Em 2025, o Brasil chega ao fim do ano com um paradoxo que deveria constranger qualquer gestor público: enquanto avançamos em tecnologia, produtividade e conectividade, seguimos falhando no básico: garantir que mulheres possam existir sem medo. A violência de gênero não é um assunto periférico, ela é um termômetro de capacidade estatal, de qualidade institucional e de maturidade democrática. Quando uma mulher morre por ser mulher, e quando esse risco se repete com previsibilidade, o problema deixa de ser “caso de polícia” e passa a ser evidência de política pública insuficiente, de justiça lenta, e de uma cultura de permissividade que transforma ameaças em rotina e a rotina em tragédia.
Os dados mais recentes confirmam que a escalada não é retórica. No primeiro semestre de 2025, o Mapa Nacional da Violência de Gênero registrou 718 feminicídios no país, algo próximo de quatro mulheres mortas por dia por razões de gênero. No mesmo período, foram contabilizados 33.999 registros de estupro contra mulheres, uma média de 187 por dia.
E quando olhamos para a tendência consolidada mais recente, o quadro também piora. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública apontou que 2024 teve 1.492 feminicídios, o maior número desde a tipificação do crime em 2015, com aumento em relação a 2023, além de crescimento expressivo nas tentativas. Em outras palavras, o país não está lidando apenas com mortes, está lidando com uma linha de progressão que começa em agressões, passa por ameaças e controles, chega a tentativas e, com frequência, termina em feminicídio, muitas vezes dentro de casa.
São Paulo ilustra bem como o problema se concentra no cotidiano urbano e não apenas em episódios “extremos”. Na capital paulista, dados oficiais de janeiro a outubro já indicavam 53 feminicídios, o maior patamar anual desde 2018, mesmo sem incluir novembro e dezembro. Isso desmonta uma crença perigosa, a de que bastaria “endurecer” em momentos de crise. O que está acontecendo é persistência, é repetição, é previsibilidade, é o Estado chegando tarde.
A violência tem nome e sobrenome
Neste cenário, casos concretos de 2025 funcionam como retratos de uma engrenagem que falha em sequência. Hoje, 26 de dezembro de 2025, está sendo velada em São Paulo Tainara Souza Santos, que morreu após semanas internada, depois de um episódio investigado como tentativa de feminicídio na Marginal Tietê. O caso não choca só pela violência, ele choca porque não é um raio em céu azul, ele se encaixa em um contexto em que ameaças e agressões frequentemente antecedem o desfecho fatal, sem que a rede de proteção consiga interromper a trajetória.
Outro caso emblemático, também no fim de 2025, envolve um servidor da Controladoria Geral da União flagrado por câmeras agredindo uma mulher na frente do filho dela, no Distrito Federal, em episódio que motivou reação pública e medidas administrativas anunciadas pelo governo federal. O impacto desse caso vai além do agressor individual, ele escancara como a violência atravessa camadas sociais, profissões e “reputações”, e como o Estado precisa ser coerente. Quem serve ao público deve estar sujeito à responsabilização rápida e exemplar quando viola direitos básicos.
Ao longo do ano, outras histórias reforçaram o padrão de alerta que se repete em diferentes regiões. Em março, a adolescente Maria Victória Rodrigues dos Santos, grávida, foi encontrada morta em Itaueira, no Piauí, e o caso teve desdobramentos investigativos com forte repercussão. Em fevereiro, o feminicídio da jornalista Vanessa Ricarte, em Campo Grande, ganhou dimensão nacional justamente por envolver busca recente por proteção e por escancarar falhas de fluxo, acolhimento, avaliação de risco e resposta do sistema. Esses casos não são apenas “notícias”, são sinais de risco institucional, quando a vítima pede ajuda e a ajuda não chega com a força, a velocidade e a integração necessárias.
Precisamos de mais gestão do que emoção
É aqui que a discussão precisa sair do improviso emocional e entrar no terreno da gestão pública. O enfrentamento efetivo exige políticas públicas desenhadas como sistema, com metas, orçamento, governança e indicadores — o pilar básico do planejamento. Isso começa com porta de entrada acessível e contínua, delegacias especializadas com funcionamento real em horários críticos, atendimento humanizado e padronizado, e integração com saúde, assistência social, Defensoria, Ministério Público e Judiciário.
Passa por avaliação de risco obrigatória e imediata, porque nem toda denúncia tem o mesmo potencial de escalada, e a política pública precisa tratar risco como urgência, não como burocracia. Inclui abrigamento seguro, apoio psicológico, rede de proteção para crianças, e autonomia econômica, porque a dependência material e o isolamento social são combustíveis do ciclo de violência.
Também exige um salto de qualidade em tecnologia e dados. O próprio Mapa Nacional da Violência de Gênero foi concebido para integrar bases de saúde, justiça, segurança pública e pesquisas, justamente para reduzir a cegueira decisória e iluminar subnotificação e padrões de reincidência. Sem dados integrados e tempestivos, cada órgão trabalha como se estivesse sozinho, e a vítima é empurrada de balcão em balcão, repetindo sua história, perdendo tempo, desistindo, e ficando mais vulnerável.
E há um ponto que precisa ser dito com franqueza, a fragilidade da resposta judicial e a sensação social de impunidade alimentam o problema. Não se trata de defender soluções simplistas, mas de reconhecer gargalos conhecidos, demora na concessão e fiscalização de medidas protetivas, falhas de comunicação entre decisões e sua execução, ausência de monitoramento efetivo do agressor, e morosidade que desorganiza qualquer estratégia de proteção. O caso de Vanessa Ricarte gerou, inclusive, discussão pública sobre protocolos, escolta e fluxos de atendimento, porque uma medida formal, sem logística e sem execução, não protege, apenas registra. Justiça que chega tarde não é justiça neutra, é justiça que participa do risco.
A realidade exige prioridade
O que fazer, então, de modo concreto e com mentalidade de gestor? Primeiro: financiar a rede, com orçamento carimbado, metas pactuadas e monitoramento público. Segundo: integrar atendimento e informação, com fluxo único e interoperabilidade entre polícia, saúde, assistência e Judiciário. Terceiro: elevar a capacidade de resposta rápida, com plantões, equipes móveis, abrigos e transporte seguro para retirada de pertences e mudança de endereço em situações de alto risco. Quarto: fiscalizar medida protetiva como política de segurança, com monitoramento, visitas preventivas, e instrumentos de controle proporcionais ao risco. Quinto: educar e prevenir, com escola, campanhas permanentes, programas com homens autores de violência, e responsabilização social, porque o ciclo quase sempre é visto por alguém antes de virar homicídio.
Ao final, a pergunta que fica não é se a sociedade “se comove”, é se ela decide priorizar. Proteção de mulheres não pode ser pauta sazonal, de datas simbólicas, ou de indignação que dura um fim de semana. Precisa ser compromisso de Estado, e isso significa cobrar planos municipais e estaduais, cobrar execução orçamentária, cobrar metas, cobrar transparência, e cobrar resultados. E significa, desde já, colocar o tema no centro do debate eleitoral de 2026, com propostas claras, porque não é aceitável que campanhas disputem narrativa de eficiência enquanto mulheres seguem morrendo no caminho entre a denúncia e a proteção.
Em 2026, a pergunta obrigatória a cada candidato deve ser direta, qual é o seu plano, com dinheiro, equipe, integração e metas, para interromper o ciclo que transforma agressões em feminicídios?