A Polícia Federal (PF) cumpriu mandado de busca e apreensão nesta quarta-feira (14) na residência de Valdenice Pantaleo de Souza, em Sarzedo, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Ela é acionista e uma das donas da Clínica Mais Médicos, empresa de saúde de Contagem, apontada pela PF e pelo Ministério Público Federal (MPF) como uma das peças do esquema financeiro que levou à prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
As buscas contra Valdenice integram a segunda fase da Operação Compliance Zero, que apura um sistema de emissão de notas comerciais e movimentação de créditos fictícios usados para inflar o patrimônio do banco. A PF suspeita que empresas ligadas à empresária tenham sido utilizadas para dar aparência de regularidade a operações sem lastro real.
Segundo relatório da PF ao qual O Fator teve acesso, a Clínica Mais Médicos emitiu R$ 361 milhões em notas comerciais entre 2021 e abril de 2025, todas adquiridas por um fundo de investimento cujo único cotista é o próprio Banco Master. A operação teria beneficiado diretamente o banqueiro Daniel Vorcaro.
O documento da investigação — que serviu de base para as decisões judiciais da primeira fase da operação, em novembro — aponta que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) verificou que os valores emitidos pela clínica eram “significativamente superiores à sua própria receita bruta”. A constatação levou o órgão a abrir processo administrativo e encaminhar uma representação criminal ao MPF em junho do ano passado.
Para os investigadores, esse mecanismo servia para aumentar artificialmente o capital declarado do Banco Master, mascarando a real situação financeira da instituição.
Nova fase da operação cumpre 42 mandados e bloqueia R$ 5,7 bilhões
A segunda fase da Operação Compliance Zero é resultado da análise de documentos apreendidos em novembro, que permitiu identificar novos indícios de irregularidades financeiras. Ao todo, a PF cumpre 42 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, além de bloqueios de bens estimados em R$ 5,7 bilhões.
Em Minas Gerais, há mandados em Belo Horizonte, Contagem, Nova Lima e Sarzedo. As ordens foram expedidas pelo ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Em São Paulo, a PF realizou buscas na sede do Banco Master e em outras empresas do grupo situadas na Avenida Faria Lima, principal centro financeiro do país. Também foram alvo a Acura Gestora de Recursos, a Sefer Investimentos DTVM, a WNT Gestora de Recursos e a Clínica Mais Médicos S.A.
Entre os investigados estão novamente Daniel Vorcaro, seu pai, irmã, cunhado e um primo, além de executivos e investidores próximos ao grupo. Um deles, Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, foi preso no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, enquanto tentava embarcar para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.
Durante a operação, policiais federais apreenderam dinheiro em espécie, veículos de luxo, joias e relógios importados. As imagens das apreensões foram divulgadas pela corporação.
Esquema bilionário envolveu créditos inexistentes e fundos de fachada
A investigação sobre o Banco Master aponta que entre julho de 2024 e outubro de 2025 o grupo movimentou cerca de R$ 16,7 bilhões com emissão e revenda de créditos falsos. Parte dessas operações foi feita por meio da empresa Tirreno, criada para simular carteiras de crédito consignado inexistentes, revendidas ao Banco de Brasília (BRB) por cerca de R$ 12 bilhões.
O Banco Central identificou movimentações financeiras atípicas de R$ 12,2 bilhões e notificou o MPF, que acionou a PF. As investigações resultaram na prisão de Vorcaro e do diretor do banco, Augusto Ferreira Lima, em novembro. Ambos são réus por gestão fraudulenta, falsidade ideológica, informação falsa ao Banco Central e organização criminosa.
Segundo a PF, Lima criou associações falsas de servidores públicos da Bahia — a Asteba e a Asseba — para simular a origem de R$ 6,7 bilhões em créditos consignados. A Secretaria de Administração da Bahia confirmou que as associações tinham movimentações incompatíveis com os valores declarados, formadas apenas por pequenas contribuições mensais de filiados.