral de Justiça de Minas Gerais, em Belo Horizonte, para um marco histórico: o lançamento do primeiro livro bilíngue – em português e Maxakali – contendo os Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) dos quatro territórios Maxakali no nordeste de Minas. Produzida coletivamente, a obra sintetiza estratégias de proteção ambiental, enfrentamento às mudanças climáticas e fortalecimento da cultura Tikmű’ũn, presente na região desde o século XVI.
O evento, que contará com cantos tradicionais indígenas e a entrega de kits com o livro, bolsa, catálogo da exposição e cartões postais, ressalta a força e o protagonismo do povo Maxakali na defesa de sua terra. Autoridades como o Procurador-Geral de Justiça de Minas Gerais, Paulo de Tarso Morais Filho, a cônsul dos EUA em Belo Horizonte, Kristie Di Lascio, e a deputada federal Célia Xakriabá já confirmaram presença.
Os chamados “Planos de Vida”, como os Maxakali nomeiam os PGTAs, resultaram de oficinas realizadas em 2023 e detalham ações concretas para garantir o bem-estar das comunidades. Entre as propostas, destacam-se o reflorestamento, proteção de nascentes, soberania alimentar, manejo sustentável, educação indígena e preservação da língua Maxakali, além de gestão comunitária e prevenção de incêndios.
Sueli Maxakali, liderança da Aldeia-Escola-Floresta, resume a esperança coletiva: “Os Tikmű’űn sabem curar esta terra. O nosso sonho é a mata voltar! Para que a nossa terra viva de novo!”
A publicação integra a Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI), criada em 2012 para promover a autonomia dos povos na administração de seus territórios. Os planos serão atualizados de acordo com novas demandas, e mapas temáticos acessíveis online fortalecem a organização e defesa dos direitos territoriais.
Exposição e projeto de recuperação ambiental
O lançamento do livro coincide com a abertura da exposição “Hãmhitupmã – Alegrar a terra”, que apresenta os resultados do projeto Hãmhi Terra Viva, voltado à formação de agentes agroflorestais, implantação de sistemas agroflorestais e restauração de áreas degradadas em quatro municípios – Santa Helena de Minas, Bertópolis, Ladainha e Teófilo Otoni, este último uma das cidades que mais aqueceram no Brasil, segundo o Cemaden.
O projeto, coordenado pelo Instituto Opaoká e viabilizado pelo Ministério Público de Minas Gerais, conta com parcerias institucionais e apoio técnico. Fotografias, cantos dos espíritos yãmîyxop e textos explicativos compõem a mostra, que revela a cosmovisão Tikmű’ũn: um povo de língua isolada, do tronco Macro-Jê, com forte tradição oral e espiritual, marcada pelo canto coletivo e profunda relação com os “encantados”.
Com cerca de 2.629 pessoas distribuídas em quatro territórios e uma aldeia-escola, os Tikmű’ũn-Maxakali enfrentam desafios históricos: falta de acesso à água potável, insegurança alimentar e elevada mortalidade, agravados por destruição ambiental e racismo estrutural.
No entanto, iniciativas como o projeto Hãmhi Terra Viva já apresentam avanços concretos: desde junho de 2023, mais de 156 hectares de Mata Atlântica foram restaurados e 60 hectares de quintais agroflorestais implantados, fortalecendo a soberania alimentar e revalorizando saberes ancestrais aliados a práticas contemporâneas.
Mais informações e materiais:
www.hamhi.org/lançamento-do-livro-dos-pgtas