Investigados por esquema na Sudecap trituraram documentos para destruir provas, diz MP

Membros do grupo tentaram esconder comprovações das supostas fraudes cometidas em contratos de obras em BH
As investigações começaram a partir de representação da própria Sudecap, que identificou indícios de irregularidades na execução de contratos de obras públicas. Foto: Rogério França / Divulgação PBH

Dois dias após o vazamento da lista com os nomes da nova direção da Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap), em Belo Horizonte, nomeados em janeiro deste ano, um grupo de servidores da Diretoria de Infraestrutura é acusado de promover uma operação para destruir provas das fraudes em contratos de obras. Eles teriam triturado papéis, apagado arquivos digitais e limpado computadores nos dias 30 e 31 de janeiro, um mês depois da posse do novo superintendente, Leonardo José Gomes Neto.​ As alegações constam em documento do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) obtido por O Fator.

A tentativa de apagar as evidências foi o ponto de partida da investigação do MPMG, que resultou na Operação As Built, deflagrada nessa terça-feira (11). Para os investigadores, a suposta destruição dos documentos revelou que os envolvidos sabiam da ilegalidade dos atos praticados durante a gestão anterior.​

Duas testemunhas ouvidas ao longo da apuração notaram a movimentação suspeita e procuraram a nova superintendência. Elas relataram que havia uma operação em curso para destruir documentos físicos e arquivos digitais a fim de ocultar irregularidades nas contratações e na forma como a Diretoria era conduzida sob o comando de Adriano de Souza Morato, engenheiro efetivo da Sudecap e que atuou nas chefias da autarquia entre 2017 e 2025, período que compreende inclusive a gestão de Alexandre Kalil (PDT).​

Na investigação do MPMG, quatro pessoas foram apontadas como responsáveis pela destruição: Charle Ferreira de Almeida, gerente da Gerência de Projetos de Infraestrutura II, Leandro Cupertino Correia, gerente do Departamento de Projetos de Infraestrutura, Aguinaldo Santos, ocupante de cargo comissionado, e Sônia Emerich de Oliveira, agente de apoio técnico.​

Segundo o relatório do Ministério Público, eles rasgaram papéis e utilizaram uma máquina trituradora levada de casa especificamente para eliminar os documentos.​

Máquina trituradora trazida de casa

Uma testemunha confirmou em depoimento que Sônia Emerich de Oliveira levava uma máquina de picotar papel para o trabalho. A trituradora foi trazida para destruir provas das irregularidades contratuais.​

Outra depoente, que atuava como fiscal de obras, relatou que recebeu ordem de Marcos Augusto Hollerbach e Renato Gonçalves de Mello Júnior, gerente do Departamento de Obras de Infraestrutura, para apagar e queimar documentos e pastas da Sudecap. Isso incluía planilhas digitais e registros físicos que comprovariam as irregularidades.​

Para se proteger, ela guardou cópias dos documentos em sua residência.​

Acesso ao computador do diretor

Maria Clara Veriano dos Santos, engenheira terceirizada identificada como braço direito de Adriano Morato, teria acessado o computador do então diretor para apagar registros digitais.​

Uma testemunha relatou que, ao chegar para trabalhar no dia 30 de janeiro, percebeu que havia alguém sentado na cadeira do diretor. Depois de muito tempo, Maria Clara saiu de dentro da sala. A depoente perguntou a uma colega de trabalho o que Maria Clara estava fazendo ali, mas a interlocutora também não sabia. No dia 31, Maria Clara passou novamente muito tempo na sala do diretor. Na segunda-feira seguinte, ela fez uma limpeza na sala.​

Maria Clara tinha acesso privilegiado às informações da Diretoria de Infraestrutura. Ela era acionada diretamente pelo então diretor e o atendia em praticamente todas as demandas.​

MP quer encontrar planilhas paralelas

A investigação revelou a existência de uma contabilidade paralela na Sudecap. Eram planilhas de medição que não correspondiam à realidade da execução contratual, destinadas a mascarar as irregularidades nos contratos de obras.​

A busca e apreensão foi solicitada justamente para localizar essas planilhas paralelas e a contabilidade informal que as testemunhas mencionaram. A tentativa sistemática de destruir provas documentais e digitais tornou necessária a apreensão de dispositivos eletrônicos dos investigados.​

O MPMG considerou que o risco de perecimento de provas era real e iminente. A destruição já havia sido parcialmente concretizada quando as servidoras denunciaram a operação. A atuação dos envolvidos em eliminar vestígios ao tomarem conhecimento da troca de gestão indicava que tentariam destruir o que restou das provas.​

A operação do MPMG

A Operação As Built cumpriu 20 mandados de busca e apreensão contra 14 pessoas e seis empresas investigadas por fraude em licitações, corrupção ativa e passiva e atos de improbidade administrativa. A ação mobilizou quatro promotores de Justiça, cinco delegados, 90 policiais civis e dez auditores da Receita Estadual.​

A Justiça autorizou a quebra de sigilo de dados telefônicos e telemáticos dos investigados, além da extração de dados de dispositivos eletrônicos apreendidos e o acesso a contas e dados armazenados em serviços de computação em nuvem vinculados aos investigados.​

O MPMG atuou por meio da 17ª Promotoria de Justiça de Defesa do Patrimônio Público de Belo Horizonte, em articulação com o Grupo Especial de Promotores de Justiça de Defesa da Probidade Administrativa e do Patrimônio Público e a Polícia Civil de Minas Gerais, com apoio da Receita Estadual.​

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