Tarifaço: exportações do agro mineiro para os EUA já renderam receita de US$ 1 bi neste ano

País de Donald Trump é o segundo que mais compra dos produtores rurais do estado; setor aposta em saída negociada para impasse
Produção cafeeira
Produção cafeeira é um dos itens da pauta de exportação de Minas para os EUA. Foto: Emater-MG/Divulgação

As exportações do agro de Minas Gerais rumo aos Estados Unidos da América (EUA) já renderam receitas de cerca de US$ 1 bilhão para o setor apenas nos primeiros cinco meses deste ano. O montante representa certo avanço em relação à arrecadação com produtos repassados aos EUA em todo o ano de 2024, que girou em torno de US$ 1,9 bilhão.

Os dados das exportações do agro de Minas aos EUA foram encaminhados a O Fator por Feliciano Nogueira, superintendente de Inovação e Economia Agropecuária da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), nesta quinta-feira (10), um dia após o presidente norte-americano Donald Trump anunciar uma taxa de 50% sobre todos os produtos brasileiros.

Segundo Feliciano, o estado enviou 252 mil toneladas de produtos agrícolas aos norte-americanos neste ano. No ano passado, o volume de exportações para os EUA esteve próximo das 750 mil toneladas. O número de 2024 corresponde a aproximadamente 12% de toda produção mineira enviada a outros países.

Na balança comercial do agro mineiro, os EUA ocupam o segundo lugar na lista dos países compradores, perdendo apenas para a China. 

“A gente entende que ainda é muito incipiente para uma análise mais detalhada, porque a notícia apareceu ontem. Ficamos um pouco reticentes quanto a ter uma previsão mais certeira em relação ao que pode acontecer. Mas, se de fato persistir, o que vamos encontrar é uma redução na exportação de produtos agro, haja vista ser o segundo maior parceiro comercial do agro de Minas Gerais”, aponta Feliciano Nogueira.

A importância norte-americana para o fluxo de ganhos dos produtores rurais mineiros faz com que o superintendente de Inovação da pasta de Agricultura deposite fichas em uma saída negociada.

“Nossa torcida é para que haja um entendimento diplomático entre ministérios e as lideranças políticas no sentido de que isso (a taxação) seja revertido e não haja prejuízos a Minas Gerais”, diz.

Terceira posição em ranking nacional

Considerando mercadorias de outros setores produtivos, Minas já embarcou mais de US$ 2,4 bilhões em insumos para os EUA entre janeiro e junho deste ano. O resultado deixa o estado na terceira posição do ranking nacional de exportações para o país de Trump.

Além do agronegócio, ramos como a indústria de transformação e o setor de commodities também podem ser prejudicados com a decisão da Casa Branca de impor a nova tarifa.

No que tange ao campo, os principais produtos da pauta exportadora de Minas rumo aos EUA são café, carne — especialmente as de origem bovina —, produtos florestais, derivados de frutas e produtos apícolas. Neste ano, a relação entre Minas e Washington tem sido marcada, também, pelo envio de parte da produção do setor sucroalcooleiro.

A decisão do presidente norte-americano levou preocupação a players do setor agrícola. A Academia Latino-Americana do Agronegócio (Alagro) emitiu nota de repúdio ao tarifaço. Trata-se, segundo a entidade, de “medida gravíssima”, que “potencializa impactos severos sobre empregos, produção, investimentos e cadeias produtivas integradas entre os dois países”.

Ovos ganharam projeção em cenário excepcional

O setor avícola de Minas Gerais terminou o primeiro trimestre deste ano sob felicidade por causa de lucro recorde. Os US$ 4 milhões arrecadados — aumento de 266% em relação ao mesmo período de 2024 — foram impulsionados, sobretudo, pelo aumento da demanda dos EUA por ovos.

O país enfrentou uma crise decorrente de casos de gripe aviária e precisou recorrer a parceiros internacionais para suprir a demanda. A busca por ovos mineiros, de acordo com Feliciano Nogueira, é pontual. 

“Foi um momento em que a gripe aviária atingiu os Estados Unidos e, com isso, os EUA buscaram mercados internacionais para suprir a demanda. Nessa ocasião, Minas Gerais atendeu a essa demanda. Mas imaginamos que seja uma situação mais episódica. Não faz parte da pauta rotineira da exportação do agro para os Estados Unidos”, explica.

Os motivos de Trump 

A sobretaxa de 50% está prevista para começar a valer em 1° de agosto. O novo tributo foi anunciado por Trump em uma carta endereçada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). 

No documento, o chefe do governo norte-americano ignora o superávit de seu país na balança comercial com o Brasil e afirma que a relação entre os países é deficitária para os EUA.

Segundo Trump, a taxa serve para “corrigir os muitos anos de políticas tarifárias e não-tarifárias e barreiras comerciais do Brasil”.

Como pano de fundo, há a conjuntura política. Aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Trump aproveita a carta para protestar contra o que chama de “caça as bruxas” contra o capitão reformado. Bolsonaro está inelegível por determinação da Justiça Eleitoral e é réu no Supremo Tribunal Federal (STF) na investigação sobre a tentativa de golpe de Estado após a eleição de 2022.

“Conheci e lidei com o ex-presidente Jair Bolsonaro, e o respeitei muito, assim como a maioria dos outros Líderes de Países. A forma como o Brasil tratou o ex-presidente Bolsonaro, um líder altamente respeitado em todo o mundo durante seu mandato, inclusive pelos Estados Unidos, é uma vergonha internacional. Este julgamento não deveria estar acontecendo. É uma caça às bruxas que deve acabar imediatamente”, diz.

Trump ainda atacou o Supremo Tribunal Federal (STF), criticando a Corte por decisões que, em sua avaliação, promoveram “ataques insidiosos do Brasil às eleições livres e aos direitos fundamentais de liberdade de expressão dos americanos”. Trata-se de menção indireta a casos como a suspensão temporária do X por causa do descumprimento de ordens judiciais.

Em resposta, Lula evocou o princípio da reciprocidade econômica. Assim, segundo ele, o Brasil fará contrapontos tributários a “qualquer medida de elevação de tarifas de forma unilateral”.

“O Brasil é um país soberano com instituições independentes que não aceitará ser tutelado por ninguém. O processo judicial contra aqueles que planejaram o golpe de estado é de competência apenas da Justiça Brasileira e, portanto, não está sujeito a nenhum tipo de ingerência ou ameaça que fira a independência das instituições nacionais”, rebateu.

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