A relação entre o vice-governador Mateus Simões (PSD) e o presidente da Associação Mineira de Municípios (AMM), Luís Eduardo Falcão (sem partido), teve um novo capítulo na noite dessa quarta-feira (21), após a esposa do dirigente, a deputada estadual Lud Falcão (Podemos), acusar publicamente Simões de ter ameaçado o marido, que também é prefeito de Patos de Minas, no Alto Paranaíba.
O pano de fundo do embate envolve antigas rusgas e as estratégias adotadas por ambos nas articulações sobre as chapas que vão concorrer à sucessão de Romeu Zema (Novo).
Simões, que vai assumir o comando do Executivo estadual em março, tenta viabilizar uma frente ampla de partidos à direita. Já Falcão, que deixou o Novo em abril do ano passado, busca espaço em um novo partido e, segundo interlocutores, trabalha para integrar uma coligação majoritária como candidato ao governo ou a vice.
Em meio à procura por legenda, o dirigente conversa com o Republicanos, cujo presidente estadual é o deputado federal Euclydes Pettersen. Para interlocutores ouvidos pela reportagem a aproximação a Pettersen ajuda a explicar porque Falcão resolveu intensificar as críticas a Simões.
O início
O atrito entre os dois começou durante a disputa pelo comando da AMM, no primeiro trimestre de 2025. À época, Zema optou por não declarar apoio a Falcão, que era filiado ao Novo.
O governador manteve postura de neutralidade e dividiu elogios entre o então correligionário e Doutor Marcos Vinícius, que foi prefeito de Coronel Fabriciano, no Vale do Aço, e tentava novo mandato à frente da AMM.
Para aliados do atual presidente da associação, o fato de Falcão ser um dos poucos prefeitos do Novo no estado, somado à relação construída ao longo de eleições passadas, gerou a expectativa de apoio do Palácio Tiradentes à candidatura dele ao comando da entidade municipalista.
O episódio culminou na saída de Falcão da legenda. Com o afastamento de Zema dos temas municipalistas, os embates, até então velados, passaram a se concentrar entre Simões e o prefeito de Patos de Minas.
Críticas aos planos de governo
Em novembro, Falcão teceu críticas aos planos do governo mineiro de privatizar a Companhia de Saneamento (Copasa). No entendimento dele, os debates sobre o tema aconteceram sem consulta aos prefeitos.
No mês seguinte, a entidade acionou o Tribunal de Contas do Estado de Minas (TCE-MG) a fim de receber orientações sobre a postura jurídica que os municípios precisarão adotar ante a iminente mudança na estrutura acionária da empresa.
Ao lado de Lula
A principal surpresa dos aliados de Zema com o prefeito de Patos de Minas, no entanto, ocorreu em 11 de dezembro. Falcão utilizou um evento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em Belo Horizonte, para reforçar as críticas à privatização da Copasa.
Como mostrou O Fator, o episódio foi interpretado como uma tentativa brusca de Falcão de recalcular a rota política. Embora o presidente da AMM já tivesse comentado negativamente as etapas rumo à desestatização da empresa, a avaliação no governo estadual foi de que a retomada do assunto durante a agenda com Lula foi, de certa forma, um gesto incoerente.
Isso porque, na Assembleia Legislativa, Lud Falcão votou favoravelmente a projetos de lei que tratavam da desestatização da companhia. Durante o evento com Lula, o marido da parlamentar pediu que os prefeitos não assinassem os novos contratos sugeridos pela Copasa, que tenta estender até 2073 os vínculos com as cidades.
Bandeira branca frustrada
Em dezembro, Mateus Simões chegou a convidar os Falcão para um jantar em sua casa. A trajetória do prefeito no Novo e a atuação da deputada como base governista na Assembleia sempre fizeram com que Simões e o casal nutrissem boa relação pessoal. O encontro, apesar de ter como pano de fundo uma tentativa de reaproximação e conciliação, pouco tratou de política.
Poucas semanas depois, a ideia de uma bandeira branca na relação desapareceu, com Luís Eduardo Falcão voltando a criticar declarações do vice-governador.
O que disse Lud Falcão?
Lud Falcão utilizou as redes sociais para acusar Mateus Simões de ameaçar “fechar as portas” do Executivo estadual caso seu marido não se desculpasse por críticas feitas a um discurso do vice-governador nas redes sociais. Lud tratou do tema em um vídeo de cerca de quatro minutos.
“O senhor me ligou ameaçando que se o meu marido não te ligasse até meia-noite para pedir desculpas, o senhor não deixaria que nenhum porteiro do estado de Minas Gerais atendesse aos meus pedidos. Primeiro, eu não tenho pedido para minha pessoa ou familiares. Todos meus pedidos são para representar mineiros e mineiras”, falou.
A publicação também ocorreu após a circulação de uma foto do casal na Bahia ao lado dos deputados federais mineiros Samuel Viana e Euclydes Pettersen, ambos do Republicanos.
A imagem passou a ser comentada entre interlocutores, sobretudo pelo fato de Pettersen ser investigado e alvo da Polícia Federal (PF) na operação que apura um suposto esquema de desvios de recursos no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que apura o rombo bilionário na entidade, cabe ressaltar, é presidida pelo senador Carlos Viana (Podemos-MG), pai de Samuel.
O casal Falcão articula mudança de legenda para a eleição deste ano. Como já mostrou O Fator, o presidente da AMM pretende disputar o governo de Minas Gerais e conversa sobre a possibilidade de filiação ao Republicanos, legenda presidida em Minas por Pettersen.
As negociações, no entanto, esbarram no senador Cleitinho Azevedo, que também avalia entrar na disputa pelo Palácio Tiradentes. Ainda conforme apuração da reportagem, a foto ao lado de do presidente do Republicanos em Minas e as declarações de Falcão sobre as pretensões políticas não foram bem recebidas por parte dos prefeitos mineiros.
O entendimento é que a associação ao deputado federal enfraqueceria o teor independente que o presidente da AMM tem buscado dar a uma eventual candidatura ao Executivo estadual.
O Fator procurou Mateus Simões para comentar as acusações de Lud Falcão. O espaço segue aberto.