Envelhecimento da população: do tema do Enem à urgência de políticas que entreguem resultados

Cidadã da terceira idade
Precisamos deixar para trás a ideia de que envelhecer é perder relevância. Quem hoje precisa de apoio é quem construiu nossas cidades, nossas empresas, nossas universidades, nossa cultura. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

No último domingo, milhões de brasileiros debruçaram-se sobre a redação do Enem e foram convidados a refletir sobre o envelhecimento da população e as perspectivas de futuro. O tema não poderia ser mais oportuno, porque deixou de ser hipótese e já molda o cotidiano de famílias, empresas e governos.

Para quem vive a gestão pública por mais de duas décadas, fica claro que não estamos falando de uma tendência distante, estamos lidando com uma transição demográfica que exige reformas do Estado, planejamento rigoroso, prestação de serviços públicos de qualidade e uma nova cultura sobre o que significa envelhecer no Brasil. Envelhecimento não é apenas um fenômeno biológico, é um desafio de cidadania, de urbanismo, de trabalho, de saúde e de proteção social, e pede respostas consistentes, mensuráveis e contínuas.

A primeira barreira é cultural. Ainda associamos velhice à perda, à incapacidade, à improdutividade. Esse preconceito se infiltra no convívio familiar, onde o cuidado recai quase sempre sobre mulheres, normalmente sem reconhecimento financeiro, e se expressa na solidão de quem envelhece isolado. Ele aparece no mercado de trabalho, onde currículos de profissionais maduros recebem menos convites, e também no próprio Estado, quando serviços são fragmentados e pouco acessíveis.

Se não mudarmos o olhar, seguiremos empurrando o idoso para a margem, quando deveríamos colocá-lo no centro do desenho de políticas. A pessoa idosa é sujeito de direitos, produtora de valor, guardiã de saberes. Ao reconhecermos isso, abrimos espaço para autonomia, propósito e participação.

A urbanização que consolidamos ao longo de décadas, focada em carros e longas distâncias, seguirá punindo quem tem mobilidade reduzida. O custo de vida nas cidades, com moradias pequenas e caras, continuará expulsando idosos de bairros onde construíram vínculos. O avanço tecnológico, se não for acompanhado de inclusão digital, ampliará barreiras na relação com bancos, serviços públicos e saúde. E, de forma dolorosa, veremos mais pessoas envelhecendo sozinhas, sem rede de apoio, vulneráveis à negligência e à violência, um quadro que exige busca ativa, proteção social robusta e canais de denúncia e acolhimento que funcionem de verdade.

No mercado de trabalho, o etarismo é um nó que estrangula produtividade e renda. Pesquisas de universidades e organismos multilaterais têm mostrado que profissionais com mais de 50 anos enfrentam maior tempo de recolocação e salários menores, mesmo quando apresentam experiência e qualificação equivalentes. Estudos também apontam que equipes intergeracionais tendem a ter melhor desempenho, desde que a gestão valorize a complementaridade de competências. A resposta pública pode ser objetiva.

Compras governamentais que pontuem políticas de inclusão etária, intermediação de mão de obra com foco sênior integrada ao Sine, trilhas de upskilling (que é o processo de adquirir novas habilidades ou aprimorar as que já se tem) para 50 mais em parceria com Sistema S e universidades abertas, mentoria para empreendedores maduros, revisão de editais e concursos que, por desenho, desqualificam trajetórias longas. É possível criar um selo de diversidade etária, atrelado a metas e a indicadores trimestrais, para orientar cadeias de fornecedores e estimular práticas que funcionam. O resultado esperado é uma menor taxa de rotatividade de pessoal, mais estabilidade, transferência de conhecimento e aumento de arrecadação em plena transição demográfica.

As cidades são o palco do envelhecimento e hoje, em geral, elas expulsam em vez de acolher. Calçadas irregulares, travessias longas, semáforos que fecham rápido, pontos de ônibus sem bancos, falta de banheiros públicos, sinalização confusa, tudo isso transforma pequenas tarefas em maratonas. Podemos começar pelo simples, rotas acessíveis entre bairros e serviços de saúde, rampas padronizadas, lombofaixas completas, tempos semafóricos ajustados, iluminação adequada, zonas 30 em áreas adensadas. Em paralelo, precisamos de corredores de ônibus com prioridade e acessibilidade, de padronização de calçadas com responsabilidade compartilhada e fiscalização efetiva, de parques e centros de convivência perto de onde as pessoas moram.

Há metodologias consolidadas de cidades e comunidades amigas da pessoa idosa, e aderir a elas nos poupa tempo, reduz acidentes e melhora a vida de todos. O programa World Health Organization (OMS) / Pan American Health Organization (OPAS) define que uma “cidade amiga da pessoa idosa” é aquela que adapta serviços, estrutura física e ambiente social para permitir que as pessoas envelheçam com dignidade, autonomia, bem-estar e participação. Ela parte de oito domínios básicos (espaços exteriores e edifícios, transporte, habitação, participação social, respeito e inclusão, trabalho e voluntariado, comunicação e informação, serviços de saúde e apoio) e, a partir deles, surge a estrutura metodológica para que uma cidade ou município implemente ações.

