É a realidade, estúpido!

Lula concedeu duas entrevistas para falar sobre tarifaço de Trump.
Lula concedeu duas entrevistas para falar sobre tarifaço de Trump. Foto: Ricardo Stuckert/PR

Aconteceu: Nikolas Ferreira fez um vídeo ruim e Lula da Silva fez um pronunciamento decente. Não dá para negar que Nikolas Ferreira é o maior comunicador político da atualidade. Seus vídeos pautam o debate nacional e, para parte da população, ele foi alçado à posição de herói após ter unilateralmente derrubado o que se acreditava que seria a taxação do Pix, o sistema de pagamentos que caiu no gosto do brasileiro.

De outro lado, todo mundo sabe que eu acho a comunicação do governo federal ruim, mas não atribuo esse problema a uma falha dos comunicadores ou marqueteiros. Atribuo ao fato de o governo federal ser ruim. E aí vem o ponto central que esse episódio escancarou de uma vez por todas: comunicação não supera a política. Nenhuma. Nunca.

Lula fez um pronunciamento bom sobre o ato de Trump contra o Brasil porque ele arrumou uma solução fácil. Existe um antiamericanismo latente no Brasil, e existe um buraco muito relevante na popularidade do bolsonarismo e de grupos ligados à direita, naturalmente opositores de Lula, que é o seguinte: o deputado Eduardo Bolsonaro anunciou orgulhosamente que conseguiu uma sanção econômica contra os próprios apoiadores. O bolsonarismo contra o agro! Não há o que se extrair além disso.

A comunicação que se produz a partir desses fatos é simples. Lula pegou carona no inimigo externo, o que é a coisa mais fácil do mundo para qualquer político, enquanto Nikolas, pela primeira vez, teve que ficar numa posição defensiva. Porque ele teve que defender uma atitude estúpida do grupo político dele. E nem a habilidade extrema de comunicação de Nikolas Ferreira resolve isso.

É importante lembrar qual era o combinado. O que se prometeu ao Brasil era articular com Donald Trump uma sanção ao ministro Alexandre de Moraes, por meio da Lei Magnitsky — ou seja, uma sanção terrível, fortíssima, mas em cima de um CPF só. Agora, o que ocorreu foi que a briga entre o bolsonarismo e o STF botou os industriais, os produtores de café, os produtores de suco de laranja como reféns de uma disputa entre uma família e um ministro do Supremo.

E aí o que o bolsonarismo diz? Confirma que estão dispostos a prejudicar o país inteiro com apoio dos Estados Unidos da América para atender um desejo pessoal do patriarca Messias. O cheerleader da tragédia foi ninguém menos que Eduardo Bolsonaro. Ele comemorou a medida de Trump em caps lock, e assumiu que foi ele mesmo que pediu. Trump endossou. Está no primeiro parágrafo da cartinha dele. Verba volant, scripta manent. Faltou só vestir um chapéu do Tio Sam. Era como se estivesse torcendo para o Crüzeiro em plena Arena MRV. Um deputado brasileiro celebrando uma sanção econômica contra o próprio país. Virou o garoto-propaganda do tarifaço. É surreal, mas aconteceu. É tipo assistir um episódio de Pinky & o Cérebro. Só que apenas com o Pinky.

E aí não sobra nada para o beta. Um dos comunicadores mais hábeis da política brasileira, dono de um repertório de virais que fariam qualquer marqueteiro corar de inveja, ficou encurralado por um problema que não era técnico, era político. Foi a primeira vez que ele teve que defender uma atitude estúpida do grupo político dele. E o que ele fez? Engoliu a contraindicação. Gravou um vídeo todo atrapalhado, sem a convicção de sempre, tentando dar conta de uma pauta indefensável. Ficou evidente que ele, ali, não estava em posição de ataque. Estava na defensiva. O que, na trajetória dele, é algo inédito, e por isso, sintomático.

O que eu devo ressaltar é o tamanho da lealdade e da hombridade do deputado Nikolas. Ele vive sendo criticado por bolsonaristas por ter feito alguns movimentos que não interessavam tanto assim ao grupo político do Jair. Por exemplo, quando ele se encontrou com o influenciador Renato Trezoitão, que é um cara de direita mas que não é exatamente alinhado ao bolsonarismo, ele foi criticado. Quando ele foi chamado em nome do PL para bater no Pablo Marçal em São Paulo, ele não foi, e dizem as más línguas que levou bronca do presidente do PL. O deputado mineiro estava de boa lá na sua quebrada, e ignorou Valdemar, que veio dar ideia errada. Certo ele. Errado é o bolsonarista que critica o mais talentoso do próprio grupo.

