Pequenos produtores de café em Minas Gerais têm sido orientados por lideranças do setor a armazenar parte da colheita do grão entre maio e julho, principal período da lavoura cafeeira no estado. O plano de estocar as sacas serve como “seguro” a eventuais efeitos do tarifaço anunciado pelo presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump. A medida, prevista para começar a vigorar em 1° de agosto, colocará taxa extra sobre 50% de todas as exportações brasileiras aos EUA.
A Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Minas Gerais (Fetaemg) é uma das entidades a aconselhar filiados a estocar parte da produção.
“Não há tempo hábil para exportar a produção que já está armazenada. Nós entendemos que o momento é de esperar. Primeiro, para saber se haverá mesmo o tarifaço. E depois para acompanhar os movimentos do mercado, se o preço do café sofrerá uma alteração significativa. Nossa expectativa é que o preço poderá, inclusive, crescer nas próximas semanas”, diz o presidente da Fetaemg, Vilson Luiz da Silva, em entrevista a O Fator.
Dados do Departamento de Agricultura dos EUA mostram que mais de um terço do café não-torrado importado pelos norte-americanos no ano passado saiu das lavouras brasileiras. O país respondeu por 35% do volume adquirido no exterior, ante 27% da Colômbia, que ficou na segunda posição.
Em um panorama geral, as exportações do agro mineiro rumo aos EUA renderam receita de R$ 1 bilhão nos primeiros cinco meses deste ano.
Facho de esperança
Embora a data estipulada por Trump para o início da vigência da tarifa esteja se aproximando, Vilson, que foi deputado federal pelo PSB mineiro, acredita na reversão do cenário.
“Ainda acredito que haverá um recuo do governo dos EUA nos próximos dias. Essa articulação do deputado (Eduardo) Bolsonaro fere não apenas os interesses do setor produtivo brasileiro, mas também da população norte americana, grande consumidora, por exemplo, do nosso café”, afirma.
A orientação da Fetaemg coincide com a estratégia de produtores de café no Leste de Minas ouvidos pela reportagem. Quando armazenado nas condições ideais, o café pode passar até mais de um ano antes de ser processado e consumido.
Na visão de agricultores familiares do setor, tanto o mercado brasileiro quanto o europeu reúnem condições de absorver a produção do café oriundo de Minas sem que haja redução no preço da saca.
Além do Leste de Minas, as regiões Sul e Alto Paranaíba concentram a maior parte das lavouras de café no estado.
Um estudo da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) mostra que, a curto prazo, o tarifaço pode fazer o Produto Interno Bruto (PIB) estadual cair até R$ 6,7 bilhões. Em um cenário com manutenção da alíquota extraordinária durante período de 5 a 10 anos, a perda pode chegar a R$ 21,5 bilhões.