Como a opinião pública avalia as escolhas de política internacional de Lula?

O presidente Lula
Bolsonaro vivia da fama de Trump dos trópicos, enquanto Lula agora posa de estadista que “peita” a Casa Branca. Foto: Ricardo Stuckert/PR

Está todo mundo cansado de ouvir que o tarifaço de Donald Trump melhorou a popularidade do governo Lula. Cansado, mas é verdade. Não foi por acaso: já existia um antiamericanismo latente por aqui, prontinho para ser explorado, e a trapalhada intempestiva de Trump entregou esse presente para Lula numa bandeja, embrulhado na bandeira dos EUA. Basta ver o fenômeno: Trump impôs tarifas de 50% sobre produtos brasileiros e, de brinde, reacendeu o apoio a Luiz Inácio Lula da Silva como nem o marqueteiro mais otimista do PT conseguiria. Lula vestiu boné com o lema “Brasil é dos brasileiros” e foi à luta virtual contra o vilão laranja da vez. E não é que colou?

Os números confirmam a virada. Uma pesquisa Genial/Quaest registrou a primeira melhora na aprovação de Lula em muitos meses, com a desaprovação caindo de 57% para 53% e a aprovação subindo de 40% para 43% depois do anúncio das tarifas. Outro levantamento, da AtlasIntel, mostrou a aprovação do governo saltar para 49,7% em julho, ante 47,3% em junho, invertendo a tendência de queda e deixando Lula, pela primeira vez desde o ano passado, praticamente empatado entre aprovação e reprovação.

Mas não é só nos índices gerais de aprovação que o “efeito Trump” apareceu. A própria política externa de Lula ganhou aplausos inéditos. Segundo a pesquisa AtlasIntel, 60,2% dos brasileiros passaram a aprovar a política internacional do presidente, e 61,1% afirmam que Lula representa o Brasil lá fora de forma mais eficaz do que Jair Bolsonaro fazia.

Convenhamos: Bolsonaro vivia da fama de Trump dos trópicos, enquanto Lula agora posa de estadista que “peita” a Casa Branca. Para 44,8% dos brasileiros, inclusive, a resposta de Lula à ameaça de Trump foi adequada na medida certa, contra apenas 27,5% que a acharam agressiva demais e 25,2% que a viram frouxa. E mais da metade da população (51,2%) defende que o Brasil retalie os EUA na mesma moeda se necessário. A maioria dos especialistas recomenda que não se inicie uma guerra comercial, ainda mais contra Trump, o TACO, mas falando apenas de propaganda, o povo aparentemente topa.

Aliás, o orgulho ferido pela investida de Trump uniu os brasileiros de um jeito raríssimo. A maioria esmagadora viu o tarifaço como injustiça: 62,2% dos brasileiros disseram considerar “injustificadas” as tarifas americanas. Metade enxergou nas justificativas de Trump uma ameaça à nossa soberania nacional, um dado simbólico, já que a narrativa de Lula imediatamente pintou Trump como um bully estrangeiro metendo o bedelho nos assuntos internos do Brasil. Na guerra retórica que se seguiu, Lula e sua equipe passaram a repetir a plenos pulmões que estavam defendendo “o interesse do povo brasileiro” contra agressões externas. Resultado: até quem não morre de amores por Lula se viu forçado a concordar que mexer com o Brasil dá voto.

Quer um símbolo dessa unidade nacional inesperada? Quando Washington insinuou que o Brasil estaria praticando “concorrência desleal” ao ter um sistema público como o Pix, que toma mercado de operadoras de cartão de crédito. colocou a mão no vespeiro. O PIX foi concebido no governo Temer e finalmente disponibilizado pelo Banco Central sob Bolsonaro, mas foi Lula quem ganhou o presente e trocou a pecha de taxador do PIX pela de defensor do sistema de pagamentos.

O mais curioso é que Lula vinha apanhando em popularidade antes dessa intervenção providencial. De repente, entra em cena um vilão externo perfeito, quase caricato, capaz de despertar um antigo reflexo nacional: a desconfiança do Tio Sam. Cada frase de efeito contra Trump vira manchete por aqui e rende engajamento nas redes do Lula, onde seus seguidores comemoram o “Lulinha paz e amor” dando lugar ao Lula do velho testamento, raivoso com o imperialismo.

