Quando uma encosta desliza e engole casas inteiras, quando um rio transborda e paralisa cidades, quando vidas são perdidas em catástrofes que se repetem ano após ano, o que estamos testemunhando não são meros caprichos da natureza. Estamos diante de consequências previsíveis, agravadas por escolhas humanas, por omissões históricas e por modelos de desenvolvimento que ignoram a justiça socioambiental. Por isso, é urgente afirmar: desastres não são naturais.
Essa afirmação, ainda hoje vista com estranhamento por muitos, precisa ser compreendida em sua totalidade. Fenômenos como chuvas intensas, terremotos ou secas fazem parte da dinâmica do planeta. No entanto, eles se tornam desastres apenas quando atingem sociedades vulneráveis com moradias precárias, infraestrutura inexistente, ausência de políticas públicas e territórios ocupados sem planejamento. O desastre, portanto, é uma construção social. Ele reflete a forma como organizamos o espaço urbano, como priorizamos investimentos, como lidamos com as desigualdades históricas que moldam nossas cidades.
Um deslizamento não acontece apenas por causa da chuva. Ele acontece porque casas foram construídas, por necessidade, em encostas sem segurança. Uma enchente não destrói bairros apenas pelo volume das águas. Ela o faz porque canalizamos rios, impermeabilizamos o solo, ocupamos várzeas e ignoramos os alertas técnicos. Como aponta a própria ONU, “não existem desastres naturais; o que existem são riscos naturais que se transformam em desastres em função de decisões humanas.”E essas escolhas são, em última instância, políticas.
Nesse sentido, é possível pensar o desastre como o resultado de uma equação: evento adverso multiplicado pela vulnerabilidade e pelos danos causados, dividido pela capacidade de resposta do território. Ou seja, quanto maior a vulnerabilidade e os prejuízos, e menor a capacidade de resposta, mais grave será o impacto. Essa capacidade está diretamente ligada ao preparo do município: o quanto ele investe em prevenção, estrutura, informação e políticas públicas. Quando essa resposta é fraca, o desastre se intensifica. É por isso que a gestão do risco e a construção de resiliência não são detalhes técnicos, mas decisões políticas que salvam vidas.
Essa perspectiva é especialmente sensível para nós, mineiros, que conhecemos de perto as consequências de crimes evitáveis, como o rompimento de barragens em Mariana e Brumadinho. Eventos que marcaram profundamente a história de Minas e que simbolizam como a negligência e a permissividade diante de interesses econômicos podem custar vidas, destruir o meio ambiente e abalar a confiança da sociedade.
Recentemente, tive a oportunidade de representar Minas Gerais como um dos dois únicos deputados federais brasileiros presentes na Oitava Sessão da Plataforma Global para a Redução do Risco de Desastres (GP2025), realizada pela ONU em Genebra. Estar nesse fórum internacional, ao lado de representantes de diversas nações, apenas reforçou o que a realidade já nos grita: prevenir é salvar. E isso exige uma mudança de mentalidade e de prioridades.
Investir em prevenção, em mapeamento de riscos, em sistemas de alerta precoce, em infraestrutura resiliente e em educação ambiental não é custo. É investimento estratégico em gestão de risco. A defesa civil precisa ser fortalecida com estrutura, pessoal capacitado e integração com o planejamento urbano. A política pública de prevenção precisa deixar de ser uma resposta pontual após a tragédia e se tornar um eixo estruturante de qualquer plano de desenvolvimento.
Como Presidente da Frente Parlamentar de Gestão do Risco de Desastres e Cooperação Humanitária, tenho atuado na Câmara dos Deputados para defender a alocação de recursos que garantam a adaptação às mudanças climáticas e a redução efetiva de riscos. A experiência parlamentar reforçou a importância de tratarmos esse tema como política de Estado, com metas claras, financiamento contínuo e participação social.
Negar que os desastres são socialmente construídos é perpetuar a vulnerabilidade dos mais pobres, sempre os mais afetados, sempre os que mais demoram a se recuperar. É assinar uma sentença de repetição das mesmas tragédias, ano após ano, com nomes diferentes, em cidades diferentes, mas com as mesmas causas de fundo: omissão, desigualdade, descaso.
Eventos globais como a COP30 e a GP2025 representam um chamado urgente à responsabilidade. Um lembrete de que é possível, sim, transformar a forma como lidamos com os riscos, se colocarmos a vida e a justiça socioambiental no centro de nossas decisões. O futuro que queremos para Minas Gerais e para o Brasil exige coragem política, planejamento e compromisso com as próximas gerações.
Não podemos mais aceitar que eventos naturais sejam tratados como fatalidades inevitáveis. O desastre não é a chuva. É a escolha de ignorar os alertas, de negligenciar o planejamento, de aceitar a exclusão. Reconhecer isso é o primeiro passo para construir um país mais seguro, justo e resiliente.