Luís Fernando Veríssimo foi embora no fim do último agosto, mas vinte anos antes já tinha decretado a morte da Velhinha de Taubaté. Personagem criada durante o governo Figueiredo, ela ficou famosa por ser “a última pessoa no Brasil que ainda acreditava no governo”. Em agosto de 2005, no calor do escândalo do mensalão, Verissimo decretou sua morte em uma crônica em forma de obituário. Morreu em frente à TV, talvez de susto, talvez de desgosto, talvez de chá envenenado. O autor sugeriu que poderia ter sido suicídio. A graça estava na mordida: se até a velhinha que acreditava em tudo desistiu, era porque a política tinha perdido sua última fiel.
A morte da Velhinha de Taubaté marcou simbolicamente o fim de uma era. Veríssimo a matou porque nem mesmo a mais crédula das brasileiras conseguia mais acreditar na política nacional. Era 2005, e uma personagem nascida para satirizar a ingenuidade política sucumbia diante da corrupção sistêmica. Quase duas décadas depois, olhando para o Brasil de 2025, percebemos que Verissimo não apenas matou sua criação: antecipou o assassinato lento e metódico da própria esperança democrática brasileira. Parece que todos nós carregamos um pouco daquele velório dentro de casa.
Nos últimos doze anos, o eleitorado brasileiro passou por ciclos emocionais que revelam uma progressão clara: da esperança ilusória à raiva destrutiva, do medo paralisante à apatia resignada. Cada grupo político (petistas; bolsonaristas; tucanos; centristas) teve seus momentos de euforia seguidos de quedas vertiginosas. E todos, sem exceção, experimentaram a sensação de que “agora vai, agora vai dar tudo certo”, para depois voltarem ao estágio anterior de desencanto. Lula foi preso e, depois, teve suas condenações anuladas e recuperou os direitos políticos. Bolsonaro surfou a onda outsider, venceu em 2018, tornou-se inelegível até 2030 e, neste ano, foi colocado em prisão domiciliar por decisão do STF. O pêndulo tem sido cruel com certezas. Quem celebrou que o outro lado tinha acabado, cedo ou tarde ficou sem graça.
Se recuarmos alguns anos, o roteiro ajuda a entender o clima atual. Em 2014, havia um desejo de mudança capturado por pesquisas. Ainda assim, Dilma foi reeleita na disputa mais apertada da redemocratização até então. O detalhe curioso é que a própria campanha governista mimetizou o espírito do tempo. O slogan era “Mais mudanças, mais futuro”, e o ecossistema digital se organizou em torno do Muda Mais. Uma reeleição vendida com embalagem de mudança era, ao mesmo tempo, esperta e contraintuitiva, coisa de quem percebeu que a palavra mudança importava mais do que o carimbo da situação.
O truque retórico funcionou pra ganhar, mas o choque seguinte veio rápido. 2016 abriu a era do impeachment e uma maré municipal adversa à política tradicional. Em 2018, já estávamos nas eleições da raiva e do antipetismo viscerais, com a figura do outsider capitalizando medo, ressentimento e fadiga moral. Não se trata de adjetivar o eleitor, e sim de reconhecer a centralidade de emoções negativas na mobilização daquele ciclo.
Em 2020, a pandemia deslocou tudo. O efeito prático apareceu no comparecimento. A abstenção bateu recordes. Era a eleição do medo, do álcool em gel, da máscara de última hora, do santinho em QR code. Não foi um pleito de sonho coletivo, foi um pleito de prudência e custo de oportunidade para sair de casa.
A eleição de 2022 foi, nas palavras de especialistas, “a batalha de rejeições”. Lula não venceu por ser Lula, mas porque a rejeição a Bolsonaro acabou sendo maior que a sua própria. Esse traço aparece em pesquisas de opinião e em leituras do pós segundo turno. A palavra esperança esteve no marketing, mas não descreveu o humor dominante do país.
Corta para agora. Estudando opinião pública, cruzando grupos focais e séries quantitativas, observo outra coisa. O eleitorado que já comemorou vitórias e derrotas com o lulismo ou com o bolsonarismo agora vocaliza um sentimento que não é raiva, nem medo, nem entusiasmo. É cansaço. É preguiça. É apatia. Não se trata de fuga da política, e sim de defesa.
Este não é o desinteresse da ignorância, mas o cansaço da experiência. O eleitorado brasileiro passou por todos os sentimentos possíveis: acreditou em salvadores da pátria, vibrou com a queda de adversários, temeu pelo futuro da democracia, celebrou vitórias de pirro. E agora chegou à conclusão mais desoladora: nada disso importa muito.
Para quem se propõe a fazer política neste cenário, o desafio é inédito. Como mobilizar um eleitorado que não sente mais raiva nem esperança, mas apenas uma preguiça civilizada diante das promessas? Como construir narrativas para uma audiência que já ouviu todas as histórias e sabe como terminam?
Predominam sentimentos como preocupação e medo frente à raiva e à esperança, números que revelam um eleitorado menos inflamado, mais resignado. A solução não está em slogans como “Mudança” ou “Antissistema”. O eleitor já não acredita em palavras. A apatia é uma barreira mais difícil de transpor que a raiva ou o medo, porque é a ausência de emoção.
A Velhinha de Taubaté morreu de overdose de política brasileira em 2005. Vinte anos depois, são os próprios brasileiros que padecem do mesmo mal: cansaço crônico da promessa democrática não cumprida. A diferença é que, ao contrário da personagem de Veríssimo, eles não podem simplesmente descansar em paz.
O Brasil de 2025 não precisa mais matar suas velhinhas de Taubaté: elas morrem sozinhas, de morte natural, vítimas de uma democracia que aprendeu a funcionar sem paixão. Resta saber se uma democracia pode sobreviver quando seus cidadãos não conseguem mais se indignar nem se emocionar com ela.