A equipe de comunicação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acompanha com atenção e cautela a crescente mobilização em torno da segurança pública, tema que tende a dominar o debate político nos próximos dias após a megaoperação policial no Complexo do Alemão e no Complexo da Penha, no Rio de Janeiro.
A ação, que deixou mais de 120 mortos foi a mais letal da história do estado. E o episódio recolocou a pauta da segurança no centro da agenda nacional e mobilizou governadores de direita que se preparam para as eleições de 2026, seja para buscar a reeleição ou disputar novos cargos, inclusive o Palácio do Planalto.
No governo, já havia o entendimento de que a narrativa do enfrentamento ao crime seria explorada por gestores de direita durante o pleito do ano que vem. Com o ocorrido na capital fluminense, a avaliação é de que o tema deve ganhar ainda mais força. Essa leitura é compartilhada por diferentes esferas da União.
Pesquisas internas contratadas pelo setor de comunicação do Planalto apontavam ainda no primeiro semestre que a segurança pública era um dos principais pontos de fragilidade na percepção popular sobre a gestão de Lula. O petista até tentou mudar o discurso, mas a avaliação é que a direita ainda vence quando o tema vem à tona.
De acordo com interlocutores ouvidos por O Fator, esses levantamentos internos indicavam que parte da população ainda não compreende – e o governo não conseguiu comunicar corretamente – que o tema é de responsabilidade compartilhada entre União, estados e municípios.
Na última semana, Lula também cometeu uma gafe que vem sendo amplamente explorada por setores da direita, ao afirmar que os traficantes seriam “vítimas dos usuários”. Ele se retratou, mas o episódio acendeu o alerta na equipe presidencial, que passou a redobrar o cuidado com falas e agendas ligadas à segurança para evitar que situações semelhantes se repitam.
Uma das respostas discutidas seria a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública. Mas, nos bastidores, integrantes do Planalto reconhecem que a proposta, considerada polêmica, segue travada no Congresso Nacional e sem perspectiva de avanço. A equipe de articulação política tenta desde terça-feira (28) reverter o quadro.
O governo mantém índices de popularidade bons e busca evitar novos focos de crise, especialmente nas redes sociais, como ocorreu com os episódios do Pix e com a alta dos alimentos. Há o temor de que a pauta da segurança gere desgaste superior ao enfrentado na CPMI do INSS, considerada controlável até o momento.
Governadores se movimentam
Entre os governadores de direita, a movimentação aumentou. Um dos principais interessados no tema é o de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo). Pré-candidato à Presidência, ele integra a comitiva de oposição que irá ao Rio de Janeiro nesta quinta-feira (30) para prestar apoio ao governador do Rio, Cláudio Castro (PL), após a operação.
Como mostrou O Fator, Zema articulou uma reunião virtual com outros cinco governadores na manhã desta quarta-feira (29) para discutir medidas conjuntas de apoio ao governo fluminense.
Participaram do encontro Tarcísio de Freitas (Republicanos), de São Paulo; Ronaldo Caiado (União Brasil), de Goiás; Jorginho Mello (PL), de Santa Catarina; Mauro Mendes (União Brasil), de Mato Grosso; e Ibaneis Rocha (MDB), do Distrito Federal.
Eduardo Leite (PSD), do Rio Grande do Sul, tenta ajustar a agenda para comparecer, enquanto Ratinho Jr. (PSD), do Paraná, ainda não confirmou presença. Segundo fontes, os governadores avaliam formas de oferecer ajuda prática a Castro.
O governador do Rio, por sua vez, tem criticado a União: “A gente não vai ficar respondendo nem ministro nem autoridade queira transformar esse momento em uma batalha política. O recado é: Ou soma no combate à criminalidade ou suma! Temos muita tranquilidade de defendermos tudo que fizemos ontem”, disse nesta quarta-feira em coletiva de imprensa.
Ele afirmou não ter recebido blindados da União, embora não haja registro recente de pedido formal. O governador fluminense é cotado pelo PL para disputar o Senado em 2026, e a crise no Rio reacende o debate sobre a atuação federal na segurança pública e o papel dos estados no enfrentamento ao crime organizado.
Zema explora o tema
Como mostrou O Fator, o governador Romeu Zema adotou como estratégia para se inserir no debate digital sobre a megaoperação contra facções criminosas no Rio de Janeiro uma série de publicações relacionadas à viagem que fez a El Salvador em maio.
O país governado por Nayib Bukele é frequentemente citado por líderes e grupos de direita como exemplo de redução das taxas de homicídio. Nesta quarta-feira (29), Zema publicou dois vídeos gravados durante os dias em que esteve em território salvadorenho.
Em um deles, o governador reúne trechos de entrevistas concedidas à imprensa local, nas quais defende que facções criminosas sejam classificadas como organizações terroristas.
No outro, aparece conversando com um morador de uma área periférica de San Salvador e elogia as medidas adotadas por Bukele para conter a violência. Zema se refere ao presidente como chefe de um “governo com coragem”.