Chega de radicais e de radicalismo

Precisamos de mais Cox e Talarico e menos Nikolas e Kalil na política, se quisermos deixar para trás esse ambiente hostil
Charlie Kirk
Foto: Amy KING / UGC / AFP

Um cruel assassinato, motivado por intolerância ideológica, chacoalhou os Estados Unidos – com reflexos por todo o mundo – nessa semana que passou. 

Durante um evento público na universidade Utah Valley, em Utah, o influencer político Charlie Kirk, umbilicalmente ligado à causa conservadora e ao partido Republicano, foi covardemente baleado no pescoço e morreu em seguida. Tyler Robinson, estudante de 22 anos, foi preso na sexta-feira, 12, suspeito pelo crime. 

Nas redes sociais, que se tornaram – a despeito de muita coisa boa, como informação rápida (desde que a partir de fontes confiáveis) e permitir acesso a conteúdos incríveis – uma espécie de jaula global para selvagens de todos os matizes, comentários grotescos, comemorando a morte do rapaz, tornaram-se abundantes.

Em ordem unida

Como justo contraponto, poucas vozes equilibradas e um exército de militantes radicais reagiram. Por parte de quem condena o radicalismo de todos os lados, as mensagens apontavam o horror dos comentários e clamavam por pacificação. Pelo lado dos radicais, discursos violentos e pregação de mais cisão social. 

O presidente dos EUA e seus seguidores por todo o mundo atacaram “a esquerda”, como se todos os progressistas do planeta fossem assassinos cruéis: “Durante anos, os da esquerda radical têm comparado americanos maravilhosos, como Charlie, com nazistas e os piores assassinos em massa e criminosos do mundo. Esse tipo de retórica é diretamente responsável pelo terrorismo que estamos vendo em nosso país hoje, e deve parar agora“, afirmou Donald Trump em sua rede social.

Aqui no Brasil, como jamais poderia ser diferente, já que caixa de ressonância do radicalismo mundial, Nikolas Ferreira, um dos maiores expoentes da beligerância política do momento, imediatamente ecoou as palavras do presidente dos EUA e iniciou seus costumeiros ataques à esquerda do país.

O mesmo padrão

O deputado federal mineiro iniciou, também, uma campanha pela demissão de quem tem se posicionado a favor do assassinato de Kirk, algo costumeiramente observado – e pelos radicais de direita criticado – nos movimentos da extrema esquerda mundial, como os boicotes a Israel e à empresas multinacionais. O grupo de patrulha ideológica Sleeping Giants é um exemplo desse tipo de pressão pública.

Nesse sentido, chamou a atenção a demissão de Luís Otávio Kalil, sobrinho do ex-prefeito de Belo Horizonte e ex-presidente do Atlético Mineiro, Alexandre Kalil. Preparador físico, o rapaz já havia sido dispensado do Galo em 2020 – onde havia conseguido o emprego com a ajuda do tio – por questões internas no Clube. 

Luís Otávio, nas redes sociais, segundo Nikolas, celebrou a morte do influencer americano (e depois apagou a postagem): “Esse facistinha só pregava ódio, racismo, preconceito, apoiava o genocídio em Gaza, menos um genocida facista, já vai é tarde.

Radicais com radicais

Ainda segundo o próprio Nikolas, em suas redes sociais, uma empresa do setor esportivo de BH, ao tomar conhecimento da mensagem, dispensou Luís Otávio Kalil. Se a atitude foi tomada por decisão pessoal do proprietário e motivada por suas crenças e seus valores, a meu ver, é mais que justificável e aceitável. 

Porém, se a demissão foi por receio da opinião pública, a partir da pressão de Nikolas Ferreira, considero um erro grotesco. E não que Kalil não mereça! Eu mesmo, no lugar de seu patrão, lhe mandaria um “belo chute no traseiro”. Mas jamais me curvaria à pressão e à patrulha de qualquer grupelho militante ou político radical. 

O próprio tio desse rapaz, aliás, Alexandre Kalil, não difere muito do jovem bolsonarista na maneira de se comportar politicamente, já que costuma ser extremamente agressivo com seus adversários e até ameaçar fisicamente quem dele discorda. Atualmente, Kalil, inclusive, cerra fileiras ao lado de radicais de esquerda, como a deputada federal Duda Salabert.

Um sincero “mea culpa”

Em um passado não muito distante, eu mesmo escrevia coisas das quais me arrependo – hoje – profundamente. Mas o que me motivava deu lugar à maturidade e ao equilíbrio necessários para que eu possa participar da vida pública. Atualmente, sou ciente e consciente de que meus atos e minhas palavras influenciam milhares de pessoas, e que devo ter sempre muito cuidado ao escrevê-las e proferi-las, se eu realmente quiser trazer algo útil ao debate.

Infelizmente, muita gente opera no sentido contrário, pois vive da discórdia e da cisão. Por isso, defendo – cada vez mais – gente como Spencer Cox, governador de Utah, na política, que, em meio à tragédia, ao invés de agressividade e proselitismo ideológico, visivelmente emocionado, afirmou: “Precisamos desesperadamente de líderes em nosso país, que pensem onde estamos e onde queremos chegar. Nada do que eu possa dizer agora será capaz de reparar o que aconteceu e reparar esse país”.

E finalizou: “Se alguém que estiver me ouvindo está celebrando o que aconteceu, eu imploro: olhe-se no espelho e procure dentro de si alguém melhor. Nas redes sociais, com nossos amigos, nossas famílias, precisamos encontrar uma maneira de parar de odiar nossos irmãos americanos.

Basta de extremistas

Outro político moderado, James Talarico, vem dizendo obviedades a respeito, não mais da polarização, mas da verdadeira guerra entre espectros políticos opostos, fomentados e incentivados por populistas: “Donald Trump promete destruir seus inimigos, mas Jesus nos chama a amar nossos inimigos. Todos estamos enfrentando isso agora, estamos tratando nossos vizinhos e familiares como inimigos.” 

Muita gente (Trump, Musk, Murdoch) gasta tempo e energia nos mantendo raivosos e divididos, porque a unidade é uma ameaça ao poder deles. Uma das mais antigas estratégias do mundo é “dividir para conquistar”. Eu sei que é mais fácil falar do que fazer, mas temos que tentar. Não desista de confiar nos seus vizinhos. Não desista de amar o próximo. Esse é o trabalho da democracia“, concluiu o jovem americano.

Definitivamente, precisamos de mais Cox e Talarico e de menos Nikolas e Kalil (tio e sobrinho) na política e no debate público – e não me refiro às pessoas, mas às condutas – se realmente quisermos deixar para trás esse ambiente hostil, que acaba contribuindo para tragédias como a de Charlie Kirk, já que lunáticos e assassinos intolerantes circulam livremente pelo mundo, infelizmente.

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