Qual futuro queremos para todos nós?

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Daqui a um ano o Brasil voltará às urnas para escolher o presidente que conduzirá o país num momento delicado e decisivo. Não deveríamos tratar essa eleição como mais um capítulo de briga nas redes ou de duelos de frases de efeito: precisamos transformá-la num referendo sobre as próximas gerações. A pergunta que deve nos guiar é simples e incontornável: que país queremos entregar a elas? Se aceitarmos esse norte, o debate deixa de ser sobre quem grita mais alto e passa a ser sobre quem é capaz de organizar e entregar projetos que melhorem a vida das pessoas, com seriedade e comprometimento.

Nos últimos anos, criamos uma espécie de “dieta pública” baseada em indignação e caminhos mais fáceis. Perfis performáticos ganham o palco com “soluções” fáceis, porém impossíveis, recortes viram manchetes, e a democracia vai sendo reduzida ao feed. A polarização, nesse ambiente, não é uma causa; é um produto. Ela rende audiência, cliques e arrecadação política, mas é estruturalmente incapaz de solucionar problemas, porque vive de antagonismos identitários e não de planejamento. Ao fixar o debate em etiquetas do “nós” contra “eles”, a polarização empobrece o vocabulário das saídas e sabota pactos mínimos. O Brasil não aguenta outro ciclo assim. Precisamos convocar a maioria silenciada, a população que não se reconhece nesse ringue permanente a ocupar o centro do debate, a escolher representantes com disposição para governar e entregar, enfrentando a radicalização sem medo e, sobretudo, sem preguiça.

Nas últimas semanas, vimos um prefeito de Canhoba (SE) celebrar os 40 anos com um ensaio sensual de cueca, inspirado em “Cinquenta Tons de Cinza”, publicado nas redes oficiais; o episódio virou notícia nacional e símbolo de um mandato que confunde autopromoção com serviço público. Em São Caetano do Sul (SP), vereadores foram filmados dançando sobre as mesas do plenário, durante sessão, num espetáculo que achincalha a liturgia do cargo e a confiança do eleitor. E no interior de São Paulo, a vice-prefeita de Ribeira foi acusada de usar verba pública para pagar “amarração amorosa” extraconjugal, caso que levou a decisões judiciais e investigações do Ministério Público. Diante desse roteiro, a pergunta é inevitável: que tipo de gente estamos elegendo para nos representar?

Se quisermos levar o tema das próximas gerações a sério, temos de partir de um diagnóstico honesto do presente. O ambiente macroeconômico segue apertado: a taxa básica de juros está em 15% ao ano, um patamar restritivo, e isso encarece crédito, trava investimento produtivo e aperta o orçamento das famílias e empresas. O retrato doméstico confirma a preocupação: a inadimplência das famílias atingiu recordes recentes, evidenciando um ciclo de endividamento prolongado e vulnerabilidade financeira que corrói a confiança e o consumo. Some-se a isso um sistema tributário complexo, caro de cumprir e repleto de exceções, que preserva distorções e alimenta o chamado “Custo Brasil”, punindo a produtividade e penalizando os pequenos que não dispõem de exércitos de consultores para navegar a selva fiscal.

Na infraestrutura, o país convive com o paradoxo da abundância de necessidades e escassez de execução. Um levantamento recente do Tribunal de Contas da União indica que, de cerca de 22 mil obras mapeadas até abril de 2025, 11 mil estão inacabadas, metade do total. É dinheiro público parado, indo para o ralo e comunidades inteiras aguardando serviços que não chegam. Para além da execução, investimos sistematicamente menos do que a necessidade: estudos projetam algo em torno de 2,2% do PIB em 2025, quando deveríamos estar investindo ao menos entre 4% e 5% por vários anos seguidos para recuperar o atraso e sustentar crescimento. O efeito está nas estradas com manutenção deficiente, nos gargalos logísticos, na saturação de portos em picos de safra e na tímida malha ferroviária. Essas restrições logísticas saem na conta do frete, encarecem o alimento na mesa e tiram competitividade das nossas exportações. As pesquisas de qualidade de rodovias confirmam a necessidade de reforço consistente e previsível em investimentos e conservação.

