O tarifaço imposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao Brasil não é apenas um gesto de endurecimento comercial. É um ataque à soberania nacional, uma tentativa de interferência direta na vida política e institucional brasileira, e um sintoma da escalada de um novo tipo de guerra — menos fria, mas não menos ideológica — travada no tabuleiro da geopolítica contemporânea.
Trump age com a arrogância típica dos que veem a América Latina como quintal de seus interesses estratégicos. Ao atrelar tarifas punitivas a processos internos do Brasil — em especial o julgamento dos atos terroristas de 8 de janeiro e a responsabilização do ex-presidente Jair Bolsonaro — Trump cruza uma linha perigosa: a do uso do poder econômico para intimidar o sistema de justiça de um país soberano.
A mensagem é clara: se o Brasil ousar aplicar sua Constituição e punir golpistas, sofrerá retaliação econômica. É chantagem pura, feita com o timbre da Casa Branca. O gesto ofende não apenas o Supremo Tribunal Federal, mas o Estado Democrático de Direito brasileiro como um todo.
Mas há mais por trás desse movimento. Não se trata apenas de solidariedade ideológica com Bolsonaro, seu aliado de ultradireita. O que está em jogo é a insatisfação dos EUA — especialmente sob Trump — com a posição de protagonismo que o Brasil vem ocupando no cenário internacional, especialmente no âmbito dos BRICS.
Sob a liderança do presidente Lula, o Brasil tem se esforçado para construir uma diplomacia multilateral, dialogando com os países do Sul Global e defendendo abertamente a criação de uma moeda comum entre os membros do bloco. A proposta, embora tecnicamente complexa, tem um valor simbólico gigantesco: questiona a hegemonia do dólar e o monopólio das regras financeiras ditadas por Washington e seus aliados.
Ao mirar no Brasil, Trump mira no BRICS. Ao atacar o STF, tenta desacreditar o avanço institucional de um país que não mais se curva docilmente. Ao apoiar Bolsonaro, busca reabilitar uma agenda que não conseguiu vencer nas urnas — nem lá, nem cá.
O tarifaço é, portanto, um instrumento de guerra híbrida. Não é sobre soja, aço ou tecnologia. É sobre subordinação ou soberania. É sobre se calar diante de uma nova ordem multipolar ou resistir — ainda que a um custo.
O Brasil não pode tolerar esse tipo de afronta. É urgente que o Itamaraty, o Congresso e a sociedade civil repudiem, com clareza e firmeza, essa tentativa de tutela externa. O país não pode aceitar que decisões judiciais, baseadas em evidências e em nosso ordenamento jurídico, sejam reféns de pressões comerciais vindas de um governo estrangeiro.
A democracia brasileira custou caro demais para ser rifada em nome de acordos comerciais. E a soberania nacional não está à venda — nem em dólar, nem em retaliações tarifárias.