Calor extremo pode ter matado 45 pessoas em Belo Horizonte no final do ano

Número de mortes entre 26 e 29 de dezembro foi 23% maior do que dos dias 17 a 21, quando temperatura esteve dentro da média
Servidores da Prefeitura de BH entregam copo com água a pessoa em situação de rua
Durante a onda de calor do último final do ano, Prefeitura de Belo Horizonte distribuiu água aos moradores em situação de rua. Foto: Rodrigo Clemente/PBH

Quarenta e cinco pessoas podem ter morrido em Belo Horizonte por causa do calor externo entre 26 e 29 de dezembro do ano passado, quando uma onda de altas temperaturas atingiu o Sudeste. Nesses dias, os termômetros chegaram a marcar 35,5 °C no domingo (28). Nas outras datas, as temperaturas estiveram entre 35 °C e 32,5 °C.

Os 45 possíveis óbitos relacionados ao calor correspondem à diferença entre o número total de mortes registrado de 26 a 29 de dezembro (249) e as 204 baixas registradas na semana anterior, dos dias 17 a 21, quando as temperaturas se mantiveram dentro da média para dezembro — de 25 °C a 27 °C.

Para chegar aos dados utilizados nesta reportagem, O Fator se baseou na mesma metodologia utilizada por pesquisadores que estudam os efeitos do calor no corpo humano: comparar o número de mortes em épocas de temperatura dentro da média com o número de mortes em um período de temperaturas extremas.

As estatísticas sobre o total de óbitos na capital mineira foram fornecidas à reportagem pelo Sindicato dos Oficiais de Registro Civil de Minas Gerais (Recivil). A entidade chama a atenção para o fato de que o número de falecimentos pode ter seguido em patamar elevado nos dias subsequentes ao da onda de calor porque, pela lei, a oficialização de uma morte tem de ser feita em até 10 dias após a ocorrência.

Corpos sobrecarregados

As mortes relacionadas às altas temperaturas acontecem porque o calor causa uma sobrecarga no sistema de resfriamento do corpo, com a dilatação dos vasos sanguíneos, a disfunção do Sistema Nervoso Central e a falência de órgãos vitais, como rins, fígado, pulmões e coração.

Um dos estudos que compara as estatísticas de óbitos de um período de altas temperaturas com os dados dos dias anteriores ao início de uma onda de calor foi realizado por 12 pesquisadores brasileiros e portugueses a partir do cruzamento de informações sobre temperaturas e número de óbitos em cidades brasileiras de 2000 a 2018. O material leva em consideração dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e do DataSUS.

A pesquisa foi realizada nos 14 colares metropolitanos mais populosas do país, entre as quais a Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). O estudo apontou que, na RMBH, 3.263 mortes ocorridas entre 2000 e 2018 se encaixam no critério que baseou o levantamento.

De acordo com o estudo, a média diária de mortes por calor excessivo na RMBH passou de 1,06 na década de 1970 para 1,89 no período pesquisado. Os maiores valores absolutos foram registrados em São Paulo (14.850) e no Rio de Janeiro (9.641).

Ainda sem Plano de Contingência

A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) possui, desde o ano passado, um Protocolo de Calor. De acordo com o documento, as altas temperaturas do final de dezembro constituíram um evento climático de Nível 3, o penúltimo na escala, definido como “Onda de Calor Intensa e com Alto Risco para a Saúde Humana”.

Este estágio ocorre quando a temperatura máxima permanece entre 34,6 ºC e 35,8 ºC por três dias consecutivos. Assim, na última semana de dezembro de 2025, por muito pouco – apenas três décimos de grau centígrado –, Belo Horizonte não chegou ao nível máximo de alerta de calor, definido pelo Protocolo como “Onda de Calor Extrema e de Risco Muito Alto para a Saúde Humana”.

O Protocolo de Calor tem caráter orientativo e não funciona como norma impositiva, de cumprimento obrigatório pelo poder público e pela iniciativa privada. Para que isso ocorra, o documento precisa ser transformado em um Plano de Contingência de Calor.

Apenas com base no Protocolo, a Prefeitura de Belo Horizonte não tem o poder legal de cancelar eventos ou determinar que pessoas que realizam trabalhos ao ar livre sejam dispensadas.

O Fator consultou a Prefeitura de Belo Horizonte sobre os números de mortes ocorridas nos dois períodos de dezembro. O Executivo municipal não quis comentar.

A prefeitura informou ainda que o Plano de Contingência para o Calor, voltado à pronta resposta integrada do Município, está em construção. O documento envolve diversas áreas de prestação de serviços públicos, incluindo a Secretaria Municipal de Saúde (SMSA), a Companhia Urbanizadora de Belo Horizonte (Urbel), a Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica (FPMZ) e a Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (SMASDH)

Rio de Janeiro saiu na frente

No controle dos efeitos do calor sobre a população, o pioneirismo no Brasil coube à cidade do Rio de Janeiro, que, desde junho de 2024, já tem um Protocolo de Calor de caráter normativo. O texto foi desenvolvido em uma parceria entre a prefeitura, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Ministério da Saúde.

