Quando o ódio e a descrença falam mais alto

Os protestos no Nepal explodiram como um curto-circuito que virou um grande incêndio. O estopim foi um banimento amplo de redes sociais, anunciado e depois recuado que a juventude leu como censura em um país já cansado de corrupção e privilégios. A repressão empurrou a multidão para o confronto aberto. Em poucos dias, prédios públicos foram incendiados, o Exército ocupou ruas, e o primeiro-ministro K. P. Sharma Oli renunciou. As mortes variam conforme a fonte, de pelo menos 19 a cerca de 30 e os feridos passam de centenas. É o retrato de uma democracia fragilizada, lutando para não romper de vez.  

A origem imediata do caos é nítida: um pacote que bloqueou plataformas (Facebook, Instagram, YouTube, entre outras) sob o argumento de “combater desinformação”, decisão lida como ataque direto à liberdade de expressão em um país onde a praça pública hoje é digital. O recuo veio, mas tarde demais, a faísca caiu na palha seca de um mal-estar mais profundo: desemprego juvenil alto, descrédito com a elite política e uma geração que batizou o levante de “protesto Gen Z”.  

O ponto de ruptura ficou evidente quando o Parlamento foi invadido e incendiado, residências de líderes políticos atacadas e a capital paralisada por toque de recolher. Na sequência, com a renúncia do premiê e a presença de tropas nas ruas, o país entrou num limbo entre a urgência de reformas e o risco de normalizar a violência como gramática da política.  

As cenas que rodaram o mundo mostram o quanto o abismo se abriu: líderes e ex-primeiros-ministros agredidos, ministros espancados e obrigados a fugir; vídeos mostram o ministro das Finanças, Bishnu Paudel, sendo perseguido, agredido e forçado a entrar num rio para escapar da multidão; manchetes sensacionalistas falaram em “arremessado ao rio”. Há ainda o caso estarrecedor da esposa do ex-premiê Jhalanath Khanal, que sofreu queimaduras quando a casa foi incendiada; alguns veículos chegaram a noticiar que teria sido “queimada viva”, enquanto outros relatam que ela está hospitalizada e em recuperação. Em qualquer dos relatos, a mensagem é a mesma: isso não é manifestação; é barbárie. 

Escrevo isso também como brasileiro, perplexo com o que vi por aqui: gente comemorando as cenas do Nepal e pedindo que “aconteça igual no Brasil”. Não foram poucos os comentários, inclusive de pessoas que se dizem “cristãs”, desejando a morte de políticos e celebrando as imagens da barbárie. Não dá para normalizar esse tipo de conduta. Desejar a morte do outro não é projeto de país, não é fé, não é coragem: é desumanização.

Essa conversa nos leva, inevitavelmente, a 8 de janeiro de 2023. Ali não houve “protesto pacífico que saiu do controle”; houve uma tentativa de golpe, com invasão e depredação do Congresso, do STF e do Planalto, rechaçada pelo funcionamento das instituições, investigação, prisões, denúncias e julgamentos em curso, inclusive no topo da cadeia política. Democracia se defende com lei, não com torcida organizada.  

Quero enfrentar uma narrativa recorrente na extrema direita: “não se dá golpe sem armas”. É falsa. Golpes “modernos” começam pela mentira em escala, pela coação digital, por tentativas de capturar o processo decisório e deslegitimar as regras do jogo e podem terminar com violência física, como vimos lá e quase vimos cá. Em Brasília, o que faltou foi a captura do Estado; no Nepal, a faísca veio do cerco informacional. O denominador comum é a fantasia de que destruir as travas da democracia abre caminho para a “limpeza” e a “ordem”. Abre, isto sim, caminho para o medo e para o luto.  

“Democracia é a pior forma de governo, à exceção das demais”, disse Churchill — e a frase sobrevive porque é um incômodo verdadeiro. Democracia é lenta, barulhenta, frustrante, mas é o único regime que corrige os próprios erros sem passar por cima de pessoas. É assim que sociedades maduras resolvem conflitos: por meio de votos, debates, controles e sentenças, não por linchamentos morais (ou físicos). Quando instituições funcionam; Congresso, Judiciário, Executivo, Ministério Público, imprensa e forças de segurança, cada qual com limites e controles, a paixão política encontra trilhos; quando não, a carroça do ódio derrapa na curva e arrasta inocentes.

“Ah, mas e a corrupção?”  muitos justificam a conivência com a violência apelando a ela. Combater corrupção é central em qualquer democracia séria, mas combate sério não veste máscara nem empunha armas. Faz-se com transparência, tribunais independentes, reformas legais que fechem brechas e punição sem espetáculo. No Nepal, a pauta anticorrupção foi sequestrada pelo fogo; no Brasil, já vimos a indignação justa virar licença para atropelos que, no fim, enfraquecem as defesas do Estado de Direito.  

Também não é verdade que “nada acontece” por aqui. Há investigações, ações penais, extradições pedidas e julgamentos transmitidos ao vivo, tudo dentro do devido processo legal. É demorado? É. É polêmico? Também. Mas é justamente isso que separa um país com lei de uma praça de linchamento.  

Aos que, do conforto do teclado, celebraram o fogo em Katmandu e pediram “que venha aqui”, deixo uma pergunta simples: você aceitaria a mesma lógica quando o adversário estivesse no poder? Se a resposta for “não”, o que você defende não é um princípio, é vingança. E vingança não constrói nenhuma nação.

O Brasil precisa encerrar de vez esse flerte quase infantil  com a ideia de “um dia de fúria” que resolveria tudo. Problemas de governo se resolvem com governo: com planejamento, com orçamento, com execução, com controle e com prestação de contas. Problemas de representação se resolvem com política: partido, federação, coalizão, debate público e principalmente, com o voto. A indignação é um combustível legítimo, mas sem condução institucional vira incêndio. Não precisamos importar o inferno dos outros. Precisamos, isto sim, reafirmar, todos os dias, que o caminho é fortalecer as instituições e recusar a naturalização do ódio, sobretudo quando ele vem disfarçado de solução.

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