A cidade de Uberaba, no Triângulo Mineiro, vai ser o tema do desfile de uma escola de samba de São Paulo (SP) no carnaval do ano que vem. O acordo entre a prefeitura do município e a Tom Maior, que participa do Grupo Especial da festa, já está fechado. O médium Chico Xavier, símbolo da região, será um dos fios condutores da história em forma de samba, carros alegóricos e fantasias.
Segundo apurou O Fator, partiu do Executivo municipal de Uberaba a ideia de “oferecer” a cidade como enredo às agremiações paulistanas. O “match” com a Tom Maior, selado após diversas reuniões entre as partes, começou a ser construído ainda na campanha eleitoral do ano passado, quando aliados da prefeita reeleita Elisa Araújo (PSD) passaram a aventar a possibilidade de mergulhar no mundo carnavalesco como forma de divulgar a cidade.
A ideia de emplacar Uberaba como enredo no Sambódromo do Anhembi foi dada por um profissional paulista que atuava na campanha de Elisa. Com a reeleição assegurada, os debates sobre o assunto ganharam corpo ainda em dezembro do ano passado. Já neste ano, o município começou a prospectar escolas de samba de São Paulo a fim de oferecer o enredo.
“Em janeiro, fizemos uma imersão em São Paulo visitando barracões para entender como funciona. Estávamos atrás de uma escola que tivesse estabilidade, segurança e perfil de integridade. Precisávamos encontrar a escola certa, que comprasse a história de Uberaba”, diz, a O Fator, o secretário de Desenvolvimento Econômico de Uberaba, Celso Neto, que participou das tratativas.
Segundo Neto, embora interlocutores da prefeitura tenham conversado com outras escolas, a Tom Maior foi a única que recebeu, em termos formais, uma proposta de enredo. O desfile, inclusive, já tem título: “Chico Xavier — Nas entrelinhas da alma, as raízes do céu em Uberaba”.
Integrantes da Tom Maior, como Mestre Carlão, presidente, e Flávio Campello, carnavalesco chegaram a viajar a Uberaba a fim de colher informações sobre a cidade antes da batida de martelo sobre um enredo a respeito do município.
“Eles vieram para cá, visitaram locais tradicionais e conversaram com pessoas importantes, em off, sem revelar o motivo de estarem aqui”, conta o secretário.
Dos dinossauros a Chico Xavier
Além de Chico Xavier, o desfile sobre Uberaba vai passear por temas como a relação da cidade com o rebanho zebu, uma das principais atividades econômicas locais. O pontapé inicial, entretanto, mostrará o surgimento da cidade a partir da pré-história, com os dinossauros que habitaram o território que, hoje, configura o município. Depois, em um salto temporal, será a vez de falar dos indígenas.
De acordo com Celso Neto, embora haja outros fios condutores, Chico Xavier será o narrador da história que o desfile contará.
“É como se ele tivesse contando a história de Uberaba sob o olhar dele. Precisávamos de um narrador, e não podia ser outro que não Chico”, aponta.
O médium, aliás, ganhará uma homenagem no encerramento da apresentação da Tom Maior. Antes, a escola apresentará alegorias falando sobre temas como o desenvolvimento e a industrialização da cidade.
Embora a prefeitura tenha sido a responsável por selar o acordo com a Tom Maior, o secretário de Desenvolvimento Econômico garante que o erário municipal não vai financiar o desfile. Além da verba repassada pela Prefeitura de São Paulo, a apresentação será custeada por patrocínios captados junto a empresas uberabenses.
Ainda conforme Neto, a Lei Rouanet e o ICMS Cultural poderão ser acionados por companhias locais interessadas na divulgação.
Incentivo a compositores
O samba de enredo de 2026 da Tom Maior será cantado por Gilsinho, famoso sambista carioca que também é intérprete da tradicional Portela. A canção será escolhida em um concurso organizado pela escola e aberto a compositores de todo o país. Antes, entretanto, uma etapa preliminar da disputa será realizada em Uberaba, voltada a músicos do Triângulo.
“Vamos levar aqueles que se destacarem (na seletiva de Uberaba) para o concurso geral, que é aberto ao Brasil inteiro”, diz Celso Neto.
O plano é fazer com que os artistas locais tenham a chance de ver uma obra própria em um nacional como é o Anhembi. O expediente repetirá o modus operandi recentemente adotado pela carioca Grande Rio, que, ao propor um desfile sobre o Pará para 2025, fez um concurso de samba de enredo em Belém. As melhores obras da seletiva paraense se juntaram aos sambas feitos no Rio.
No fim das contas, uma canção composta por Mestre Damasceno, expoente do carimbó e da Região do Marajó, desbancou letras feitas por nomes tarimbados do samba, como Diogo Nogueira, Moisés Santiago e Paulinho Mocidade.
Rivalidade?
Não será a primeira vez que o Triângulo Mineiro dará o tom de um desfile no carnaval de São Paulo. Em 2022, o Acadêmicos do Tucuruvi falou sobre Uberlândia.
À ocasião, o desfile do Tucuruvi ficou em 9° lugar.