No Brasil, Balneário Camboriú (SC) elaborou um Plano de Ação “Cidade Amiga da Pessoa Idosa” baseado no guia da OMS, com consulta a idosos via grupos focais, identificando transporte coletivo, acessibilidade, habitação e saúde como prioridades. Não é luxo, é política de segurança, mobilidade e saúde pública.

Na saúde, a virada é sair da lógica hospitalocêntrica e fazer da atenção primária a coordenadora do cuidado. Equipes multiprofissionais precisam acompanhar crônicos, revisar polifarmácia, promover vacinação e atividade física, cuidar da saúde bucal, articular reabilitação e assistência social. Protocolos simples salvam vidas e recursos. Reconciliação medicamentosa, telemonitoramento para casos de risco, pós queda com reabilitação rápida, linha de cuidado para demências com apoio a cuidadores, tudo isso diminui internações e preserva capacidade funcional. O financiamento pode premiar resultados, reduzindo internações por condições sensíveis e ampliando cobertura de acompanhamento domiciliar. Unidades básicas precisam ser desenhadas para acolher, com horários ampliados, acessibilidade plena e integração com transporte local. Ao mesmo tempo, é preciso qualificar e cuidar de quem cuida, com capacitação permanente e apoio psicossocial para equipes que lidam com sofrimento e dependência.

Tecnologia e acesso à informação são libertadores quando inclusivos e cruéis quando excludentes. Todo serviço digital público deve ser testado com pessoas idosas antes de ser lançado, com contraste adequado, fontes ampliadas, linguagem clara e jornadas simples. Portais, aplicativos e totens precisam oferecer opção de atendimento assistido e um telefone que realmente atenda. É sobre empatia, também. Programas de letramento digital em bibliotecas, escolas e CRAS podem ensinar desde o uso de aplicativos de saúde e bancos até a proteção contra golpes. Para idosos vulneráveis, teleassistência com botão de emergência e acompanhamento 24 horas salva vidas e dá tranquilidade. Sensores e prontuários eletrônicos integrados só fazem sentido se houver equipe que monitora, visita, liga, orienta e resolve. Transparência também é acesso à informação, painéis públicos de tempo de espera, de consultas realizadas, de qualidade do atendimento, permitem controle social e ajudam a gestão a corrigir rumos.

Há um capítulo que não podemos esconder: a pobreza, a solidão e o abandono. Em muitas cidades, cresce o número de pessoas idosas que vivem sozinhas, com renda baixa e sem rede familiar. O Estatuto da Pessoa Idosa garante prioridade, mas a prioridade precisa sair do papel. O Sistema Único de Assistência Social (SUAS) dispõe de serviços de proteção especial, e cabe a nós, gestores, integrá-los com saúde e habitação. Visita domiciliar regular, centros de convivência com transporte porta a porta, aluguel social, repúblicas do idoso para quem rompeu vínculos, e vagas reguladas em Instituições de Longa Permanência com fiscalização rigorosa e painel público de qualidade.

Uma política municipal de cuidador, com bolsa condicionada à capacitação e ao acompanhamento da rede, reduz internações evitáveis e preserva autonomia. Linhas de denúncia precisam ser conhecidas e acolhedoras, com resposta rápida e articulação com Ministério Público e conselhos. Tudo isso deve entrar no Plano Plurianual, com metas anuais de redução de quedas graves, de reincidência de negligência e de internações por causas evitáveis.

Governança é o que separa intenção de entrega. A experiência mostra que um comitê intersetorial, ligado ao gabinete do prefeito ou do governador, com metas trimestrais e orçamento definido, faz diferença. É ele que alinha saúde, assistência, mobilidade, urbanismo, educação, cultura e trabalho, e que resolve o que não cabe em uma única secretaria. Precisamos de indicadores simples e úteis, proporção de calçadas acessíveis em rotas prioritárias, tempo de espera para consultas de geriatria, número de vagas sênior intermediadas pelo Sine, taxa de reinternação de crônicos, percentual de domicílios conectados por faixa etária.

Precisamos de transparência, audiências públicas acessíveis, conselhos do idoso ativos, escuta qualificada. Precisamos de financiamento responsável, combinando recursos próprios, transferências, fundos do idoso e parcerias bem estruturadas. Cada real investido em prevenção, acessibilidade e inclusão retorna na forma de menos internações, menos acidentes, mais renda, mais equilíbrio previdenciário.

Tudo isso depende de mudança de mentalidade. Precisamos deixar para trás a ideia de que envelhecer é perder relevância. Quem hoje precisa de apoio é quem construiu nossas cidades, nossas empresas, nossas universidades, nossa cultura. A administração pública deve ser ponte, não barreira, deve acolher, incluir e oferecer caminhos para autonomia. O Enem abriu a conversa para uma geração inteira, cabe a nós transformá-la em política pública de Estado, com vontade política de fazer bem feito, responsabilidade no gasto e sensibilidade no atendimento. Quando reconhecemos a pessoa idosa como cidadã plena e organizamos o Estado para entregar serviços que funcionam, ganham as famílias, ganham as empresas, ganha o país.

O futuro que o tema do Enem nos propõe não é distante, ele começa na calçada que arrumamos hoje, na vaga de trabalho que abrimos sem preconceito, no cuidado que integramos perto de casa, na informação clara que oferecemos, e no amparo firme aos mais carentes que envelhecem sozinhos. Envelhecer com dignidade é um projeto coletivo, e a boa gestão tem a obrigação de liderar essa construção.

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