Só que nem toda iniciativa da política externa lulista gera esse êxtase popular. Se por um lado Lula colhe apoio ao enfrentar os EUA, por outro ele arrisca um desgaste ao afastar o Brasil de Israel. A última invenção de moda foi retirar o Brasil da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA), iniciativa de combate ao antissemitismo da qual o país era membro observador. Essa decisão somou-se a uma série de atritos diplomáticos com Israel durante a guerra deflagrada após os ataques terroristas de 7 de outubro de 2023. Lula criticou duramente a resposta israelense contra o grupo Hamas em Gaza, chegando a compará-la ao Holocausto nazista, o que levou Israel a declará-lo persona non grata e precipitou a retirada do embaixador brasileiro de Tel Aviv.

Do ponto de vista da opinião pública, essas ações configuram um erro de cálculo, pois a maioria dos brasileiros demonstra simpatia pela causa israelense, sobretudo diante da violência do Hamas. Um ato como esse significa jogar no lixo o presente que ganharam de Trump. Pesquisas conduzidas logo após os ataques de 7 de outubro indicam isso com clareza. Um levantamento Genial/Quaest de outubro de 2023 mostrou que 76% dos brasileiros classificam o grupo Hamas como terrorista. Ou seja, há condenação quase unânime ao movimento que perpetrou os atentados em Israel. Na mesma pesquisa, porém, 61% avaliaram que a retaliação de Israel não se justificava, evidenciando uma preocupação humanitária com os civis palestinos. Ainda assim, o repúdio ao Hamas prevalece.

Outra sondagem, da AtlasIntel em novembro de 2023, reforça a percepção de que o público desejava uma postura menos hostil a Israel por parte do Brasil. Nessa pesquisa, 43,4% dos entrevistados disseram que o governo Lula adotou uma postura “mais favorável ao Hamas do que deveria”, ao passo que apenas 11,3% enxergaram o país “favorável demais a Israel”. Além disso, quase 60% dos brasileiros atribuíram a culpa maior pelo conflito ao Hamas, contra apenas 12,5% que culpavam principalmente Israel. Em termos de reação militar, 75% reprovaram os ataques terroristas do Hamas (considerando-os injustificáveis), e quase 55% julgaram a ofensiva israelense em Gaza “justificada ao menos em parte”. Esses números sugerem que, embora preocupados com o sofrimento em Gaza, os brasileiros em geral reconhecem o direito de resposta de Israel e veem o Hamas como principal vilão. Logo, as críticas contundentes de Lula a Israel e gestos como abandonar a IHRA se chocam com a opinião da maioria, que esperava um equilíbrio maior ou mesmo solidariedade à única democracia do Oriente Médio após um ataque terrorista de grande porte.

Um fator que pesa nessa equação é a forte afinidade de grupos evangélicos brasileiros com Israel. Líderes protestantes frequentemente exaltam Israel como “Terra Santa” e símbolo do cumprimento de promessas bíblicas. Igrejas evangélicas adotam símbolos judaicos (menorás, bandeiras de Israel, Estrelas de Davi) em cultos, e fiéis afirmam “orar por Israel todos os dias”. Esse sionismo cristão disseminado faz com que grande parcela do eleitorado enxergue Israel com admiração, como uma nação próspera e abençoada que merece apoio.

Não por acaso, o ex-presidente Jair capitalizou politicamente essa estima por Israel. Em sua campanha e governo, prometeu alinhamento estreito com o país, incluindo a polêmica ideia de mudar a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém. Bolsonaro cultivou laços pessoais com a liderança israelense: condecorou o premiê Benjamin Netanyahu e recebeu elogios por ser “o melhor amigo de Israel” entre os governantes. Mais concretamente, o governo Bolsonaro vendeu o sonho de importar tecnologias israelenses de ponta para solucionar problemas nacionais.] Ele anunciou parceria com Israel para projetos de dessalinização de água no Nordeste, prometendo instalar usinas-piloto para combater a seca no semiárido. Também divulgou planos de testar equipamentos israelenses capazes de “produzir água do ar” em escolas e hospitais, com a possibilidade de até montar uma fábrica desses dispositivos no Brasil. Essa narrativa apresentava Israel como um modelo tecnológico a ser emulado e reforçava a imagem de Israel como terra desenvolvida e abençoada aos olhos do público.

Diante desse pano de fundo, torna-se ainda mais evidente o risco político dos atritos de Lula com Israel. Ao atacar duramente as ações israelenses e se afastar de iniciativas de memória do Holocausto, o governo contraria não só a percepção de grupos não praticantes, mas também os sentimentos de uma base religiosa influente e vocal.

Esses brasileiros esperam que o país mantenha laços positivos com Israel ou, no mínimo, não adotem posturas vistas como pró-Hamas ou anti-Israel, como indicam as pesquisas. Portanto, do ponto de vista da opinião pública interna, Lula errou ao não calibrar melhor seu discurso e alinhamento diplomático no conflito Israel-Palestina, expondo-se a críticas domésticas de que estaria “do lado errado” da questão.

