Lideranças do Novo em Minas pedem à direção nacional troca no comando do partido no estado

Carta com 21 assinaturas atribui ao Diretório Estadual a perda de 390 mil votos para deputado federal desde 2018
A convenção do Novo de Minas Gerais realizada em abril deste ano. Foto: Divulgação/Novo

Vinte e uma lideranças municipais do Novo em Minas Gerais, entre elas seis vereadores em exercício, enviaram ao presidente nacional do partido, Eduardo Ribeiro, uma carta em que pedem a reestruturação do diretório estadual e a entrega do comando a “lideranças independentes”.

No documento, assinado eletronicamente nos dias 8 e 9 de outubro, o grupo responsabiliza a direção estadual pela queda da votação do Novo em Minas, que passou de 461.859 votos para deputado federal em 2018 para 71.867 em 2026, e pela saída de quadros do partido, caso do governador Mateus Simões, que se filiou ao PSD para disputar o pleito deste ano.

Segundo os signatários, a direção estadual, liderada pelo atual presidente Christopher Laguna, “subordinou as decisões do partido ao projeto de candidatura de Simões ao Palácio Tiradentes”.

A carta afirma que, até a filiação de Simões ao PSD, a direção estadual negava a possibilidade de saída. As lideranças municipais, segundo o texto, “souberam da mudança pela imprensa, sem reunião ou comunicado do diretório”.

Nos meses seguintes, entre março e abril de 2026, deixaram o partido nomes cotados para a chapa de deputado federal. O documento cita Gleidson Azevedo, ex-prefeito de Divinópolis eleito pelo Novo, que obteve 126.248 votos para deputado federal pelo Republicanos; Rafhael de Paulo, candidato a prefeito de Unaí em 2024, que teve cerca de 38 mil votos para deputado estadual pelo PL; e Juninho Sinonô, candidato a prefeito de Sete Lagoas em 2024, que concorreu a deputado estadual pelo Republicanos, além de outros.

O grupo diz, na carta, que o diretório manteve o apoio a Simões em troca da indicação do vice na chapa. Em 1º de junho, Romeu Zema declarou à imprensa que o Novo ocuparia o posto. Em 6 de agosto, a chapa anunciou Danilo de Castro, do União Brasil.

A carta também trata da saída de Luís Eduardo Falcão (Republicanos), reeleito prefeito de Patos de Minas com mais de 85% dos votos e presidente da Associação Mineira de Municípios (AMM). Segundo os signatários, a direção estadual não atuou para mantê-lo no partido. Falcão foi eleito vice-governador em 2026 na chapa de Cleitinho, do Republicanos.

O presidente do Novo em Minas, Christopher Laguna, afirmou a O Fator que a carta não chegou oficialmente a ele. “Inclusive, essa carta é direcionada ao presidente nacional. Ela não é a mim”, disse. Laguna questionou a representatividade do grupo: “Nós temos 300 municípios e temos 20 assinaturas”.

O dirigente afirmou que o partido é democrático e que a manifestação é um direito dos filiados. “Não temos como agradar todo mundo trabalhando”, disse. Segundo Laguna, Minas responde por 30% dos mandatos do Novo no país. Ele citou os dois mandatos de Romeu Zema como governador e afirmou que o partido tem hoje no estado 95 vereadores, dois deputados estaduais, sete prefeitos e 11 vice-prefeitos, e que contribuiu para que o Novo superasse a cláusula de barreira.

De 2022 a 2024

Os autores afirmam que o desgaste interno começou em 2022. Naquele ano, Zema foi reeleito no primeiro turno com 6.094.136 votos, mas o Novo não elegeu deputados federais em Minas.

Segundo a carta, o governo apoiou candidatos de PP, Solidariedade, Podemos e Avante, além de Marcelo Aro (PP) para o Senado, sem priorizar os candidatos do próprio partido.

Nas eleições municipais de 2024, o Novo lançou candidaturas em mais de cem cidades e elegeu 94 vereadores, nove prefeitos e 11 vice-prefeitos. Os signatários afirmam que a expansão ocorreu sem planejamento, que parte dos recursos foi destinada a despesas jurídicas e contábeis e que os eleitos não apoiaram os candidatos do partido em 2026. Parte dos vereadores, segundo o texto, ficou presa a acordos com prefeitos de outras siglas.

A carta lista casos em que a direção estadual teria contrariado os diretórios locais. Em Uberaba, o partido teria sido obrigado a se coligar com a então prefeita, a quem a base fazia oposição. Em Araxá, o diretório estadual teria vetado candidatura própria. Em Patrocínio, Gustavo Brasileiro, que teve cerca de 24 mil votos para deputado estadual em 2022, deixou o Novo enquanto Zema e Simões apoiavam o grupo adversário, migrou para o Republicanos e venceu a eleição municipal.

Além da reestruturação do diretório, o grupo pede mais representação do interior na direção estadual, autonomia para os diretórios municipais e a preparação antecipada de candidaturas próprias a vereador, prefeito e deputado.

Quem assina

Assinam a carta os vereadores Wenderson Arlei (Itaúna), Rian Pereira (Nova Era), Paulo Henrique Caixeta (Patos de Minas), João Alfredo Góes (Unaí), Alexandre Souza (Santa Rita do Sapucaí) e Valteir Geraldo (Crucilândia). Wenderson e Rian disputaram vagas de deputado estadual em 2026, com 10.650 e 4.715 votos, respectivamente.

Também assinam Pither Freitas, de Iturama, candidato a deputado estadual em 2026, com 6.738 votos; a ex-vereadora Carol Coelho (Lavras); os líderes regionais Aloísio Freitas e Márcia Pinheiro, do Triângulo Sul, e Diego Suzano, ex-líder no Norte de Minas; Richard Maciel, ex-líder do partido em Uberaba; Cintia Gonçalves Barbosa, fundadora do Novo em Uberlândia; Mário José de Sousa Júnior (Uberlândia); Flavio Mattos (Juiz de Fora); Professor Jair (Monte Carmelo); Marcos Wenceslau e Rafael Becho (Lagoa Santa); Roberto de Souza Nunes e Rodrigo (Pedro Leopoldo); e Bruno Barcelos de Sousa (Crucilândia).

Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília, e pela Itatiaia. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.

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