A Prefeitura de Mateus Leme, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, nomeou, como servidor comissionado, um homem acusado de comandar um esquema de tráfico humano nos Estados Unidos da América (EUA). Desde maio, Chelbe Wiliams Moraes ocupa um cargo na Controladoria-Geral do Município, setor que tem a missão de zelar pela transparência e combater irregularidades na prefeitura.
O ato da nomeação de Chelbe como assessor é assinado pelo prefeito Dr. Renilton (Republicanos). Segundo consulta ao Portal da Transparência, ele recebe salário bruto superior a R$ 8,7 mil.
Nos EUA, Chelbe figura como um dos alvos de uma investigação sobre imigração ilegal e trabalho forçado. As autoridades norte-americanas o acusam de integrar um esquema operado em família que, a partir de Minas Gerais, teria explorado imigrantes brasileiros em dois restaurantes de Massachusetts — o Taste of Brazil – Tudo Na Brasa e o The Dog House Bar & Grill. Os estabelecimentos seriam comandados por seu irmão, Jesse James Moraes, e pelo sobrinho, Hugo Giovanni Moraes.
A então procuradora dos Estados Unidos para o Distrito de Massachusetts, Rachael S. Rollins, sustentou que Chelbe, junto com o irmão e o sobrinho, cobrava até US$ 22 mil (cerca de R$ 122 mil no câmbio de hoje) de cada vítima para levá-las clandestinamente aos EUA.
Uma vez no país, os imigrantes seriam submetidas a jornadas exaustivas, com salários retidos para quitar dívidas com o grupo, e ameaçadas de deportação caso recusassem as condições impostas.
“Indivíduos que buscavam o sonho americano foram supostamente explorados e enganados”, afirmou Rachael S. Rollins em nota à imprensa.
Chelbe foi apontado pelos investigadores como o elo no Brasil para captar os imigrantes interessados no esquema e receber os pagamentos.
Em 2024, Jesse e Hugo se declararam culpados de conspiração para contrabandear imigrantes do Brasil para os Estados Unidos.
A assessoria de imprensa do Departamento de Justiça em Massachusetts respondeu a O Fator que o caso de Chelbe “está pendente no tribunal”.
Prisão no Brasil e acusações de “coiote”
O histórico de denúncias contra Chelbe não se restringe aos EUA. Em junho de 2021, ele foi preso pela Polícia Federal sob suspeita de tráfico de crianças e contrabando de pessoas. Segundo as autoridades, após perder a custódia da filha de três anos para a ex-companheira, o homem teria fugido com a criança para o Paraguai.
Na investigação, grampos telefônicos levaram a PF a suspeitar que ele atuava como um “coiote” experiente, cobrando até US$ 20 mil para levar brasileiros sem visto aos EUA por meio do México.
À época, Chelbe negou qualquer envolvimento com contrabando humano. Em resposta a uma reportagem feita pela Reuters, disse que trabalhava há 20 anos como consultor para pedidos de asilo nos EUA, cobrando até R$ 100 mil por serviços de assessoria migratória.
“A assessoria que eu cobro é cara para caramba, porque eu conheço a legislação americana”, afirmou, à época.
Embora tenha sido acusado pelo Ministério Público Federal (MPF) de tráfico de crianças, Chelbe permaneceu em liberdade no Brasil enquanto aguardava julgamento.
O Fator procurou a Prefeitura de Mateus Leme para questionar se a administração tinha conhecimento das acusações contra Chelbe Moraes no momento da nomeação. Até o fechamento desta edição, não houve retorno. A reportagem também tentou contato com Chelbe por meio de ligações telefônicas e mensagem. O espaço segue aberto.
