Entre a lacração e o negacionismo autoritário

O governador Romeu Zema.
O governador Romeu Zema. Foto: André Cruz/Digital MG

O governador de Minas Gerais, Romeu Zema, na tentativa de se projetar nacionalmente e se cacifar como candidato presidencial em 2026, passou a adotar uma persona pública que transita entre o populismo digital e um perigoso flerte com o autoritarismo. Ao contrário do estilo de gestor técnico que tentou vender no início da carreira, suas atuações nas redes sociais e nas entrevistas concedidas recentemente revelam um político que parece disposto a tudo pelo poder, para atrair a simpatia do eleitorado de extrema direita: de estratégias que misturam superficialidade midiática e polarização rasteira com revisionismo histórico de regimes autoritários e relativização de princípios democráticos.

Nos últimos meses, Zema intensificou sua presença nas redes sociais com vídeos que, longe de demonstrar seriedade administrativa, apelam sem pudor para a espetacularização sensacionalista da política, em uma lógica de “lacrador de direita” para viralizar a qualquer custo, replicando a postura tosca e batida de outros políticos mineiros, como o deputado federal Nikolas Ferreira e o senador Cleitinho.

Em um deles, comeu uma banana com casca para criticar a alta dos preços dos alimentos, numa encenação que beira o ridículo. Em outro, vestiu a camisa da seleção brasileira em oposição à “camisa vermelha” proposta por uma empresa esportiva – uma clara provocação ao PT e seus eleitores. Essa lacração caricata apenas alimenta o esvaziamento da política, reforçando divisões artificiais e incendiando a arena política com desinformação e maniqueísmo.

Mais grave, porém, é o posicionamento de Zema em relação à ditadura militar brasileira (1964-1985) e sua admiração pelo modelo autoritário de Nayib Bukele, presidente de El Salvador. Em entrevista à Folha de São Paulo no último dia 04 de junho, Zema colocou em dúvida a existência da ditadura militar, que seria, para ele, uma “questão de interpretação”. Essa tentativa perigosa de minimizar a gravidade da ditadura e reescrever a história é uma afronta às vitimas do regime – que sofreram torturas, desaparecimentos e censura – e aos cidadãos brasileiros – que tiveram seus direitos e suas liberdades políticas tolhidas. Em outras ocasiões, Zema já contemporizou a gravidade da tentativa de golpe de estado do 8 de janeiro de 2023 e defendeu anistia para os criminosos condenados lá presentes, reforçando o pouco apreço que tem pela democracia brasileira.

A relativização da ditadura por Zema não é um ato isolado. Ela se alinha ao seu entusiasmo por Bukele, presidente de El Salvador, conhecido tanto por sua política de “mão de ferro” na segurança pública como também por praticar um autoritarismo moderno. Em maio de 2025, Zema publicou um vídeo repetindo teorias conspiratórias do presidente salvadorenho, sugerindo, sem provas, que facções criminosas estariam infiltradas no governo brasileiro. Poucos dias depois, desembarcou em San Salvador para encontros com autoridades locais – apesar de não ter sido recebido por Bukele -, elogiando sua política de segurança como modelo para Minas Gerais e para o Brasil, especialmente o encarceramento em massa de supostos criminosos.

Zema parece ignorar que a “receita” de Bukele, baseada em um estado de exceção renovado periodicamente, que viola sistematicamente direitos humanos, com prisões arbitrárias, julgamentos que desrespeitam o devido processo legal e suspensão de liberdades civis. Além do mais, desconsidera as denúncias de autocratização de El Salvador sob a liderança de Bukele, que destituiu juízes da Suprema Corte para controlar o Judiciário, se reelegeu de forma inconstitucional, e persegue opositores e a imprensa.

Essa performance teatral para redes sociais e esse discurso cínico e relativista sobre ditaduras podem até render curtidas e engajamento virtual na atual raia histórica em que vivemos, mas promove a polarização tóxica, sacrifica a verdade histórica, desinforma a população e pode comprometer, no futuro, a democracia do país. Minas Gerais – e o Brasil – merecem mais do que um governador que se contenta em ser uma caricatura de si mesmo: precisamos de um líder que saiba o peso do cargo que ocupa, a gravidade das palavras que profere e que enfrente nossos problemas com seriedade. Lacrar pode gerar manchetes, mas governar com responsabilidade exige muito mais do que isso.

Lucas Azevedo Paulino

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