Existia aí uma oportunidade muito grande para Nikolas falar assim: “Olha, eu defendo a sanção ao Alexandre de Moraes, eu quero que o Alexandre de Moraes seja punido pela Lei Magnitsky, mas eu não quero colocar o Brasil como refém dessa situação”. Era uma posição defensável, coerente e até estrategicamente vantajosa. E eu tenho certeza que o Nikolas é inteligente o suficiente para saber disso. E só não fez porque a realidade política dele pediu um pouco de lealdade com a decisão do bolsonarismo. Mas, como um amigo meu certa vez disse, o bolsonarismo é isso. A necessidade de reiteração do pacto de sangue é constante e a demanda é infinita. Ou então você não é um deles. Para isso, não tem talento que resolva. Foi uma escolha política, não comunicacional.

Aliás, o senador Cleitinho cometeu mais ou menos o mesmo erro. Apesar de também ser um grande comunicador desse campo, inclusive com a capacidade de ir além, como no caso da escala 6 x 1 que lhe rendeu elogios até do outro lado da polarização, ele sucumbiu.

Candidato ao Palácio Tiradentes, senador Cleiton poderia ter sido certeiro: “Eu apoio as sanções da Lei Magnitsky contra o Alexandre de Moraes. Não contra o produtor de café de Minas Gerais.” Era o discurso perfeito para um pré-candidato a governador do estado. Mas a necessidade subserviente de agradar o plano infalível do Cebolinha que o Eduardo Bolsonaro fez coloca eles num campo em que não conseguem fazer a melhor comunicação possível. Eles sabem fazer. Eles podiam fazer. Eles não fizeram por um motivo político.

Assim como eu defendo que o Sidônio ou o Paulo Pimenta também tinham problemas não por não saberem comunicação, mas por terem um problema político, aqui se repete o padrão: quando o custo político é alto, a comunicação trava.

E Lula? Lula fez um pronunciamento patriota, pró-agronegócio, pró-exportações. Só não dá para falar que é pró-mercado porque ele às vezes flerta com umas bobagens, tipo retaliar nas importações que o Brasil faz dos Estados Unidos. E todo mundo com mais de três neurônios sabe que, quando você cobra imposto de importação, você cobra impostos dos seus próprios cidadãos.

A conjuntura jogou no colo do Lula o tipo de enredo mais fácil de trabalhar na política brasileira: o inimigo externo. E isso, convenhamos, é uma delícia de surfar. Tem um antiamericanismo latente no Brasil. É como fermento biológico: sempre tem um pouquinho ativo na massa. Basta misturar e deixar crescer.

Lula soube fazer isso com uma maestria pragmática. Posou de defensor da soberania nacional, amigo do agronegócio, guardião dos empregos. Até pareceu liberal por uns dias. A comunicação funcionou não porque melhorou. Mas porque a realidade ajudou. Foi o segundo melhor presente possível que o ilustre figurante deEsqueceram de Mim 2 – Perdido em Nova York” podia dar pro Lula. Pra terminar de ajudar a atrapalhar, só falta o Trump mandar um brasileiro pro CECOT. 

Outra ironia disso tudo é a oportunidade para Lula refletir sobre o que foi, em minha visão, a maior cagada do governo dele: a tal da taxa das blusinhas. Porque, ali, quando ele (ou a sua conje) prometeu taxar apenas as empresas e não os consumidores, se gerou uma crise de credibilidade tão grande que qualquer outra movimentação tributária dele gera automaticamente uma crise de credibilidade. Ficou marcado.

Não importa o talento do marqueteiro, do assessor, do criador de conteúdo. Quando o enredo é ruim, o vídeo será ruim. Quando o enredo é bom, até o mais cansado dos oradores parece inspirado. No fim das contas, é a realidade, estúpido! – parafraseando James Carville, famoso conselheiro do Bill Clinton. Comunicação nenhuma faz milagre sozinha. Quando a política vai bem, até tropeço vira estilo; quando vai mal, até gênio da mídia vira flop. Resta saber quem vai aprender essa lição.

A política brasileira é boa de ironias. Mas essa semana nos deu um banquete. Os autoproclamados patriotas pedindo sanções americanas contra o Brasil. Eduardo Bolsonaro comemorando em inglês o prejuízo nacional. Lula, sempre acusado de ser anti-mercado, defendendo livre comércio. Mas agora, dessa vez, quem atentou contra o livre comércio foi Donald Trump. E aí o Presidonald encarece o café do próprio eleitor dele a partir de uma ideia maoísta de que comércio é ruim. E essa ideia tem que ser combatida por todo mundo que sabe que a humanidade só prosperou a partir de trocas livres e voluntárias entre as pessoas.

Surgiu uma oportunidade para um campo político defender patriotismo e os interesses do agronegócio. Parece que é Lula que vai pegar. Vamos ver o que vem por aí. Não dá para saber ainda.

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