Como diz a canção Mais uma Vez, de Renato Russo e Flávio Venturini: “Quem acredita, sempre alcança.” E parece que isso calhou para o senador mineiro Carlos Viana (Podemos) quando, nesta quarta-feira (20), ele conseguiu virar presidente da CPMI do INSS no Congresso Nacional.
O interesse de Viana pelo comando da comissão não surgiu de última hora. Desde que foi indicado pelo Podemos para integrar o colegiado, ele já manifestava essa intenção. Para interlocutores, a conquista pode ajudar em uma estratégia maior: usar a CPMI como plataforma para recuperar protagonismo político e tentar viabilizar sua reeleição em 2026.
Ao O Fator, fontes explicaram que o senador estava sem uma bandeira ou espaço de destaque diante de uma eleição que tende ser acirrada no ano que vem. Assim, a presidência da CPMI pode dar visibilidade a ele, mas, segundo avaliação, “agora é uma faca de dois gumes, vai depender muito da atuação dele”.
Em uma derrota para o governo Lula, Viana foi eleito por 17 votos a 14 para comandar o colegiado que vai apurar as fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) entre 2019 e 2024. Até a véspera, a expectativa era de que Omar Aziz (PSD-AM) fosse o escolhido, com a articulação do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).
Os movimentos de Viana nas últimas 24 horas, porém, mudaram o cenário. A negociação contou com ajuda direta do líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), e teve o aval do líder da sigla no Senado, Rogério Marinho (RN). Eles dividiram esforços para procurar individualmente parlamentares da oposição e do centro, selando apoio ao mineiro.
Reservadamente, um deputado do PL afirmou que Viana deveria ter obtido um voto a mais. Ainda segundo ele, o resultado pegou a todos de surpresa porque o combinado no grupo político foi evitar comentar a estratégia, para que o governo, que já considerava a vitória garantida, não conseguisse reagir.
A ausência de parte da bancada do MDB na sessão também contribuiu para o revés governista. Além disso, a base questionou a forma como a senadora Tereza Cristina (PP-MS), aliada do ex-presidente Jair Bolsonaro, conduziu a sessão que definiu o presidente. Afirmaram que ela encerrou o processo de escolha de maneira precipitada.
O que foi combinado
Nos bastidores, Viana assumiu compromisso com líderes do PL. Prometeu entregar a relatoria ao deputado Alfredo Gaspar (União Brasil – AL), compromisso já cumprido, e conduzir os trabalhos de forma a “revirar tudo” sobre o INSS. O recado da oposição foi claro: se não cumprir o acordo, o desgaste político recairá sobre ele.
Ainda assim, a presidência obriga o senador a dialogar também com governistas. Até a ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, pediu espaço para conversas. O objetivo é evitar que um esquema iniciado no governo Jair Bolsonaro (PL) recaia apenas sobre a popularidade de Lula.
Viana também lidera a bancada do Podemos no Senado, formada por quatro senadores. E, mesmo com 14 integrantes, o PL tem acumulado derrotas em votações no Legislativo. Nesse contexto, o gesto ao Podemos pode abrir espaço para futuras parcerias, inclusive em pautas sensíveis para a oposição, como uma possível lei de anistia.
Histórico
O senador mineiro chegou a ser vice-líder do governo Bolsonaro na Casa por três anos, mas rompeu com o ex-presidente em 2022, quando o político decidiu apoiar a candidatura de Romeu Zema (Novo) ao governo de Minas, em detrimento do nome do senador.