A tarifa extra de 50% aos produtos brasileiros, imposta pelo presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump, não deve produzir efeitos sobre a mineração em Minas Gerais e no Brasil. Um levantamento da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), obtido por O Fator, mostra que os carregamentos de minério enviados aos EUA correspondem a apenas 0,1% de toda a pauta do setor mineral encaminhada pelo estado ao exterior em 2024.
No que tange ao plano nacional, os compradores norte-americanos são responsáveis por apenas 1,3% do volume de exportações. O estudo da Fiemg não considera o petróleo.
Como a reportagem mostrou no início da semana, a curto prazo, os setores da economia mineira mais prejudicados pelo tarifaço de Trump são a siderurgia e o ramo de produção de equipamentos de transporte. A área siderúrgica, por exemplo, pode ter queda de 12,5% no Produto Interno Bruto (PIB) setorial estadual.
Segundo João Gabriel Pio, economista-chefe da Fiemg, o pouco impacto do tarifaço de Trump na mineração está relacionado ao fato de a relação comercial Brasil-EUA estar alicerçada em negociações envolvendo produtos de outra natureza.
“Estamos falando de aviação e siderurgia”, exemplifica, mencionando dois dos setores mais afetados pela medida.
China ajuda a explicar cenário
Ainda conforme as estatísticas da Fiemg, a China compra 60,7% da produção mineral brasileira. Em Minas, o percentual chega a 77,3%.
“Como as relações comerciais com a China, na exportação de minério, estão muito bem estabelecidas, o impacto da tarifa tende a ser relativamente modesto”, explica João Gabriel.
A visão do economista é similar ao pensamento de José Fernando Coura, empresário dos setores de mineração e metalurgia.
“O impacto é insignificante e não traduz nenhum prejuízo real à economia de Minas Gerais no que tange à mineração”, aponta.
Coura, que tem atuação em entidades do setor de mineração, defende que o governo brasileiro evite retaliações tributárias aos EUA.
“Se houver retaliação, pode haver impactos para equipamentos que importamos dos Estados Unidos. Mas acredito que o bom senso vai prevalecer”, projeta, criticando a medida do presidente norte-americano, chamada por ele de “erro terrível”. “Não há fundamento econômico”, completa.

Agro também de olho
Embora a mineração respire aliviada quanto aos efeitos do tarifaço de Trump, o setor agrícola já ligou o sinal de alerta. Dados do Departamento de Agricultura dos EUA mostram que o Brasil envia 35% do café não-torrado importado por Washington.
Em Minas Gerais, as exportações para os EUA já renderam US$ 1 bilhão ao agro estadual neste ano. Ao todo, mais de 250 mil toneladas de produtos agrícolas saíram de fazendas mineiras rumo ao país de Trump.
O montante arrecadado pelo agro com as exportações para os EUA em 2025 representa certo avanço em relação à arrecadação com produtos repassados àquele país em todo o ano de 2024, que girou em torno de US$ 1,9 bilhão.
O tarifaço
A taxação extra de 50% foi anunciada por Trump em 9 de julho, por meio de carta endereçada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
No documento, o chefe do governo norte-americano ignora o superávit de seu país na balança comercial com o Brasil e afirma que a relação entre os países é deficitária para os EUA.
Segundo Trump, a taxa serve para “corrigir os muitos anos de políticas tarifárias e não-tarifárias e barreiras comerciais do Brasil”.
A decisão do presidente norte-americano aconteceu em meio a demonstrações de apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro, seu aliado ideológico. Na carta a Lula, Trump critica o que chama de “caça às bruxas” a Bolsonaro, alvo de inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado e inelegível por determinação da Justiça Eleitoral.
A nova resolução econômica está prevista para começar a valer em 1° de agosto. Entre os próximos dias 29 e 31, uma comissão do Senado Federal estará em Washington a fim de tentar convencer a Casa Branca a mudar de ideia. O presidente do grupo é o senador Nelsinho Trad (PSD-MS).
