No 7 de Setembro de 2025, a Avenida Paulista deixou claro que, para alguns, a independência brasileira ainda é um conceito flexível: verde e amarelo deram lugar às estrelas e listras dos Estados Unidos. O gesto, aparentemente inofensivo ou apenas provocativo para aqueles que estão cercados em suas bolhas, é carregado de simbolismo.
Ele nos leva a questionar: que tipo de patriotismo é esse que reverencia um símbolo estrangeiro justamente no dia em que deveríamos celebrar a nossa soberania e a nossa bandeira? Aqueles que ecoavam nas redes sociais frases como “nossa bandeira jamais será vermelha”, como resposta à imaginária ameaça comunista forjada por seus líderes, hoje dão um passo atrás em nome da subserviência norte-americana a custo de interesses privados de um ex-presidente desesperado com uma sentença que se aproxima. E pasmem: tudo isso durante a semana do fatídico julgamento de Jair Bolsonaro, o primeiro ex-presidente julgado por tentativa de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito.
A cena da bandeira dos EUA estampada em algumas manifestações neste 7 de Setembro, não só na Paulista, mas em várias outras cidades brasileiras, como Belo Horizonte, seria apenas contraditória se não fosse também trágica, porque revela mais do que idolatria política cega ou devoção a um líder. Mostra que, para parte da sociedade, a ideia de independência ainda é relativa. Mostra que, no imaginário de alguns, a liberdade nacional pode ser trocada por alinhamento automático a interesses externos, mesmo quando esses interesses se traduzem em tarifas, pressões econômicas e tentativas explícitas de interferência nos nossos processos internos, políticos e judiciais.
Seja no campo das Ciências Políticas ou Sociais, as teorias são lentes importantes que nos ajudam a ler o mundo. No campo das Relações Internacionais, o pós-colonialismo é valioso. Ele nos lembra que a independência formal, conquistada no século XIX, não foi suficiente para romper a lógica da colonialidade.
Em suas obras, Foucault analisou a relação indissociável entre poder e saber, onde o poder é constituído e reforçado a partir de uma lógica de dominação dos saberes, em uma relação mútua, onde a produção de conhecimento e o poder político caminham juntos.
Aníbal Quijano, sociólogo peruano e defensor das teses sobre o pós-colonialismo, sugeriu que a continuidade da colonização nos países colonizados se dá a partir da relação entre poder e saber.
Portanto, colonização vai além da ocupação territorial: é a colonialidade do poder e do saber, que se manifesta quando nossas decisões políticas ainda se orientam pelo olhar e pelo interesse de fora, quando nossas culturas continuam sendo moldadas por referências distantes e quando a nossa produção de conhecimento depende de legitimação externa.
A história latino-americana está repleta de exemplos dessa continuidade. Durante o século XX, ditaduras militares foram instaladas com participação ativa dos Estados Unidos, em nome da Guerra Fria e à custa de violações brutais de direitos humanos. No campo econômico, sucessivas políticas foram impostas ou condicionadas pelo jogo dos países centrais, limitando a autonomia da região. E agora, em pleno 2025, assistimos aos atos intempestivos do presidente norte-americano, Donald Trump, que tenta interferir em um processo judicial brasileiro, ameaçando o país com tarifas caso o seu aliado político seja condenado.
Nada disso é novo, mas a cena do 7 de Setembro dá uma nova camada de complexidade: dessa vez, não é apenas a pressão externa que ameaça a nossa soberania, a partir de interesses externos. É parte do nosso próprio povo pedindo abertamente por essa interferência, como se a defesa de interesses nacionais pudesse ser negociada em praça pública em troca de lealdades políticas e interesses privados. Não mais pelo medo do comunismo forjado, mas dessa vez para proteger um ex-presidente indiciado.
Apesar das particularidades de 2025, o que observamos é um processo de escalada nos últimos anos sobre o uso simbólico do 7 de Setembro. Em 2020, o desfile oficial foi cancelado em respeito à pandemia e ao distanciamento social. Jair Bolsonaro, ainda assim, descumprindo as regras, reuniu apoiadores, sem máscara, para um discurso inflamado sobre as forças armadas.
Em 2021, em meio à CPI da Covid, que investigava a gestão da pandemia, Bolsonaro defendeu o voto impresso e atacava o poder judiciário, na figura de Alexandre de Moraes, afirmando que “jamais cumpriria nenhuma decisão do juiz”, dizendo frases como “ou o chefe desse Poder enquadra o seu, ou esse Poder pode sofrer aquilo que não queremos“, escalando, assim, o conflito entre os poderes da República e sugerindo ameaças à democracia. Receoso pelas consequências, o então presidente chegou a pedir desculpas dias depois.
Em 2022, em pleno ano eleitoral, foi a vez do discurso inflamado em que se disse “imbrochável” para afirmar que se manteria de pé diante das supostas tentativas do sistema de impedir que ele fosse eleito, novamente atentando contra o sistema eleitoral, que, diga-se de passagem, foi o mesmo que o elegeu.
Perde-se a eleição e, em 2023 e em 2024, Bolsonaro voltou a repetir a retórica, com novas configurações, pedindo a anistia em relação aos atos do dia 8 de janeiro e tecendo duras críticas ao sistema de justiça. Em 2025, isolado em prisão domiciliar e à beira de uma condenação, Bolsonaro não participa dos atos, mas segue inflamando a bolha em nome de sua defesa.
Aqui, chegamos ao ponto mais grave: a soberania nacional, que deveria ser um consenso mínimo em qualquer sociedade democrática, tornou-se palco de disputa ideológica. Já não temos acordo nem sobre a defesa da nossa própria autonomia. Já não temos coesão sequer sobre o que significa a palavra “independência”.
Será que somos verdadeiramente livres e independentes, capazes de tomar decisões soberanas sem tutelas externas? Ou ainda vivemos aprisionados numa lógica de dependência internacional que insiste em nos atravessar, com direito a apelo popular?
Chegamos a um ponto em que a falta de coesão social e democrática já não é apenas um desafio institucional, mas sintoma de que a nossa independência, mais de dois séculos depois do grito do Ipiranga, continua sendo um projeto inacabado.
Nossa verdadeira liberdade, enquanto nação, depende necessariamente de uma ideia coesa de soberania. De um país que tenha o mínimo de consenso sobre seus problemas e desafios, não a partir de narrativas políticas artificiais e forjadas, mas a partir de uma realidade que se impõe. E a realidade brasileira é moldada por desigualdades sociais profundas, que são ignoradas por essas artificialidades. Quem mais precisa da política, hoje assiste abestado aos ensaios de narrativas de quem não está preocupado com a realidade que nos cerca.
Até onde são capazes de ir os malabarismos para defender o indefensável?