O trem tá é feio e o buraco só aumenta

Por mais que o governador de Minas Gerais insista em repetir que o Estado “prospera”, a vida real da população e dos servidores mineiros conta outra história. Minas atravessa uma crise financeira silenciosa, profunda e persistente. E, como se diz por aqui, o trem tá é feio. Feio com um buraco no meio.

A Operação Rejeito apenas confirmou o que Minas já sabia intuitivamente: décadas de permissividade institucional, fragilidade fiscal e captura regulatória abriram espaço para laranjais e para que mineradoras operassem como se fossem donas do território.

O resultado é visível a olho nu: áreas devastadas, municípios inteiros tensionados por riscos geológicos, comunidades vulneráveis e um passivo ambiental que ninguém consegue medir.

Minas virou exportadora de riqueza bruta e importadora de riscos e danos.

Enquanto isso, compensações insuficientes, licenciamento acelerado e reparações lentas completam o quadro. O minério sai barato e o prejuízo fica caro para os mineiros.

O buraco maior: as finanças do Estado

Se o quadro ambiental já é trágico, o fiscal não fica atrás. A narrativa de competência da atual gestão desmorona diante dos fatos.

A Secretaria de Fazenda foi desmontada, perdendo inteligência fiscal, capacidade técnica e autoridade institucional.

A política tributária se transformou em um labirinto de benefícios fiscais, muitos deles sem comprovação de retorno.

Hoje, algo próximo de um quarto da receita potencial está soterrado em incentivos questionáveis, concedidos sem métricas, sem transparência e sem avaliação de impacto.

E não se trata de contabilidade. Trata-se de prioridades.

Enquanto se exige austeridade de servidores e do cidadão comum, o governo abre mão de arrecadação essencial e empurra Minas para ainda mais longe da sustentabilidade fiscal.

Entre propaganda e realidade

A narrativa da prosperidade não sobrevive a uma ida ao interior, nem a uma conversa com servidores da saúde, da educação ou da Receita Estadual. Não resiste ao acúmulo de dívidas judiciais, aos atrasos históricos na recomposição salarial, ao sucateamento de estruturas essenciais e ao apagamento sistemático de quadros técnicos.

Minas não precisa de slogans. Precisa de liderança, seriedade e coragem para enfrentar interesses poderosos, inclusive aqueles que cavaram o buraco onde o Estado está.

O ponto cego: quando o discurso fiscal não fecha com as contas

Há sinais preocupantes e cada vez mais comentados nos bastidores de que o governo vem administrando as contas públicas de maneira a perpetuar artificialmente a permanência no Regime de Recuperação Fiscal, o RRF.

Não se trata aqui de acusação, mas de indícios que merecem luz, transparência e auditoria independente. Entre esses sinais estão estimativas pouco claras, revisões abruptas de projeções, decisões que ampliam o desequilíbrio em vez de reduzir e um modelo de comunicação que filtra quais números chegam ao debate público.

Se confirmados, tais movimentos apontariam para um deliberado prolongamento da crise, o que interessaria politicamente ao governo, mas prejudicaria o Estado em todas as frentes.

Este editorial abre a porta para uma investigação maior que será apresentada em breve à sociedade mineira.

Minas pode muito. O governo é que tem feito pouco.

Há caminhos, soluções e capacidade técnica dentro do próprio Estado para reconstruir a administração tributária, restaurar a autoridade regulatória sobre a mineração, reorganizar as contas públicas e recuperar a autonomia financeira de Minas.

O que falta não é diagnóstico. Falta vontade política.

Até lá, convém ao governo maneirar na narrativa da “prosperidade”. Porque a Minas real, a do cotidiano, sabe que o trem tá feio. E sabe também que o buraco ambiental, fiscal e institucional só aumenta.

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