O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) tem demonstrado incômodo com integrantes de diretórios regionais que buscam antecipar conversas com ele sobre definições de candidaturas estaduais e alianças para 2026.
A pessoas próximas, ele tem reiterado que, a menos de uma semana do julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), não considera apropriado tratar de definições políticas nos Estados e tem se irritado com essa ansiedade de correligionários.
Nos últimos dias, alguns políticos o procuraram para debater a formação de chapas aos governos estaduais e ao Senado, o que causou descontentamento do líder da direita que, neste momento, tem prioridades muito claras.
Segundo interlocutores, Bolsonaro estabeleceu uma ordem “natural”: primeiro o julgamento no Supremo, depois a escolha de quem receberá sua bênção na corrida presidencial e, só então, as composições regionais.
Conforme apurou O Fator, esse movimento prematuro de nomes com pretensões estaduais também ajuda a explicar por que, apesar de dezenas de solicitações enviadas ao STF para autorizar visitas durante a prisão domiciliar, poucos tiveram acesso ao ex-presidente.
Além de limitar a entrada em sua residência no Jardim Botânico, onde cumpre prisão domiciliar desde 4 de agosto, Bolsonaro mandou um recado mais duro por meio de assessores de confiança: “não é hora de tratar de alianças estaduais”.
Pressão com o julgamento
O processo na Primeira Turma do STF trata da acusação de tentativa de golpe de Estado. Nos bastidores, a avaliação é de que a condenação é praticamente inevitável, diante dos sinais já dados pelo relator, ministro Alexandre de Moraes.
Com esse desfecho considerado quase certo, setores da direita fora do núcleo mais próximo de Bolsonaro têm se sentido à vontade para iniciar negociações, o que eleva a pressão sobre o ex-presidente em torno de quem herdará sua liderança política.
A principal dúvida é sobre quem receberá sua chancela para a disputa presidencial. Apesar da resistência de parte da família, como do deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), continua sendo o mais cotado.
A definição, no entanto, só deve vir semanas após o julgamento, quando já estará estabelecido quem conduzirá as tratativas em nome de Bolsonaro — tendência é que o papel recaia sobre Valdemar da Costa Neto, presidente do PL — e como será a nova rotina do ex-presidente.
Mesmo em caso de prisão, a preocupação central do ex-presidente será a de manter influência e buscar a palavra final nos acordos políticos. Mas, segundo aliados, cada decisão terá seu tempo.
Daqui a pouco
O presidente da Primeira Turma do STF, ministro Cristiano Zanin, marcou para os dias 2, 3, 9, 10 e 12 de setembro o julgamento dos réus do chamado “Núcleo 1” ou “Núcleo Crucial” na ação que investiga a tentativa de golpe de Estado. Além de Bolsonaro, serão julgadas outras sete pessoas.
Os réus respondem por tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, tentativa de golpe de Estado, participação em organização criminosa armada, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado. As penas, se somadas, chegam a 43 anos de prisão.