De quem será a vez?

Porque, se o Brasil é grande demais para se perder, Minas é grande o bastante para ajudar a guiá-lo
Foto mostra fila de eleitores em seção de votação
Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil

Dizem que as Minas e os Gerais são a própria síntese do Brasil. E talvez o sejam porque aqui tudo se mistura sem se perder, como se o país, em sua vastidão, tivesse escolhido esse chão de serras, cerrado e montanhas para ensaiar o melhor de si. É um dito que escorre de boca em boca feito lembrança antiga, guardada entre pedras que sabem mais do que revelam.

Nosso estado, quando contemplado com a devida delicadeza, revela-se guardião da consciência política e ética do país, um velho cofre talhado em madeira de lei, onde repousam, lado a lado, a coragem contida e a prudência aprendida. Para provar o que parecia exagero, alguém me pediu nomes. Bastava escolher alguns poucos, até que a história confirmaria a tese sem esforço.

Essa história que conto, começou ali, na poeira dourada do século XVIII, quando Felipe dos Santos, diante dos abusos da Coroa, ousou enfrentar o poder que esmagava a capitania recém-formada. Sua execução, em 1720, pressagiou a Inconfidência como se Minas tivesse anunciado, com mais de meio século de antecedência, que sua vocação seria a de resistir. Ali, entre o Conde de Assumar e o ouro vigiado nas casas de fundição, o espírito mineiro cometeu mais um gesto de rebeldia.

Do Velho Chico ao Ipiranga

Pouco depois, nas margens do São Francisco, outra surpresa: Maria da Cruz, mulher de fibra, comandando motins, enfrentando tributos injustos e governos surdos. Que Minas tenha tido, ainda no século XVIII, uma liderança feminina de tal grandeza, é prova de que essa terra sempre se permitiu o inesperado. Pagou caro por isso: cadeia, confisco, silêncio forçado. Mas a força das mulheres, desde então, não deixou mais de ressoar.

E vieram os inconfidentes – Gonzaga, Cláudio Manuel, Tiradentes – como se Minas guardasse, nas ladeiras de Vila Rica, o laboratório do que seria o Brasil republicano. Não foi apenas a conjura; foi a noção de destino. A ideia de pátria. A coragem de morrer por ela. Cláudio Manuel tombou na sombra de uma detenção na Casa dos Contos; Gonzaga seguiu para o degredo, onde morreu; Tiradentes iluminou para sempre o imaginário nacional. Minas mostrou, de novo, que sua contribuição não é pequena: é fundadora.

Quando a Independência se aproximou, outra mulher emergiu na poeira dos gerais: Joaquina de Pompéu, figura quase mítica, que alterna encantamento e escândalo nas narrativas que a envolveram. Rica, influente, determinada, sustentou cidades inteiras, alimentou os famintos reais e simbólicos. Uma matriarca que atravessou séculos pelo fio da memória popular.

De Diamantina a São João Del Rei

E vieram Bernardo Pereira de Vasconcelos, com sua pena erudita e seu olhar sagaz sobre a capitania; Teófilo Otoni, republicaníssimo, desbravador de sertões e defensor de ferrovias que deveriam costurar o país; João Pinheiro da Silva, cuja morte precoce frustrou um destino presidencial; Afonso Pena, que desenhou Belo Horizonte no traço de Aarão Reis e levou o Brasil a se comunicar por fios de telégrafo, trilhos e coragem administrativa. O século XX amanheceu em Minas com brilho próprio.

É chegada a “Era de Juscelino”, menino lírico de Diamantina que carregava no bolso um país inteiro por fazer. Brasília nasceu dele, mas nasceu também de nosso estado: cidade-sonho que se ergueu como quem abre uma porta no meio do cerrado e anuncia que o futuro, afinal, tem chão.

Quando veio a noite mais longa da República, Minas preparou o retorno do dia. Tancredo, com a serenidade de quem sabe o tamanho da própria história, conduziu o Brasil pela mão. Morreu no dia da Inconfidência, num desses acasos que só Minas compreende. Por aqui, o tempo parece obedecer a mistérios que a razão não alcança. Assim, entre séculos e silêncios, Minas sempre aparece quando as pontes ameaçam ruir. Pacífica, moderada, profunda, nunca indecisa. Terra de serras que se debruçam sobre o mundo como guardiãs discretas. Terra de sínteses: une o que políticas erradas insistem em separar.

Dos porões às urnas de Minas

E agora, de novo, quando as eleições se aproximam e o Brasil procura uma bússola confiável, Minas revisita sua vocação de sempre: fornecer nomes. Nomes vindos do senso de responsabilidade que passa de mão em mão como receita antiga, da capacidade rara de conciliar sem ceder, de liderar sem estrondo, de construir sem deixar ruínas.

Porque, se o Brasil é grande demais para se perder, Minas é grande o bastante para ajudar a guiá-lo. E a pergunta, então, não é se surgirá um novo mineiro maior – Minas não se proclama berço de grandiosidades. 

A questão é outra, simples e inevitável, feita no tom suave das manhãs de neblina: de qual de seus muitos (do sertão, das vertentes, das águas, do ouro) surgirá, desta vez, o nome que a Nação poderá receber?

Leia também:

Juíza manda ação por peculato dos ‘fura-filas’ da vacina para o TJMG

Mais jogos que em 2014 e seleções hospedadas no interior: o plano de Minas para a Copa do Mundo Feminina

Juiz manda secretários de prefeitura mineira devolverem 13º salário considerado ilegal

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse