Lítio a preço de banana

Foto mostra área de operação subterrânea da CBL, em Araxá.
Imagem mostra área de operação subterrânea da CBL, em Araxá. Foto: Divulgação/CBL

Em viagem aos Estados Unidos no ano passado, o governador Romeu Zema se reuniu com empresários de várias partes do mundo para tentar atrair investimentos ligados à exploração do lítio. A crescente demanda mundial pelo insumo e o otimismo demonstrado pelo governador diante da perspectiva de “vender” o lítio de Minas levam a uma pergunta:

Por que Zema vendeu, em 2022, a participação societária do Estado na Companhia Brasileira de Lítio (CBL), uma das mais promissoras empresas do país, a preço de banana?

Sediada em Divisa Alegre, no Vale do Jequitinhonha, a CBL é a única empresa na América Latina a beneficiar o espodumênio de lítio, matéria-prima essencial à produção de baterias para veículos elétricos, que é extraída de uma lavra localizada na região, entre os municípios de Araçuaí e Itinga. Toda a tecnologia utilizada pela CBL foi desenvolvida pela própria companhia para responder à chamada “febre do lítio”, que teve início em 2018, ano em que o governo de Minas decidiu comprar 33,33% das ações da companhia.

Quatro anos depois, no entanto, em meio a anúncios de investimentos bilionários no Vale do Jequitinhonha por gigantes do ramo da mineração como Sigma e Atlas Lítio, inexplicavelmente, o governador vendeu por uma quantia irrisória a participação do Estado na CBL, a despeito de a empresa deter não apenas o insumo, mas a tecnologia, o produto e o mercado.

Para ter a exata dimensão da oportunidade desperdiçada é preciso ter ainda em conta que, quando Zema colocou à venda sua participação do estado na companhia, empresários chineses interessados no negócio visitaram não só a indústria, mas também a lavra. E em vez de comprarem a própria CBL, os visitantes adquiriram uma montanha de rejeitos que lhes renderia um faturamento milionário que, curiosamente, não foi levado em conta no momento em que o valor das ações detidas até então pelo governo de Minas foi calculado.

Analisando o relatório de auditoria conclui-se que a participação societária de 33% foi vendida por um valor inferior a um mês de faturamento e três vezes menor que o valor dos rejeitos vendidos pela filial da CBL aos chineses.

Ao contrário disso, o valor foi estipulado com base em balanços de anos anteriores, o que, obviamente, levou o preço ao chão. E também não considerou um ativo fundamental da CBL – a tecnologia – que teria elevado consideravelmente o patamar da negociação, uma vez que a empresa já produzia o carbonato de lítio grau bateria, insumo cuja importância só é menor atualmente do que o petróleo.

Voltamos, então, à questão inicial: qual o sentido de promover roadshows no exterior com a alegação de que deseja atrair investimentos para o Vale do Jequitinhonha centrados na mineração e exportação do espodumênio de lítio em seu estado primário, quando o estado era sócio de uma empresa que transforma esse mineral em algo 40 vezes mais valioso? Por que o governo Zema vendeu essa participação por um preço tal irrisório? Só mesmo o governador seria capaz de respondê-la.

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