A implementação do Protocolo foi determinada em novembro de 2023 pelo prefeito Eduardo Paes (PSD) após um acontecimento trágico: a morte da estudante Ana Clara Benevides Machado, de 23 anos, que começou a passar mal enquanto aguardava, no Estádio Nilton Santos, o show da cantora norte-americana Taylor Swift.

Calor extremo foi registrado no dia do show da cantora Taylor Swift e fez a Prefeitura do Rio implementar o Protocolo de Calor, que entraria em vigor oito meses depois, em junho de 2024 Foto: Maria Eloisa/Taylor Swift/Divulgação

Ana Clara foi socorrida, mas acabou falecendo no final da noite daquele mesmo dia, no hospital onde estava internada. Oito meses depois, o Plano de Contingência do Calor já estava vigente.

Na capital fluminense, o Plano está estruturado em cinco níveis. Nos três primeiros estágios, o foco é orientar a população sobre os cuidados que se deve ter em relação às altas temperaturas. Os níveis 4 e 5 são mais rigorosos e incluem medidas como a proibição de eventos e a dispensa de pessoas que trabalham expostas ao sol. O cumprimento das medidas é obrigatório. Se o documento estivesse valendo à época do show de Taylor Swift, a cidade teria enfrentado um dia de nível 5.

Secretário de Saúde do Rio, o médico sanitarista Daniel Soranz afirma que, após a implantação do Protocolo, ocorreu uma redução do número de mortes causadas por calor. Apesar disso, Soranz não consegue precisar até que ponto o Protocolo contribuiu para a queda, uma vez que, após o início da vigência das regras, a cidade também experimentou uma redução nas temperaturas.

Segundo Soranz, o Protocolo de Calor é importante porque contribuiu para a melhoria da coleta de informações e para o aumento da atenção do poder público sobre o assunto, que antes, segundo o secretário de saúde, era naturalizado.

“Com a quantidade de dados que a gente tem hoje, é possível proteger melhor a nossa população de vários efeitos climáticos. E o calor é um deles”, pontua.

Daniel Soranz defende que todo município tenha seu Protocolo de Calor. 

“Se a gente está tendo uma mudança dos padrões climáticos, é óbvio que nossa atitude em relação a isso também precisa mudar”, reforça.

Daniel Soranz, secretário de Saúde do município do Rio de Janeiro, defende que toda cidade do país tenha seu Protocolo de Calor. Foto: Tânia Rego/Agência Brasil

Europeus já colhem os resultados do cuidado

No Brasil, a preocupação com os efeitos dos eventos climáticos extremos está centrada nos temporais e na escassez de chuvas – as secas. Mas, na Europa, o calor extremo já entrou na lista de prioridades dos gestores municipais e nacionais há bem mais tempo do que no Brasil. 

No Velho Continente, assim como os furacões, as ondas de calor costumam receber um nome. Dessa forma, sempre que um período de alta nos termômetros assola os europeus, o número de mortes causado pelo fenômeno surge mais rapidamente. 

Mapa da Europa com as temperaturas de um dia de calor extremo no verão. Das 34 cidades europeias cuja temperatura foi mostrada, a maioria estava com temperatura superior a 30ºC. Reprodução Weather&Radar

O resultado dessa atenção foi uma redução progressiva do número de óbitos causadas pelo calor ao longos dos últimos anos, conforme mostra reportagem publicada pelo site Observatório do Clima, com base em estudo realizado por uma equipe de cientistas liderada por Elisa Gallo, do Barcelona Institute for Global Health (ISGlobal). A pesquisa foi publicada pela periódico científico Nature Medicine.

Os pesquisadores analisaram os registros de mortes na base do Escritório de Estatísticas Europeu (Eurostat) para 35 países. A conclusão foi que, entre 29 de maio e 1º de outubro de 2023, 47.312 mortes foram induzidas pelo calor.

Segundo o artigo, a vulnerabilidade dos países europeus ao calor diminuiu progressivamente ao longo dos anos, graças à adoção de medidas de adaptação climática. 

Para chegar a essa conclusão, os cientistas estimaram a relação entre temperaturas e mortes causadas por calor para os períodos de 2000 a 2004, 2005 a 2009, 2010 a 2014 e 2015 a 2019.

Os responsáveis pelo estudo constataram que, caso as temperaturas de 2023 tivessem ocorrido entre 2000 e 2004, as mortes por calor chegariam a mais de 85 mil, número 80,8% maior do que o estimado para 2023. 

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