AngloGold prepara projeto para ressignificar o Centro histórico de Nova Lima

Companhia pretende transformar áreas de antigas minas em espaço multiuso, com moradias, eventos culturais e incentivo à economia
Espaço da AngloGold em Nova Lima
AngloGold Ashanti tem projeto para o Centro de Nova Lima. Foto: Divulação

Há 25 anos, Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) guarda, bem próximo ao Centro da cidade, uma espécie de cápsula do tempo. São as edificações que compunham a área operacional a céu aberto da Mina Grande e da Mina Velha, estruturas subterrâneas que foram exploradas até 2001 pela AngloGold Ashanti. A desativação aconteceu após a exaustão das jazidas.

Agora, a mineradora, em parceria com a Prefeitura de Nova Lima e a construtora Concreto, prepara a transformação do complexo das antigas minas em uma área multiuso, com apartamentos residenciais voltados a famílias de classe média com baixo poder aquisitivo, espaços culturais e preservação ambiental.

Por causa do projeto, batizado de Nova Vila, a prefeitura fará a desapropriação de uma área onde será construída uma avenida. A via, que será construída e mantida pela Concreto, terá dois quilômetros de extensão, cortando de fora a fora o terreno do antigo complexo minerário.

A AngloGold vai construir e gerenciar os espaços culturais e de gastronomia que serão implantados nas estruturas industriais remanescentes das minas. A operação destes equipamentos será feita pelo Instituto AngloGold.

O projeto de pós-mineração para a Mina Velha e para Mina Grande começou a ser desenhado logo após o fechamento das jazidas. Durante quase uma década, a AngloGold mirou o projeto Gold City (Cidade do Ouro, em português). A ideia era transformar a área e um polo da indústria de joias. Por volta do ano de 2009, a mineradora desistiu de tentar viabilizá-lo.

Área de 260 mil metros quadrados fica próximo ao Centro Histórico e terá usos ambiental, cultural, empresarial e de moradia. Foto: AngloGold/Divulgaçõ

Ao mesmo tempo, a área, que estava sob a guarda da vice-presidência Imobiliária da companhia, passou para a vice-presidência de Sustentabilidade. Foi quando a empresa passou a vislumbrar um outro possível uso.

Com o aval da presidência da AngloGold, na África do Sul, a partir de 2019, o projeto Nova Vila começou a ser estruturado.

De acordo com Fernando Cláudio, diretor de Comunicação, Comunidade e Relações Governamentais da mineradora, a cúpula da companhia deu sinal verde à proposta com o objetivo de gerar um legado para AngloGold, sem a obrigatoriedade de retorno financeiro.

Seguindo essa diretriz, a empresa iniciou a busca por parcerias e realizou as consultas públicas para apresentar o projeto à comunidade e recolher sugestões. Nessas consultas, apareceram diversos pedidos, todos incorporados ao projeto. Fernando Cláudio cita os de construção da ciclovia e da quadra de esportes.

Espaços do Nova Vila

  • Centro Esportivo: integrado à natureza, reunirá quadras, academia, pump track, pista de caminhada e áreas de descanso para uso da população. Parte das estruturas históricas será preservada, criando um ambiente que mistura o industrial com a paisagem do vale.
  • Mercado Distrital: reunirá gastronomia, artesanato, arte e programação cultural na antiga Casa dos Compressores. O local manterá parte das máquinas originais como elementos do Museu de Território, enquanto recebe lojas, sobrelojas e uma esplanada para feiras, apresentações e eventos comunitários.
  • Espaço Comercial: reunirá lojas, serviços e pequenos comércios no coração do projeto.
  • Centro Cultural: transformará as antigas áreas de refeitório e vestiários da mina em um local aberto à população, com salas multiuso, auditório. Haverá espaço para oficinas, exposições e apresentações. A intenção é que o local ofereça cursos e atividades que unam arte, cultura e cidadania.
  • Espaço Gastronômico: antigas estruturas da mineração serão convertidas em um polo dedicado à culinária e à convivência, reunindo restaurantes, cafés, bares e cozinhas experimentais que valorizam a produção local e a tradição mineira.
  • Outras áreas culturais: serão instaladas em antigas estruturas da mineração, transformando-as em locais preservação da memória do território. A Mina Grande se tornará um percurso interpretativo integrado ao Museu de Território, com passeio de bondinho que irá revelar as camadas históricas do lugar. Já o antigo Almoxarifado e a Máquina do Shaft abrigarão o Museu da Mineração e o Memorial do Mineiro.
  • Centro Corporativo Nova Vila: funcionará nas antigas estruturas fabris da AngloGold, que serão requalificadas para receber escritórios, coworkings e sedes de empresas.

“Mais do que um projeto urbanístico, o Nova Vila nasce como um espaço democrático e inclusivo, que coloca a vida, a saúde e o bem-estar em primeiro lugar”, afirma Fernando Cláudio. 

O arquiteto nova-limense Glauco Santiago Marques, autor do projeto urbanístico e arquitetônico do Nova Vila, explica que as moradias foram pensadas para atrair os próprios moradores do município.