Quando Lula resolveu bancar o mediador na guerra da Ucrânia, por exemplo, a coisa foi bem mais morna. Ele tentou se equilibrar: condenou “invasão russa”, mas na prática culpou também a OTAN, disse que Zelenskyy e Putin tinham responsabilidade semelhante pela guerra, e soltou aquela pérola de que os países ocidentais estavam “encorajando” o conflito ao armar a defesa da Ucrânia. Pois bem: somente 24% dos brasileiros concordaram com Lula nessa afirmação, enquanto 37% discordaram (os demais ficaram em cima do muro). Ou seja, maioria não comprou totalmente essa narrativa de “a OTAN provoca, coitado do Putin”. Tanto que quase metade (48%) dos brasileiros disse concordar com a crítica que a Casa Branca (ainda sob Biden) fez a Lula, acusando-o de “espalhar propaganda russa e chinesa” sem base nos fatos. Levar puxão de orelha de gringo e ainda ouvir parte do público interno dar razão… que coisa, hein? Nesse tema, Lula não conseguiu transformar antiamericanismo em capital político, até porque Trump também falou bobagem sobre a Ucrânia. Ao contrário, muitos ficaram desconfiados do alinhamento a Moscou. Isso só não virou um prejuízo muito sério porque o brasileiro acha que esse problema não é nosso: a maioria da nossa população condena a agressão russa, mas prefere manter distância do conflito.

Logo no início da guerra, em março de 2022, uma sondagem Exame/IDEIA encontrou que 62% dos brasileiros acreditavam que a Ucrânia estava com a razão no conflito, contra apenas 6% que viam razão na Rússia. Ou seja, há uma clara maioria simpatizante da causa ucraniana e ciente de que Moscou é o lado agressor. Contudo, na mesma pesquisa 65% dos entrevistados apoiaram a neutralidade do Brasil, concordando que o país não deveria tomar partido nem se envolver diretamente. Essa aparente contradição (torcer pela Ucrânia, porém defender a imparcialidade diplomática) revela uma tradição da opinião pública brasileira: solidariedade às vítimas, mas prioridade aos interesses nacionais. Muitos temem impactos econômicos e entendem que o Brasil não ganha ao se inserir em confrontos distantes.

Outra frente sempre espinhosa é a aproximação com Venezuela, espantalho favorito do antipetismo. Nesse caso, mesmo depois da frente ampla, Lula parece que não aprende. Em maio de 2023 protagonizou cenas de camaradagem com Nicolás Maduro, recebendo o ditador no Palácio do Planalto e discursando ao lado dele que a narrativa de falta de democracia na Venezuela era “construída” por preconceito alheio. Aqui Lula claramente subestimou a repercussão negativa. E não foi só entre opositores de direita que choveu crítica: organizações de direitos humanos, imprensa internacional e até aliados moderados torceram o nariz.

A Human Rights Watch veio a público lembrar que o autoritarismo venezuelano é real e não “mera narrativa”, citando milhares de denúncias de tortura e crimes contra a humanidade sob Maduro. A reação dentro do Brasil também foi barulhenta: redes sociais fervilharam de memes e posts divididos entre os que defendiam o “pragmatismo” de reatar laços com Caracas e os que acusavam Lula de passar pano para ditador. Foi um cálculo político de risco: Lula achou que poderia colher dividendos se posicionando como líder regional que reintegra a Venezuela, mas percebeu que a tolerância do público tem limites, principalmente quando o beneficiário é um regime vizinho que muitos brasileiros veem com péssimos olhos (lembrando que milhares de refugiados venezuelanos entraram no Brasil fugindo justamente das agruras do chavismo).

Em resumo, confraternizar com Maduro rendeu mais desgaste que benefício doméstico. Lula, esperto, logo adotou tom mais frio: nos meses seguintes cobrou eleições limpas na Venezuela e chegou a criticar indiretamente alguns excessos de Maduro, num balanço entre ideologia e pragmatismo. Sinal de que ele sentiu o golpe: com a popularidade já meio combalida na economia, não dava para arriscar perder apoio abraçando um líder tão tóxico.

Já a China, curiosamente, não desperta o mesmo tipo de antipatia popular que os EUA (ou a Venezuela) podem provocar. Durante o governo Bolsonaro houve muita retórica anti-Pequim na ala ideológica da direita, mas a verdade é que o brasileiro médio não tem uma opinião tão formada assim sobre a China. Talvez por isso Lula tenha tido mais facilidade em estreitar laços com Pequim sem enfrentar resistência interna. Ele visitou Xi Jinping de maneira pomposa, anunciou acordos comerciais, posou entusiasmado falando em desdolarizar o comércio global e entrou de cabeça na ideia de fortalecer o BRICS.

Fora a gafe da Janja, que mais uma vez falou o que não devia, todo o resto passou sem grandes sustos na opinião pública doméstica. Pelo contrário, pesquisa AtlasIntel indicou que 44% dos brasileiros preferem um alinhamento maior com o bloco BRICS, contra 37% que ainda acham melhor ficar próximos dos EUA. Apenas minorias ínfimas defendem alinhar só com a China (4%) ou só com a Rússia (0%, um zero redondo de apoio isolado), mas o conjunto dos BRICS, que inclui também Índia, África do Sul e novos membros como Arábia Saudita, parece algo mais palatável, visto talvez como símbolo de multipolaridade.

Há também 11,9% que preferem que o Brasil não se alinhe automaticamente com ninguém, o famoso isentão geopolítico. De toda forma, esses números mostram que a inclinação pró-EUA não é mais unanimidade: embora muitos valorizem a parceria tradicional ocidental, quase metade do país topa a ideia de apostar num caminho mais autônomo ao lado de outras potências emergentes.

A divisão fica ainda mais nítida quando se olha pelo viés político: 78,5% dos eleitores de Lula querem alinhamento com o BRICS, enquanto 80,7% dos eleitores de Bolsonaro querem alinhamento com os EUA. Lula percebeu que falar grosso com Washington agrada sua base e ainda pode fisgar os tais eleitores “fluidos” do centro, que foram fundamentais na última vitória por 50,9%. Nacionalismo de ocasião, cá entre nós, costuma cair bem na terra de Vargas e JK.

E Trump, também colhe algo disso? Bom, para ele pouco importa se os brasileiros gostam dele ou não: o foco é a plateia doméstica. Lá, bater na China, no Brasil ou em qualquer um que não reze pela cartilha MAGA gera notícias que desviam do terrível assunto da lista de Epstein, enquanto Lula posa de defensor da soberania nacional contra o imperialismo arrogante. Ambos ganham: um alimenta a narrativa do outro. Uma tragicomédia populista, em que cada lado interpreta o vilão no palanque do adversário. Lula que o diga: ele agora tem em Trump o inimigo externo perfeito para culpar de quaisquer males. Se a economia vai mal, aponta-se o dedo para as tarifas “abusivas” do gringo. Se Bolsonaro late sobre patriotismo, Lula responde que patriotismo de verdade é enfrentar interesses estrangeiros lesivos ao povo. E assim seguimos.

No fim das contas, a política externa de Lula no terceiro mandato virou um equilíbrio entre princípios e pragmatismo eleitoral. Ele voltou ao tradicional não-alinhamento ativo do Itamaraty, porém, quando surge a chance de angariar apoio popular confrontando um poderoso lá fora, não hesita. Donald Trump proporcionou essa chance de ouro. Devolveu a Lula parte do brilho que o desgaste doméstico tinha apagado, ao menos por enquanto. Resta saber até quando dura o efeito.

Por ora, Lula parece disposto a manter acesa a chama nacionalista: peitou Trump também na questão do meio ambiente (rebateu crítica sobre Amazônia, dizendo que os EUA também têm seus problemas), e segue fazendo acenos ao fortalecimento do BRICS em detrimento de instituições dominadas pelos americanos. Se quiser fazer mais uma gracinha, a dica é revogar a famigerada taxa das blusinhas. Pode até ser só para os chineses, mas revogue. O estrago que isso causou na popularidade de Lula é tremendo, fruto de um governo desatualizado que não tinha ideia da quantidade de pessoas realmente pobres que viviam de comprar roupa na SHEIN.

Em resumo, Lula percebeu que bater de frente com Tio Sam dá retorno político em casa, desde que o Brasil não quebre no processo. É uma corda bamba: ele não quer perder acesso a mercados e investimentos dos EUA, óbvio, mas descobriu que um pouquinho de drama com Washington rende manchetes favoráveis. Até agora, sua tática tem sido “late forte e negocie quieto”: vociferar publicamente contra as medidas de Trump, mas nos bastidores deixar o Picolé de Chuchu buscar calmamente um acordo comercial antes que o pior ocorra. Joga para a torcida enquanto corre atrás do prejuízo sem alarde. Cinismo? Realismo? Provavelmente um pouco dos dois.

De concreto, fato é que Lula ganhou uma sobrevida política graças a Trump, mas poderia observar melhor também as reações da opinião pública local a outros alinhamentos globais, se a meta for mesmo buscar a reeleição tendo as relações internacionais como mote.

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