O professor Robert Wald, filho do matemático Abraham Wald, disse a O Fator que o trabalho de seu pai “vai muito além” do viés de sobrevivência, pelo qual ficou famoso na internet.
Nascido em 1902 no Império Austro-Húngaro, na cidade de Cluj (hoje pertencente à Romênia), em uma família de judeus ortodoxos, Abraham Wald obteve doutorado em matemática na Universidade de Viena em 1930. Tornou-se pesquisador do Instituto de Pesquisa do Ciclo Econômico de Viena (fundado por Hayek e Mises), emigrando para os Estados Unidos logo depois da anexação da Áustria pela Alemanha nazista.
Em 1943, durante a II Guerra Mundial, Wald redigiu uma série de oito memorandos sob encomenda do Painel de Matemática Aplicada da Comissão de Pesquisa em Defesa Nacional dos Estados Unidos.
Nesses memorandos desenvolveu métodos para estimar a vulnerabilidade de diferentes partes de aviões militares com base no dano observado nos aviões que retornavam para a base. Os textos, confidenciais por várias décadas, foram publicados em 1980.

Na internet, Abraham Wald ficou famoso por uma lenda, que não corresponde aos fatos. Segundo a história, os militares americanos queriam reforçar as partes mais danificadas nos aviões que retornavam. Wald, então, teria explicados aos militares sobre o viés de sobrevivência. Na verdade, o correto era reforçar as partes que não foram danificadas. Isso porque os aviões que não retornaram – os abatidos – foram atingidos exatamente nas partes que estavam intactas nos aviões sobreviventes. Ou seja, era preciso levar em conta as informações que não podiam ser diretamente observadas.

A palavra “viés”, no entanto, não aparece nos memorandos de Wald. E há uma única orientação sobre blindagem: “Essas e outras conclusões, que podem ser feitas a partir da tabela de vulnerabilidades derivada pelo método de análise da parte VIII, podem ser usadas como guias para localizar blindagem protetora e podem ser usadas para fazer uma previsão da perda estimada de uma missão futura”.
Em 1984, poucos anos depois da publicação dos memorandos de Wald, a revista Journal of the American Statistical Association publicou artigo dos pesquisadores Marc Mangel e Francisco Samaniego sobre a obra de Wald. Novamente a palavra “viés” não aparece.
O viés de sobrevivência, na verdade, já era conhecido pelos militares americanos.
No entanto, os pesquisadores concluem que “o tratamento dado por Wald a esse problema [capacidade de sobrevivência de aeronaves] foi definitivo, uma vez que, por meio [do nosso] reexame, pudemos identificar o caráter ótimo dos estimadores de Wald e explicar por que o tratamento de problemas mais gerais é impossível com os dados que Wald tinha à sua disposição”.
“Obviamente, o “viés de sobrevivência” desempenha implicitamente um papel importante na análise”, disse a O Fator, em entrevista por e-mail, Robert Wald, filho de Abraham Wald e professor de Física na Universidade de Chicago. “Mas o trabalho vai muito além disso (e é totalmente quantitativo)”.
Abraham Wald morreu em um desastre aéreo na Índia, em 1950, quando Robert tinha apenas três anos. “Como a obra permaneceu confidencial até por volta de 1980, eu desconhecia sua existência até que ela começou a ser discutida na mídia”, disse o professor.
“É uma tristeza que outras pessoas estejam simplificando demais e deturpando o trabalho que meu pai realizou. Mas não vejo nada que eu possa fazer a respeito, a não ser indicar seus relatórios originais e a revisão de seus métodos matemáticos”, acrescentou.
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