O advogado que atuou na defesa de Alexandre Guimarães, ex-diretor de Governança do INSS, em depoimento à CPMI do INSS na última segunda-feira (27), é investigado pela Polícia Civil de Minas Gerais por crimes de estelionato, lavagem de capitais e associação criminosa. As investigações apontam movimentações financeiras suspeitas de R$ 145,75 milhões em quatro anos e prejuízos a pelo menos sete empresas.
Bruno Ladeira Junqueira foi alvo de operação da Polícia Civil em julho deste ano. A apuração começou após denúncia de uma empresa que relatou ter sido induzida a contratar serviços de cessão de crédito tributário no valor estimado de R$ 3 milhões. Segundo o inquérito policial, o advogado teria simulado negócio jurídico com uma firma inexistente para intermediar a operação.
A empresa pagou 60% do valor creditício por meio de boleto bancário e nota fiscal emitidos pelo escritório de Junqueira. Meses depois, a Receita Federal protestou dívidas de ICMS da empresa no valor de R$ 1,64 milhão. A vítima constatou que a compensação tributária prometida nunca foi realizada, o que gerou execução fiscal contra a companhia.
A Polícia Civil identificou que a empresa utilizada no esquema não existe. Os autos indicam que ela teria sido criada pelo escritório BLJ Consultoria, de propriedade do advogado. As investigações apontam que o advogado utiliza estratégias semelhantes para lesar outras empresas.
O Fator tentou contato com o advogado mas não teve sucesso. Em julho, na época da operação da PCMG, a defesa de Junqueira enviou nota à TV Globo afirmando que ele “sempre agiu com ética e profissionalismo, e espera que as investigações confirmem isso”. A defesa também apontou que algumas empresas que contrataram serviços tributários “não conseguiram os resultados esperados, e agora querem ser ressarcidas. O advogado não pode garantir resultados, apenas aplicar as leis. As pessoas que reclamaram são minoria entre os clientes do advogado”.
Sentença judicial falsa
Um laudo pericial do Instituto de Criminalística da PCMG, feito em julho deste ano, confirmou que uma sentença judicial apresentada pela empresa Plastifica Industrial foi resultado de montagem. O documento, supostamente proferido pela 12ª Vara Federal Cível de Minas Gerais, trazia a assinatura de um juiz federal inexistente chamado Marcelo Moreira Netto.
A perícia constatou que o número de identificação do documento, que aparecia no rodapé da sentença falsa, pertencia a outro processo. A numeração é válida, mas se refere a uma ação com sentença prolatada pelo juiz federal Urbano Leal Berquó Neto em 26 de junho de 2019, na 8ª Vara Federal Cível de Goiás.
A sentença falsa foi criada em 23 de outubro de 2023 às 13:54:03, conforme metadados analisados pelos peritos. O laudo apontou que a peça foi produzida por meio de montagem, com aproveitamento de parte da sentença original, mas com alteração de seu conteúdo principal.
A sentença falsa listava como advogado um sócio de Bruno Junqueira. A vítima da sentença falsa, a Plastifica Industrial, também aparece entre as empresas lesadas pelo esquema.
Prejuízos milionários a outras empresas
Além da Hold Transportes, a Polícia Civil identificou outras seis empresas que teriam sido vítimas de práticas semelhantes: Metalfisa Metalúrgica Eireli, Empresa de Transportes Apoteose Ltda, Marka Veículos e Peças, Impar Veículos e Peças Ltda, RPM Imobiliária e Serra Verde Transportes. Cada caso gerou inquérito policial específico.
O relatório de Inteligência Financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) indicou movimentações suspeitas de R$ 145,75 milhões em contas vinculadas a Bruno Ladeira Junqueira entre maio de 2020 e outubro de 2024. As investigações identificaram que o advogado adquiriu patrimônio incompatível com sua renda declarada.
A Polícia Civil mapeou bens de elevado valor em nome do investigado. Entre os veículos estão BMW X6 XDrive 35i, Land Rover Discovery Sport, Cadillac Escalade ESV, Lamborghini Urus e Mercedes-Benz AMG G63. Apenas em imóveis, localizados no Distrito Federal, o patrimônio supera R$ 4,9 milhões.
Os imóveis incluem o apartamento 202 do Edifício Parthenon, Bloco B, na SQSW-102, com área de 379 metros quadrados, e o apartamento 401, Bloco C, na SQS-308, ambos em Brasília. As investigações apontam que o advogado obteve aumento patrimonial significante nos últimos cinco anos.
Na operação, o advogado foi alvo de busca e apreensão em endereços ligados a ele, além de indisponibilidade de bens e valores.