Um gato correndo atrás do raio laser

Deputados no plenário da Câmara
Moderação não é licença para covardia, e ouvir a população não é desculpa para ser escravo do feed, muito menos para correr atrás do próximo pontinho vermelho como um gato hipnotizado. Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados

Você já usou um laser pointer? A canetinha que serve para apresentações de slides também possui a função extra de entretenimento animal. Aponte para o chão perto de um gatinho e observe o felino correr atrás do pontinho vermelho. No campo político, a cada semana nossos líderes mudam de direção com a leveza de uma biruta de aeroporto, correndo freneticamente atrás do ponto vermelho da vez.

Exemplo recente: o lulismo ganhou funeral precoce dias atrás. Diante de pesquisas e derrotas, analistas apressaram-se em decretar o ocaso definitivo da era Lula. Não deu tempo nem de acender as velas para o velório, porque logo veio Donald Trump bagunçar o coreto. Do dia para a noite, Trump anunciou um tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros, assumidamente para pressionar Brasília no julgamento de Bolsonaro. O que era um pesadelo econômico virou, ironicamente, um presente narrativo para o Planalto. O governo Lula aproveitou o inimigo externo de bandeja: posou de defensor da soberania nacional ultrajada e tratou de pintar os rivais internos como cúmplices do “imperialismo” trumpista.

Se antes o governo apanhava pelo noticiário ruim, de repente a maioria dos brasileiros online passou a xingar as tarifas de Trump e a “submissão” dos bolsonaristas que teriam incentivado a medida. Termos como “Brasil soberano” e “respeita” bombaram junto à palavra BRASIL, num surto de patriotismo digital raras vezes visto.

A calmaria patriótica durou pouco. Poucos dias depois, Trump aplicou sanções contra ministros do STF e, cá dentro, o ministro Alexandre de Moraes mandou Jair Bolsonaro cumprir finalmente o isolamento social. Onde o governo via ataque à soberania, a oposição viu redenção. Bolsonaristas, antes na defensiva pelo tarifaço antipatriótico, vibraram: seu líder virava mártir censurado e até o Tio Sam parecia endossar essa versão.

Em Brasília, essa energia nova se materializou rápido. Parlamentares oposicionistas ocuparam a Mesa da Câmara e do Senado e unificaram um discurso contra Moraes, exigindo limitar o poder do Supremo. Em questão de dias, os papéis se inverteram: governo acuado, oposição em festa, centrão farejando oportunidade. Acontece que a obstrução não obstruiu. Quem se acorrentou nas cadeiras e disse que não sairia até conseguir o que queria… acabou saindo de mãos abanando.

Veio então o coup de grâce: o presidente da Câmara Federal, que tinha passado vergonha perdendo o controle da casa baixa, acabou arrumando uma nova desculpa para enrolar os projetos de alteração no foro privilegiado e de anistia:  um novo “guru” momentâneo na figura de Felca, um influenciador que publicou um vídeo-denúncia sobre a “adultização” e exploração de crianças na internet. De uma hora para outra, todos os políticos decidiram caçar esse novo ponto vermelho brilhante. Em apenas dois dias, a Câmara dos Deputados apresentou mais de 30 projetos de lei inspirados pelo vídeo. Uma corrida quase cômica para ver quem seria o paladino contra a pedofilia online. Uma desculpa perfeita para uma Brasília que, de todos os lados, estava ansiosa para mudar de assunto.

A democracia brasileira é representativa, não direta. Isso significa que se espera do ocupante de um cargo público que se dedique integralmente aos assuntos, com mais preparo e tempo para aprofundar-se neles do que a população em geral. Se fosse para cada cidadão acompanhar, estudar e resolver todos os temas da vida pública, não precisaríamos pagar salários, estruturas e assessorias para políticos. Num sistema representativo, o representante deve organizar debates, pesar consequências, projetar cenários, e, sim, responder às pressões populares, mas não de forma acrítica. Afinal, o cidadão comum tem a vida para tocar: o trabalho, a casa, a escola, a família. O político, ao contrário, está ali justamente para prestar atenção em tudo isso, com recursos e tempo para fazê-lo. Quando o representante abdica dessa responsabilidade e age pavlovianamente, como um mero seguidor do humor digital, abdica também da função para a qual foi eleito.

É claro que política envolve responder a crises reais. Mas o que vemos é diferente: uma reação desproporcional e oportunista a cada like, cada meme, cada vídeo viral, enquanto problemas estruturais de longo prazo ficam sem solução. No fim das contas, a política nacional virou isso: um gato ofegante perseguindo eternamente um laser inatingível, sem jamais capturar nada de concreto.

Pode ser divertido de assistir, mas o país paga o preço desse teatro de impulsos volúveis. Coisa que eu não tenho é dó de político pela dificuldade que ele possa ter em exercer a função que tanto desejou. Quem está na chuva é pra se molhar, e todos ali se esforçaram muito para sentar no seu carguinho público. Política é difícil e dá trabalho. Não importa qual seja o inimigo imaginário que você vende ao seu eleitorado, não dá para esperar que alguém te leve a sério para combatê-lo se sua coluna vertebral tem a solidez de um chiclete mascado. Não dá pra derrotar o grande e malvado perigo estadunidense apenas com bravata, assim como não adianta juntar um monte de gente com o rabo preso e achar que esse povo vai conseguir destruir o sistema. Moderação não é licença para covardia, e ouvir a população não é desculpa para ser escravo do feed, muito menos para correr atrás do próximo pontinho vermelho como um gato hipnotizado.

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