O uso estratégico da enganação no poder: a mentira que venceu

Do ponto de vista clássico da ética política, a mentira é um vício. Foto: Freepick

A trajetória política de Luiz Inácio Lula da Silva constitui um dos fenômenos mais singulares da história republicana brasileira. Poucos líderes demonstraram tamanha capacidade de adaptação discursiva, sobrevivência institucional e ressignificação pública ao longo de décadas marcadas por escândalos, crises econômicas e mudanças profundas no cenário internacional. Essa longevidade não pode ser explicada apenas por fatores estruturais ou conjunturais; ela exige a análise de um elemento central: o domínio sofisticado da narrativa política, mesmo quando dissociada da verdade factual.

Lula construiu uma persona pública marcada por uma plasticidade rara. Em diferentes contextos, apresentou-se como sindicalista combativo, estadista conciliador, vítima de perseguição judicial, fiador da estabilidade institucional ou porta-voz exclusivo dos pobres. Essa capacidade camaleônica não se apoia na coerência programática, mas na eficácia emocional do discurso. Trata-se de uma retórica orientada menos pela precisão conceitual e mais pela identificação simbólica, mobilizando sentimentos de pertencimento, ressentimento e esperança difusa.

Do ponto de vista clássico da ética política, a mentira é um vício. No entanto, a história demonstra que, enquanto técnica, ela pode operar como instrumento de poder altamente eficiente. O lulismo parece ter elevado esse expediente a uma forma de cultura política: a relativização sistemática dos fatos, a substituição de evidências por narrativas morais e a constante inversão de responsabilidades. Nesse modelo, a verdade deixa de ser um valor em si e passa a ser apenas um recurso retórico entre outros.

Essa lógica contribuiu para a formação de uma subcultura nacional baseada na vitimização permanente, na exaltação da ascensão sem exigência proporcional de mérito intelectual ou laboral e na tolerância, quando não admiração, por práticas informais, oportunistas ou francamente ilícitas, desde que justificadas por uma suposta causa social maior. O êxito passa a ser medido menos pelo esforço produtivo e mais pela capacidade de navegar estruturas estatais, capturar rendas e manipular discursos identitários.

No campo educacional, essa degradação simbólica produziu efeitos visíveis. Universidades públicas, que deveriam ser centros de excelência intelectual e científica, tornaram-se progressivamente espaços de militância ideológica e ativismo performático, frequentemente desconectados da produção rigorosa de conhecimento. O país, que já figurou como promessa emergente em áreas estratégicas da ciência e da tecnologia, hoje apresenta estagnação em indicadores de inovação, baixa produtividade acadêmica relevante e uma crescente escassez de mão de obra qualificada e efetivamente disposta a enfrentar as exigências do trabalho técnico e intelectual.

Os programas de transferência de renda, por sua vez, representam um exemplo eloquente da deformação de objetivos sociais. Concebidos originalmente como instrumentos transitórios de combate à pobreza extrema e promoção da autonomia, foram gradualmente incorporados a uma lógica de dependência política. Em vez de emancipar economicamente, passaram a funcionar como mecanismos de fidelização eleitoral, reforçando relações assimétricas entre Estado e cidadãos e desestimulando a mobilidade social sustentada pelo trabalho e pela qualificação.

Paralelamente, observou-se um processo contínuo de aparelhamento das instituições republicanas e de construção de uma narrativa binária que divide o país entre “defensores do bem” e “inimigos do povo”. Essa simplificação moral, amplificada por setores da grande mídia frequentemente alinhados por conveniência econômica ou ideológica, empobreceu o debate público e enfraqueceu os freios institucionais necessários a uma democracia madura.

É particularmente revelador que, apesar de o Partido dos Trabalhadores ter exercido o poder federal por grande parte das últimas duas décadas, o Brasil ainda exiba indicadores sociais constrangedores em educação básica, saneamento, segurança pública e produtividade econômica. Ainda assim, o principal líder da esquerda brasileira mantém a capacidade de transferir responsabilidades a adversários circunstanciais e de se apresentar como guardião exclusivo dos pobres e desvalidos. Na prática, seus governos também sustentaram alianças com segmentos da elite econômica mais asquerosa: banqueiros envolvidos em escândalos, artistas beneficiados por mecanismos opacos de financiamento público e grandes conglomerados empresariais irrigados por crédito subsidiado de bancos estatais.

Nesse contexto, a mentira deixa de ser um desvio ocasional e passa a operar como um sistema cultural. Contrariando o adágio popular de que “a mentira tem perna curta”, a experiência brasileira recente sugere que, quando bem administrada, ela pode produzir dividendos políticos duradouros. Isso não implica romantizar a trapaça, mas reconhecer, com pragmatismo, que o manejo profissional da distorção da realidade pode render êxitos pessoais e políticos significativos, especialmente em sociedades onde o debate público é emocionalmente capturado e institucionalmente fragilizado.

A compreensão desse fenômeno é essencial não para absolver seus protagonistas, mas para que se possa superá-lo. Afinal, democracias não colapsam apenas pela força bruta, mas também pela erosão silenciosa da verdade como valor público.

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