O melhor lugar do mundo não é feito de distâncias, mas de memórias. Não está nas capitais nem nas terras prometidas – está no chão que reconhece nossos passos, no vento que fala a língua da infância, no descampado com cheiro de pequi e no rio que nos devolve o eco do que fomos. O melhor lugar do mundo é a casa da gente, o território onde o coração se sente parte.
E quando penso nisso, penso em Matias Cardoso de Almeida, o sertanista. Um nome que carrega nas sílabas o peso e a poesia de um tempo em que o Brasil ainda se inventava. Cada época, afinal, revela seus homens e mulheres, mas também as gerações que os antecederam. O que somos hoje talvez seja reflexo do que a necessidade de nossos pais nos ensinou a ser. E Matias é testemunho vivo disso – filho e homônimo de outro Matias Cardoso, ambos movidos pela coragem de atravessar o desconhecido.
Nascido em São Paulo, em 1637, Matias cresceu entre histórias de mares e sertões. Aos dezesseis anos, já seguia com o pai por caminhos ignotos, onde apenas os povos originários deixavam rastros. Aventurou-se rumo ao que, no século seguinte, seria chamado de Capitania de Minas Gerais, atraído pelas promessas de riqueza que o rumor popular espalhava. Difícil imaginar o que levava um açoriano a penetrar as matas densas e os sertões bravios do século XVII. Talvez a mesma inquietação que move os homens que sonham fundar mundos.
Governador das margens do São Francisco
Foi o filho, entretanto, quem se notabilizou. Distinguido como capitão Matias Cardoso, integrou em 1673 a bandeira de Fernão Dias Paes, desbravando o caminho que o levaria ao extremo norte do que hoje é Minas Gerais. Em 1681, já sob o comando de D. Rodrigo de Castelo Branco, governador das minas de Sabarabuçu, Matias enfrentou tempos de incerteza e rumores de tragédias: a morte misteriosa do próprio governador, em Pedro Leopoldo, envolta em versões de assassinato e desaparecimento, nas quais até o nome de Manuel de Borba Gato ecoa entre lendas e sombras.
Pouco se sabe, com exatidão, de seus passos seguintes, mas é certo que, em 1684, Matias estava sediado na região do atual município de Manga, já nomeado governador e administrador das terras entre Porto Seguro e o rio São Francisco, por ordem de Antônio de Souza e Menezes, governador da Bahia. Era vasto o território sob sua responsabilidade, e vasto também o desafio de dominar uma região ainda livre e indômita.
Em 1688, recebeu determinação para guerrear os cariris, no Rio Grande do Norte, campanha que liderou entre 1690 e 1694, em tempos de brutalidade e extermínio, quando o avanço da colonização confundia-se com a perda de mundos inteiros. Seguiram-se as jornadas pelos rios Pardo e Verde, no Norte de Minas, onde fundou fazendas, conquistou territórios e lançou as bases de ocupação de vastas áreas que hoje se estendem de Minas Novas ao Serro Frio, o que chamamos de Vale do Jequitinhonha.
O rio da memória
Consta ainda que esteve em Ouro Preto em 1701, talvez testemunhando os prenúncios da Guerra dos Emboabas, que opôs paulistas e forasteiros na disputa pelas riquezas recém-descobertas. Em 1703 ou 1704, retornou ao Norte, onde o filho, Januário Cardoso, já se encontrava. O registro de sua morte é incerto – entre 1703 e 1705 flutuam as suposições. Mas, mais importante que o fim, é o rastro que deixou: o de um homem que fincou raízes no coração do sertão mineiro.
Hoje, nas margens do Velho Chico, o nome Matias Cardoso não é apenas memória, não é apenas uma cidade, é território, é pertencimento.
Ali, onde o sol incendeia a terra e o vento sopra com voz antiga, repousa a lembrança de um tempo em que o Brasil era desbravamento, e o sertão, promessa. Ali, o passado se mistura ao presente como o barro se mistura à água do rio, moldando histórias e destinos.
O retorno ao lar
O sertanista buscava ouro, mas o que legou foi chão e identidade. Fundou não apenas fazendas, mas um sentimento de origem, um ponto de partida para gerações que, séculos depois, ainda se reconhecem naquele pedaço de mundo.
Porque, no fim, é isso que nos sustenta: a certeza de que pertencemos a um lugar que nos antecede.
E se cada um tem seu porto seguro, o de Minas talvez esteja ali, onde tudo começou e se mistura: em Matias Cardoso, terra de sol, rio e memória, onde o passado repousa sob o canto do São Francisco, lembrando-nos que o melhor lugar do mundo é, e sempre será, a casa da gente.