“A ideia é entregar um imóvel bem construído, com valores a partir de R$ 400 mil, planejado para os novos filhos de Nova Lima, que hoje não têm opção para continuar morando no Centro da cidade”, detalha.

A parte residencial do Nova Vila vai contar com cinco torres de no máximo 10 pavimentos. Oito andares terão apartamentos; os outros dois, estacionamentos.

Serão oito unidades residenciais por andar. Cada moradia terá, aproximadamente, 66 ou 76 metros quadrados, com dois ou três quartos, respectivamente. O Nova Vila também contará com 44 casas de aproximadamente 122 metros quadrados cada.

Ao todo, serão 320 imóveis. Glauco Santiago Marques afirma que, na expectativa da empresa, 90% dos produtos produzidos sejam absorvidos por moradores de Nova Lima.

Além de conduzir a desapropriação, a prefeitura também ficou responsável por enviar, à Câmara Municipal, o projeto de lei da Ocupação Urbana Consorciada (OUC) com as normas de uso e ocupação do solo urbano na área. Normalmente, as OUCs têm o objetivo de ampliar a capacidade de ocupação. No caso da Nova Vila, o que se pretende é restringir o uso.

Fernando Cláudio cita alguns exemplos. Pela lei, poderiam ser construídos 440 mil metros quadrados no terreno. O objetivo da OUC é limitar o tamanho para 120 mil metros quadrados. Nas construções, a área permeável deveria ser de no máximo 104 mil metros quadrados. O que se pretende é elevar essa área para 140 mil metros. A taxa de ocupação, de 60%, deverá ser de no máximo 21%.

Fernando Cláudio pretende, com Operação Urbana Consorciada, que diretrizes do projeto não sejam alteradas com o tempo. Foto: Gláucia Rodrigues/AngloGold/Divulgação

O objetivo de tais alterações é garantir, segundo Fernando Cláudio, que as diretrizes gerais do projeto sejam mantidas mesmo após a transferência das áreas para a Concreto, que, se desejar modificar os limites previamente acordados, terá que recorrer à Câmara Municipal novamente.

O projeto da OUC já está sob análise dos vereadores. Segundo o procurador-geral do Município, Arthur de Araújo Soares, o Legislativo sinalizou que fará uma audiência pública para debater o texto antes de iniciar a tramitação nas comissões técnicas. A prefeitura espera que a proposição seja aprovada no primeiro trimestre de 2026.

Para Arthur Soares, trata-se de uma iniciativa que com potencial de vários problemas na cidade. Um deles é o da ausência de espaços para a expansão do hipercentro de Nova Lima. Sem o projeto, essa expansão só ser feita à custa de desapropriações.

“A iniciativa ressignifica e possibilita a ampliação do centro histórico, criando um novo polo turístico e um novo grande ativo turístico e ambiental para Nova Lima”, afirma.

Contexto histórico

Para promover o fechamento de uma mina, companhias do setor minerário precisam seguir uma regra que exige, como pilar, a recomposição do terreno explorado e a cobertura com vegetação. Em alguns casos, porém, a solução é outra, com a transformação dos espaços em área de uso público.

O Parque das Mangabeiras é um exemplo. Nos ano de 1960, a área era explorada por uma empresa pública – a Ferrobel – pertencente ao município de Belo Horizonte. Em 1979, a estatal foi extinta e, cinco ano depois, em 1984, o parque, com seus 2,4 milhões de metros quadrados devidamente restaurados, foi inaugurado.

Parque das Mangabeiras foi implantado sobre uma antiga área de mineração que era operada pela Prefeitura de Belo Horizonte na Serra do Curral. Foto: PBH/Divulgação

Da Alemanha, vem o exemplo da reabilitação do vale do rio Ruhr, berço da indústria pesada daquele país. O Ruhr era onde estavam as minas de carvão que alimentavam as siderúrgicas instaladas na região. O carvão foi explorado entre 1900 e 1985, quando as jazidas chegaram à exaustão. O resultado foi uma área de 180 hectares abandonada e contaminada.

Em 1991, a prefeitura da cidade de Duisburg, uma das mais afetadas, contratou o arquiteto Peter Latz, que desenvolveu o projeto de um parque de paisagismo industrial no qual as antigas instalações industriais permaneciam, mas vinculadas a um projeto cultural, de recuperação ambiental e esportivo.

Glauco Marques conhece o projeto do Ruhr, mas diz que o da AngloGold tem um diferencial: enquanto as jazidas de carvão estavam na superfície as minas de Nova Lima eram subterrâneas, entrando 2,4 quilômetros solo adentro.

Hoje, até um nível de 200 metros, as cavidades estão tomadas de água, vinda do lençol freático. Para evitar o transbordamento e um possível ônus ambiental, a AngloGold faz o bombeamento permanente.

Glauco explica que o projeto da Vila Nova prevê a visitação à mina. Os turistas vão entrar na estrutura por meio de um corredor de 400 metros de extensão.

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