O capítulo fiscal e regulatório merece franqueza idêntica. Precisamos de um Estado que gaste menos e melhor, que priorize o investimento público de alto retorno social e que libere a iniciativa privada para investir com segurança jurídica e previsibilidade. Isso envolve calibrar marcos regulatórios, atacar gargalos de licenciamento sem abrir mão de critérios ambientais e fortalecer agências para que tenham independência técnica e capacidade de monitorar contratos. Envolve também simplificar obrigações acessórias e dar estabilidade às regras, previsibilidade é um ativo. O investidor doméstico e o internacional só colocarão capital em projetos longos se confiarem que as regras do jogo não mudarão a cada ciclo político.

No mundo do trabalho, a transformação digital e a inteligência artificial já estão reconfigurando ocupações e exigindo requalificação contínua. Em vez de prometer proteção contra o futuro, a política responsável deve construir proteção para o futuro: redes de aprendizagem ao longo da vida, crédito educativo desenhado para requalificação, certificação por competências, políticas ativas de emprego que conectem quem busca com quem precisa. E tudo isso com um olhar regional: reduzir desigualdades entre Norte/Nordeste e Sul/Sudeste, interior e litoral, requer integrar cadeias produtivas, melhorar conectividade logística e desenhar incentivos que atraiam investimentos sustentáveis para além dos grandes eixos já consolidados.

No campo social, é preciso abandonar a falsa dicotomia entre responsabilidade fiscal e proteção aos mais vulneráveis. As duas coisas se reforçam quando bem feitas. Programas de transferência de renda precisam vir acompanhados de portas de saída: educação infantil de qualidade, ensino integral, qualificação profissional, apoio ao microempreendedor, formalização e acesso a crédito mais barato, tudo isso com avaliação permanente de impacto. Segurança pública, por sua vez, demanda integração de dados, inteligência, metas comuns entre forças policiais e políticas urbanas que reduzam os fatores de risco. Não é pauta “de direita” ou “de esquerda”; é pauta de civilização.

O combate à desinformação também deve entrar no nosso contrato eleitoral. O algoritmo não pode ditar a nossa prioridade coletiva, e o discurso vago não pode continuar premiado com a nossa atenção. A responsabilidade é compartilhada: plataformas precisam ser cobradas por transparência e moderação consequente; a imprensa profissional, apoiada por regras de proteção e incentivo, escolas, equipadas para a alfabetização midiática; e nós, cidadãos, vacinados contra o sensacionalismo crônico. Chega de aceitar a agressividade digital como norma. Chega de normalizar a lacração. A política precisa voltar a ser instrumento de resolver problemas concretos, e isso se chama gestão pública eficiente: planejamento, orçamento, execução, controle e prestação de contas.

E aqui volto ao ponto de partida: a eleição do ano que vem é oportunidade rara de atualizar o contrato entre sociedade e Estado. Se for mais um campeonato de memes, perderemos o tempo que não temos mais. Se for um momento de escolhas corajosas, podemos virar a página. A maioria silenciada precisa sair da arquibancada e punir, com o voto, quem só oferece gasolina para incendiar o debate e não propõe soluções. É hora de nos recusarmos a ser plateia do conflito infinito e voltarmos a ser autores de um futuro que já chegou.

Em doze meses, teremos de responder com o voto, à pergunta que vale uma geração: qual país queremos para elas? Se tivermos a coragem de enfrentar o óbvio, rejeitar os extremos e recolocar o bom debate, a gestão eficiente no centro, a resposta caberá num verbo que sempre nos moveu: construir. Porque, apesar de tudo, o Brasil segue sendo um país rico, com enorme potencial e que sigamos movidos pela esperança de um país mais justo, próspero, humano e igual para todos.

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