Sou Juvenal Araújo. Depois de anos escutando o Brasil pela janela do SUS e das políticas públicas, eu aprendi que o diabetes não chega do nada — ele chega pelo CEP, pela renda, pelo acesso… e, sim, pela cor da pele. Muita gente negra sequer imagina que o risco é maior. Mas é. E negar isso custa vidas.
Em uma agenda no Recôncavo Baiano, Dona Maria — 58 anos, hipertensa, trabalhadora doméstica — me disse: “Seu Juvenal, o açúcar que me mata não está só no café. Está na vida corrida”. Por trás do desabafo, há ciência: no Brasil, um adulto preto ou pardo de 35 anos tem 30,8% de risco de desenvolver diabetes até os 80 anos; um não-negro, 23,4%. É quase um em cada três entre nós. Esses cálculos, feitos com bases nacionais, também mostram anos de vida perdidos e de convivência com a doença que pesam mais entre os mais vulneráveis.
O quadro se agrava no desfecho: entre 2012 e 2023, a mortalidade por diabetes foi 7,2% maior em pessoas negras do que em não-negras, com diferenças que explodiram no auge da pandemia. Também vemos mais internações por complicações entre pretos e pardos — um sinal de diagnóstico tardio e cuidado fragmentado.
Quando olho fora do Brasil, o padrão se repete. O Atlas da Federação Internacional de Diabetes estima que 1 em cada 9 adultos vive hoje com diabetes; a projeção para 2050 é de 1 em 8 (≈ 853 milhões). As regiões com menor renda tendem a crescer mais rápido — e nelas, a população negra é maioria. International Diabetes Federation Nos Estados Unidos, levantamentos do CDC e estudos recentes mostram prevalência maior em adultos negros e piores complicações (amputações, doença renal, mortalidade). No Reino Unido, pessoas de origem africana e afro-caribenha têm risco mais alto e mais precoce de DM2; por isso, o NHS recomenda rastrear antes e com mais intensidade.
“Mas isso é genética?” — me perguntou certa vez o Wellington, 42 anos, motorista de aplicativo, recém-diagnosticado. A resposta honesta: a maior parte da disparidade é social, não biológica. Moradia em áreas com pouca oferta de alimentos frescos, transporte longo, ambientes inseguros para atividade física, emprego precário, racismo cotidiano que gera estresse crônico — tudo isso empurra o metabolismo na direção errada. No Brasil, evidências ligam desvantagem socioespacial à pior saúde cardiometabólica; e discriminação racial autorreferida eleva a incidência de diabetes em pessoas pretas e pardas, mesmo após ajustes por renda e escolaridade.
Há ainda um detalhe técnico que quase nunca chega ao posto de saúde, mas muda vidas: a HbA1c (o “exame do açúcar de três meses”) tende a ser ligeiramente mais alta em pessoas negras do que em brancas com a mesma glicemia média — diferença pequena (≈ 0,2–0,4 ponto percentual), porém suficiente para superestimar casos limítrofes se usada sozinha. O recado prático é simples: em resultados “na beira do diagnóstico”, vale confirmar com glicemia/curva (OGTT) para evitar rótulos indevidos e, ao mesmo tempo, não perder quem de fato precisa tratar.
Quando o cuidado chega, ele também precisa ser igual em qualidade. Estudos no Brasil mostram menor frequência de exame de pés em pessoas negras com diabetes — um detalhe que separa uma ferida tratada de uma amputação evitável. O nome disso não é acaso: é desigualdade de cuidado.
Volto a Dona Maria. Ela mora a duas conduções do posto, trabalha em casa de família, almoça o que dá. “Doutor, dieta é coisa cara”, disse, rindo sem graça. Políticas públicas precisam respeitar essa verdade: educação alimentar culturalmente adequada, acesso a alimentos in natura com preço justo no bairro, atividade física segura perto de casa, e atenção primária que acolhe sem preconceito. Experiências internacionais mostram que a educação em diabetes adaptada à cultura alimentar melhora adesão e resultados — e isso vale para a feijoada, o cuscuz, a macaxeira, tanto quanto para o plantain caribenho.
Como ex-Secretário Nacional de Igualdade Racial — e, sobretudo, como homem negro — digo com franqueza: o diabetes não é neutro. Ele atravessa nossas biografias antes mesmo do diagnóstico. A boa notícia? Dá para virar o jogo: rastrear mais cedo onde o risco é maior; qualificar o diagnóstico; garantir cuidado de pé diabético, retina e rim; enfrentar o racismo institucional com formação de equipes e metas explícitas; e alinhar políticas urbanas que tornem saudável o que hoje é inviável.
Tenho trabalhado silenciosamente para costurar essas pontas — ciência, gestão e vida real. No fim do ano, compartilho com vocês um projeto que me tirou o sono (e me devolveu a esperança). Não é hora de contar tudo. Só posso dizer que será um convite para o Brasil olhar de frente para a saúde integral da população negra — com evidência, afeto e coragem. Até lá, sigamos: medir, cuidar, prevenir e, principalmente, igualar chances.
Fontes essenciais: Bracco et al., J Glob Health (risco vitalício no Brasil); IEPS (mortalidade e internações por raça/cor, 2012–2023); IDF Diabetes Atlas 2025 (carga global); CDC/estudos recentes (disparidades nos EUA); Diabetes UK/NHS (risco por etnia); Cavagnolli et al., PLOS ONE (diferenças na HbA1c); estudo brasileiro sobre exame de pés.