O economista José Prata, marido da prefeita de Contagem, Marília Campos (PT), disparou um texto em grupos de WhatsApp acusando o deputado federal Rogério Correia, também do PT, de fomentar ataques virtuais contra a gestão da esposa. A centelha do embate foi o apoio de Marília a uma emenda que estende a servidores municipais as regras da reforma previdenciária de 2019. O artigo defendido pela prefeita está no bojo do Projeto de Emenda à Constituição (PEC) 66, que estabelece um novo regime para o pagamento de precatórios.
Ao se manifestar favoravelmente à emenda nas redes sociais, Marília passou a ser criticada nos comentários da publicação. Quando viu as cobranças, Prata intuiu tratar-se de uma estratégia coordenada por Rogério Correia.
“Marília, uma de nossas maiores lideranças, é duramente atacada nas redes sociais. O deputado Rogério Correia, derrotado no PED, partiu para o vale-tudo político”, escreveu o economista, que, segundo registra no texto, coordenou a primeira campanha de Rogério à Câmara Municipal de BH, nos anos de 1990.
Procurado pela reportagem, o deputado negou qualquer participação nas críticas a Marília e protestou contra a acusação de Prata.
“É bom quem fala isso, se é que foi o marido dela, provar”, afirmou.
Prata, por sua vez, confirmou a autoria do texto e disse que voltará a se manifestar sobre o tema em um artigo a ser publicado em seu blog pessoal.
A polêmica da PEC
Acompanhando a mobilização da Frente Nacional de Prefeitos, Marília Campos esteve em Brasília na terça-feira (15), para acompanhar a votação da PEC 66 na Câmara dos Deputados.
O projeto estabelece um limite para o pagamento de dívidas judiciais de estados e municípios em que não cabem mais recursos — os chamados precatórios. O texto também abre um novo prazo para parcelamento especial de débitos dos governos locais com o Regime Geral de Previdência Social (RGPS) e com os regimes próprios de previdência. Na prática, a medida atrasa a quitação dos precatórios.
A emenda, considerada por seus críticos um “jabuti”, obrigaria estados e municípios a adotarem as regras da reforma previdenciária de 2019.
Na publicação que fez em suas redes sociais, Marília lamentou a retirada da emenda que padronizava as regras previdenciárias para os municípios.
“A proposta (PEC 66) foi aprovada, mas infelizmente sem o destaque da Emenda nº 5, que é fundamental para garantir a uniformização dos direitos previdenciários entre União e municípios”, afirmou.
Para críticos da proposta, como o deputado Rogério Correia e entidades sindicais, a medida foi incluída sem debate adequado e representa um retrocesso ao impor restrições a direitos previdenciários no âmbito municipal.
“O Partido dos Trabalhadores, com orientação do governo, votou contra a emenda porque ela faz uma reforma na Previdência, tirando direitos dos trabalhadores”, justificou.
Já Prata, no texto que disparou, argumenta que não faz sentido manter regimes diferenciados para servidores municipais e cita mudanças promovidas nos governos Lula e Dilma como precedentes para a posição atual de Marília.
Pedra e vidraça
Em 2019, Marília Campos, então deputada estadual, publicou um documento crítico à reforma da Previdência de Jair Bolsonaro e a qualquer tentativa de unificação de regimes previdenciários. Na cartilha, assinada conjuntamente com o economista José Prata, seu marido, a petista alertava:
“Já está em curso um processo que iguala a previdência dos servidores ao INSS”, pontuou, à época, classificando a medida como um ataque ao funcionalismo público.
Agora, entretanto, Marília e Prata avaliam que a equiparação previdenciária seria necessária para dar sustentabilidade aos municípios e corrigir o que consideram distorções no sistema.
“Se Lula não defende a anulação da reforma da Previdência; se ela já vale para quase todos os trabalhadores; é fundamental que os regimes sejam semelhantes”, escreveu o economista no texto divulgado nesta semana.
A mudança de posicionamento gerou críticas de entidades de classe e correligionários. O Sindicato dos Enfermeiros de Minas Gerais foi um dos que resgataram a cartilha de 2019 para cobrar coerência de Marília.
“Em 2019 ela dizia que a equiparação era um ataque aos direitos do funcionalismo. Agora, defende exatamente isso”, afirmou o presidente da entidade, Anderson Rodrigues.
