O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu não mudar o tom nem recuar das falas sobre segurança pública, mesmo diante das pressões internas e do desgaste provocado por declarações recentes. O tema se tornou central na agenda política após a megaoperação policial no Complexo do Alemão e no Complexo da Penha, no Rio de Janeiro, que deixou mais de 120 mortos.
Segundo interlocutores disseram a O Fator, Lula considera que já flexibilizou posições em diversas áreas caras à esquerda, aproximando-se do centro e do Congresso Nacional, mas avalia que uma mudança de discurso sobre segurança pública comprometeria a narrativa que pretende sustentar na disputa eleitoral.
Na terça-feira (4), o presidente comentou sobre o assunto durante entrevista concedida em Belém (PA), onde é realizada a COP30. “A decisão do juiz era uma ordem de prisão, não tinha uma ordem de matança, e houve uma matança. Eu acho que é importante a gente ver em que condições ela se deu. Nós, inclusive, estamos tentando ver se é possível os legistas da Polícia Federal participarem do processo de investigação da morte”.
O episódio na capital fluminense, o mais letal da história do estado, reacendeu o debate nacional sobre segurança e fortaleceu governadores de direita que já se articulam para as eleições de 2026. Como mostrou a reportagem, a equipe de comunicação do governo acompanha com atenção o avanço do tema.
Pesquisas internas realizadas ainda no primeiro semestre mostraram que a segurança pública segue entre os principais pontos de vulnerabilidade na imagem do governo. Parte significativa da população, segundo esses levantamentos, não compreende que a responsabilidade pela área é compartilhada entre União, estados e municípios, e o Planalto reconhece falhas na comunicação dessa mensagem.
Nos bastidores, integrantes da Secretaria de Comunicação orientaram o presidente a reduzir o número de falas diretas sobre o assunto e concentrar a narrativa nas ações concretas do governo e a responsabilidade do Congresso Nacional e dos governadores nessa equação. A ideia é evitar novas polêmicas exploradas amplamente por adversários.
Enquanto o Planalto tenta conter o desgaste, governadores de oposição intensificam a exploração política do tema. Lideranças como Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais, e Cláudio Castro (PL), do Rio de Janeiro, articulam ações conjuntas e buscam projetar uma imagem de enfrentamento ao crime.