Muita gente me conheceu por causa de um termômetro e um ônibus. Era mais uma das cada vez mais frequentes ondas de calor em BH, com temperaturas batendo quase 40 graus, e os ônibus metropolitanos funcionavam (e ainda funcionam) sem ar-condicionado. Obviamente, não parecia um ambiente salubre ou aconchegante para ninguém, muito menos para um usuário que pagava (e ainda paga) quase R$10 para usar aquela linha. O vídeo mostrando a temperatura de mais de 50º dentro do “vermelhinho” viralizou.
A preocupação com as mudanças climáticas continuou na minha campanha para vereador, quando coloquei como uma das propostas indicar ao prefeito a criação de um comitê de ação climática. Algo que outras capitais ao redor do mundo já haviam criado para coordenar ações e garantir que as cidades fossem capazes de enfrentar as mudanças climáticas. Novamente, BH passava por outra onda de calor, com o agravante do tempo seco que resultou em focos de incêndio e os piorou, causando aquele visual de deserto no céu da cidade.
A promessa da criação do comitê foi fácil de cumprir. Antes mesmo do fim do ano, o ex-prefeito Fuad Noman criou a Coordenadoria sobre o tema, ligada ao seu gabinete, para fazer a ponte entre as várias secretarias da prefeitura no enfrentamento da questão.
Agora, como vereador, assessorado pela minha equipe, meu mandato se tornou um Mandato-C, iniciativa do Instituto Clima de Política. Somos parte de uma rede de mandatos parlamentares que visa fortalecer a ação coordenada na busca por justiça climática no Brasil por meio de capacitações, materiais e ferramentas para parlamentares de diversos partidos de todos os espectros. Isso permite que a gente atue na nossa cidade com um suporte teórico e técnico muito relevante, mas também permite que a gente se organize a nível nacional, porque enquanto vereador não sou tão relevante assim em Brasília, mas em um grupo que reúne inclusive deputados estaduais e federais de todo o Brasil, nossas ideias ganham voz na capital federal.
E por que estou falando desses pontos? Nesta quinta-feira, 17/07, o Congresso Nacional aprovou em uma no mínimo controversa votação virtual na madrugada o que a bancada climática apelidou de “PL da Devastação”, que afrouxa as regras do licenciamento ambiental, certamente piorando a crise climática no Brasil.
Às 11h da mesma quinta-feira, eu estava no BDMG junto dos representantes da Coordenadoria de Mudanças Climáticas da PBH e a equipe do banco de desenvolvimento para buscar linhas de financiamento que permitam à Belo Horizonte entregar políticas públicas de qualidade no enfrentamento das mudanças climáticas com o que existe de melhor, sem negacionismo. Boas ideias e projetos já existem na coordenadoria, nosso trabalho agora é viabilizar que elas saiam do papel e nossa cidade seja referência e vanguarda no enfrentamento da crise climática e na garantia de justiça climática.
Como gestor público e político que vem do Lindéia, bairro da “ponta” de BH, sei que quem mais sofre e passa aperto quando as políticas públicas não são bem desenhadas ou não possuem financiamento adequado são os mais vulneráveis, que convivem com infraestrutura precária, pouca arborização e acesso limitado a recursos para lidar com o calor extremo e a poluição do ar.
Quem quase derrete no ônibus metropolitano não é um parlamentar que entrou no Congresso Nacional aos 21 anos. Por isso, acho que a consciência não pesa tanto na hora de votar projetos como o PL da Devastação. Talvez a crise climática ainda não esteja impactando tanto assim a vida confortável dos nossos deputados federais.
E, como já disse outras vezes, quando os problemas acontecem na vida das pessoas, ninguém vai cobrar o presidente da Câmara Federal ou do governador do nosso estado, elas cobram de quem está mais próximo: o vereador. Enquanto vemos o negacionismo em escala federal e tentamos nos organizar em rede para disputar um espaço de fala na mesa, na minha escala municipal, onde já posso atuar, busco o melhor para nossa capital, sempre com seriedade e respeitando aquilo que é possível de se construir, que é o que quero deixar como marca da minha trajetória política.