Em minhas viagens noturnas, essas que a insônia insiste em me oferecer, vez ou outra atravesso os séculos. Não por nostalgia gratuita, mas por uma curiosidade que pede escuta. Numa dessas madrugadas, mergulhei na penumbra dos séculos XVIII e XIX e encontrei uma menina que se fez mulher maior do que o seu tempo. Diante dela, a frase do cinema antigo me ocorreu, quase inevitável, como paráfrase respeitosa: Nunca houve uma mulher como Joaquina.
Não, Joaquina não teve o glamour ficcional de Gilda, eternizada por Rita Hayworth em 1946. Mas a sentença se encaixa com precisão na mulher que se ergueu entre montanhas e vales de Minas, num território onde as conquistas eram duras, silenciosas e raramente destinadas às mulheres.
Ao ler Brasil no Espelho, de Felipe Nunes, somos convidados a encarar o país sem retoques, sem indulgências fáceis nem julgamentos apressados. O Brasil que se revela ali é feito de contradições, heranças difíceis, escolhas moldadas pelas circunstâncias históricas. Joaquina do Pompéu é, talvez, um desses espelhos incômodos: refletir sua trajetória exige maturidade histórica, não o conforto das simplificações morais do presente.
Sem culpa pelo passado
É fácil, a partir do agora, criticar o escravismo, a acumulação de terras, os modelos de empreendimento de seu tempo. Difícil e intelectualmente honesto, é compreender as condicionantes históricas de uma mulher que viveu, produziu e prosperou sem que sobre ela recaísse, à época, qualquer acusação comprovada. Sacrificar Joaquina no altar político da contemporaneidade talvez diga mais sobre nossas inseguranças atuais do que sobre sua biografia.
Ser mulher nascida em Mariana, em 1752, já era desafio suficiente. Quinta entre nove filhos do advogado português Jorge de Abreu Castelo Branco, natural de Viseu, e de Jacinta Tereza da Silva, açoriana da ilha de Faial, Joaquina perdeu a mãe aos dez anos. Aos doze, em 1764, casou-se com o Capitão Inácio de Oliveira Campos, trinta anos mais velho, na distante Pitangui. Quando as distâncias se venciam a cavalo e a infância terminava cedo demais. Era uma vida de responsabilidades impostas, não escolhidas.
Da Fazenda Lavapés, arrendada no início do casamento, nasceu um império rural. Enquanto o marido cumpria as funções de Capitão-Mor da Guarda, ausente por longos períodos, mantendo a ordem nas vilas, caçando, capturando bandidos e escravizados fugidos, Joaquina assumia a administração das terras e dos negócios. Em 1784, já na Fazenda Pompéu, adquirida de Manuel Gomes da Cruz, consolidou sua fama. Mandou erguer um casarão de dois andares, com 79 quartos, símbolo material de sua força e visão. O edifício, lamentavelmente, foi demolido em 1954, restando apenas os registros preservados pelo Instituto Histórico e Geográfico de Pompéu, sob a dedicação do notável Hugo de Castro Machado.
À frente de seu século
A vida rural que levava não dispensava hábitos urbanos. Transformou paisagens, criou gado, abasteceu vilas de Minas Gerais e do Rio de Janeiro. Administrou com severidade, multiplicou patrimônio, organizou produção e comércio. Tudo isso já ocuparia uma existência inteira. Mas Joaquina foi além.
Manteve relações políticas com governantes e com a família real portuguesa. Foi protagonista na transformação do centro-oeste mineiro em grande polo agropecuário. Com a decadência do ouro, soube enxergar a oportunidade: o rearranjo da economia mineira, a redistribuição demográfica, a chegada da Corte portuguesa ao Rio de Janeiro, tudo conspirava a favor de quem não se acomodava. Joaquina não se acomodou.
A imposição mais dura veio em 1795, quando o marido adoeceu e permaneceu inválido por nove anos, até sua morte. Entre os 43 e os 52 anos, Joaquina se definiu como personagem histórica. Cercada por versões extremadas: ora quase santa, profundamente religiosa, zelosa do bem-estar dos escravizados; ora figura cruel, acusada de obscenidades jamais comprovadas, o que a documentação permite ver é algo mais raro: liderança excepcional, capacidade de realização e transformação.
Que mulher!
Recebeu em suas terras viajantes e estrangeiros, como Eschwege e Freyreiss. Foi produtora incansável e negociadora firme. Abasteceu o Rio de Janeiro, com toda a Corte portuguesa, que para lá se mudou em 1808, enviando milhares de cabeças de gado, além de víveres diversos. Foi, como poucas, senhora do sertão, tanto quanto Maria da Cruz, líder da revolta de 1736.
Enquanto, na Europa, Olympe de Gouges e Mary Wollstonecraft escreviam, em 1791 e 1792, a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã e as Reivindicações dos Direitos das Mulheres, Joaquina — sem jamais ter lido tais textos — realizava, na prática, aquilo que além-mar ainda era apenas projeto intelectual. Foi mulher do futuro, não do seu tempo.
Joaquina Bernarda da Silva Abreu Castelo Branco, a Dona Joaquina do Pompéu, deixou vasta descendência com o Capitão Inácio de Oliveira Campos. Entre seus consanguíneos estão nomes fundamentais da história mineira e brasileira: Martinho Álvares da Silva Campos, Benedito Valadares, Afonso Arinos de Mello Franco, José de Magalhães Pinto, Francisco Campos, Gustavo Capanema, Roberto Campos, Dom Geraldo de Proença Sigaud, Olegário Dias Maciel, Carlos Eloy Carvalho Guimarães, Alfredo Campos, José Afonso da Silva, Ariosvaldo de Campos Pires.
Legado eterno
Morreu em 7 de dezembro de 1824, com o ideal de independência já cumprido, deixando uma fortuna incalculável. Suas onze fazendas abrangiam os atuais municípios de Abaeté, Dores do Indaiá, Bom Despacho, Pitangui, Pompéu, Pequi, Papagaios, Maravilhas e Martinho Campos. Mandou mais do que qualquer homem de sua época.
No espelho em que o Brasil hoje se enxerga, como propõe Felipe Nunes, Joaquina permanece. Não como figura a ser julgada com régua moral anacrônica, mas como herança complexa de um país que se fez entre contradições. Divisora entre a barbárie e a civilização, venceu o seu tempo, impôs-se à memória coletiva e só foi derrotada pela morte.
Ensinou Darcy Ribeiro que o Brasil não fracassou, apenas ainda está em processo de construção. Passo a passo, compreendemos que a história não é tribunal, mas travessia, marcada por dilemas, tensões e escolhas imperfeitas, semelhantes às que hoje enfrentamos e que amanhã também serão revisitadas. Joaquina foi filha de um tempo áspero, assim como nós somos forjados por este nosso tempo em ebulição. Reconhecer isso não é absolver nem condenar, é amadurecer como povo. É entender que o Brasil é inacabado, mas promissor, fiel à sua vocação de reinventar-se e seguir adiante.