O primeiro turno no Chile deixou claro que o país entrou em um novo momento político. Jeannette Jara e José Antonio Kast avançaram à segunda etapa, e não podemos dizer que foi uma surpresa. Era o que apontavam as últimas pesquisas. O que realmente marcou a eleição foi a mudança de prioridades do eleitorado. A mobilização em torno da segurança pública e do controle migratório passou a comandar a conversação nacional.
Esse ambiente foi se consolidando ao longo dos últimos anos. A direita soube explorar em sua narrativa os episódios de violência e fez crescer o debate intenso sobre a fronteira. Foi criada uma correlação direta entre a insegurança e a entrada de estrangeiros no país, transformando o medo cotidiano em tema dominante. Isso abriu caminho para um crescimento rápido da direita e reduziu o campo de manobra da esquerda, mesmo com Jara na frente no primeiro turno.
Mesmo com Jara na primeira colocação, o recado das urnas foi outro: a direita somou muito mais votos do que a esquerda e chega ao segundo turno unificada. O resultado apertado expôs o desgaste do governo e a força do sentimento de insegurança, que empurrou a eleição para um terreno mais conservador.
Um fator de grande relevância neste ciclo eleitoral foi a volta do voto obrigatório. O Chile levou às urnas milhões de pessoas que antes simplesmente não participavam. São eleitores pouco engajados, menos ideológicos e que muitas vezes decidem o voto na última hora. Esse contexto mudou a lógica das campanhas: foi preciso falar com um eleitorado totalmente diferente.
Nos locais de votação isso fica evidente: grande participação, com abstenção consideravelmente menor do que no último ciclo presidencial. Foi perceptível a presença de muitos idosos, filas organizadas, forte presença de apoiadores da candidata governista e uma percepção geral de engajamento.
O resultado mostrou uma disputa apertada no topo e uma surpresa decisiva abaixo dele. Kast chegou muito mais perto de Jara do que se esperava. Franco Parisi, tido por alguns como coadjuvante, ficou em terceiro com desempenho expressivo. Johannes Kaiser e Evelyn Matthei, que chegaram a disputar protagonismo à direita, ficaram mais atrás e rapidamente anunciaram apoio a Kast.
A matemática do segundo turno passa por aí: Jara precisará buscar votos fora da esquerda, enquanto Kast deve herdar uma parcela importante do eleitorado conservador, assumindo um favoritismo. Ele lidera as pesquisas para a segunda etapa.
O governo Boric chega à reta final com uma aprovação ruim, e o sentimento de parte da população chilena é de frustração e medo. A campanha de 2025 é marcada por esse reordenamento: o eleitor quer resposta rápida para problemas urgentes, como a insegurança, e não grandes projetos de transformação. Jara não consegue se distanciar do governo Boric, afinal foi ministra, e tem dificuldade de entrar na pauta da segurança e controle migratório.
Esse movimento fomentado pelo medo da insegurança não se limita ao Chile. A América Latina tem visto o tema ganhar espaço central nas disputas políticas, com experiências que vão da retórica dura ao endurecimento efetivo das políticas públicas. Em graus diferentes, Argentina, Equador, Peru, El Salvador e mesmo o Brasil atravessam esse ambiente de pressão por soluções mais diretas.
Para o Brasil, o caso chileno serve como sinal de alerta do que pode estar por vir. O sentimento de insegurança tem crescido por aqui e tende a influenciar a pauta eleitoral. A diferença está nos contextos e nas instituições, mas o clima emocional, principalmente depois dos acontecimentos no Rio de Janeiro, tem semelhanças: o eleitor quer proteção, estabilidade e capacidade de resposta, enquanto a direita consegue capitalizar as ações que giram em torno desse tema.
O Chile ainda terá um segundo turno intenso, e nenhum cenário está fechado. Mas a mensagem do primeiro turno é clara: o eleitor quer mudança. Jara não conseguiu nem mesmo garantir os votos de quem apoia o governo Boric. Com a segurança ocupando o centro do debate, a direita entra no segundo turno mais conectada ao sentimento da população, muito mais organizada. Kaiser e Matthei apoiaram Kast, e Jara vai enfrentar um cenário muito adverso.
Isso não quer dizer que o Brasil seguirá o mesmo roteiro. Mas a eleição chilena mostra que, quando a segurança domina o humor social, a direita parte em vantagem porque dialoga melhor com esse tipo de demanda. A esquerda, se quiser disputar esse campo, precisará aprender a falar com esse sentimento.