Alvo da Operação Rejeito muda de advogado e escolhe defensor especializado em delações premiadas

Esquema operava através de empresas criadas para obtenção fraudulenta de licenças ambientais
polícia federal
Investigação considera suspeita a cessão gratuita de direitos minerários de sua empresa Brazmine para a Brava Mineração. Foto: Polícia Federal

A empresária Úrsula Paula Deroma, identificada pela Polícia Federal (PF) como uma das figuras centrais nas investigações da Operação Rejeito, trocou sua defesa nessa terça-feira (23). A partir de agora, o advogado Leonardo Marinho assume o lugar de Maurício Campos.

Marinho é conhecido nacionalmente por ter atuado representando colaboradores em delações premiadas, incluindo casos da Odebrecht durante a Operação Lava-Jato.

A alteração na estratégia jurídica ocorre em momento crítico das investigações da Operação Rejeito, que desvenda esquema de corrupção no licenciamento ambiental mineiro.

Na segunda-feira (22), Úrsula permaneceu por mais de quatro horas em depoimento. Embora tenha contratado advogado especializado em acordos de colaboração, a empresária ainda não iniciou negociações de delação com a PF e com o Ministério Público Federal (MPF).

Suspeitas

O relatório da Polícia Federal aponta Úrsula Paula Deroma como articuladora da organização investigada, com indícios de corrupção ativa, ocultação patrimonial e uso indevido de influência por meio do vazamento de informações sigilosas.

A investigação aponta que a empresária chegou a fazer pagamentos de propina para conseguir autorizações ambientais. Em uma interceptação, Úrsula solicitou que seu filho, Phillipe Westin Deroma Furtado, realizasse a transferência, explicando que precisavam das “guias de manuseio de fauna” para o Projeto Bela Vista.

Outras evidências incluem áudio onde a empresária relatou ter conseguido “um contato lá na ANM” e fechado “dois alvarás, 8 mil por cada um”, referindo-se à Agência Nacional de Mineração (ANM).

Para a polícia, a declaração configura corrupção ativa, demonstrando pagamento efetivado para obtenção irregular de autorizações.

Em outra conversa interceptada pela PF, Úrsula questionou se a publicação de Autorizações de Manejo de Fauna do Projeto Apolo estava relacionada ao pagamento de “sete mil e pouco”, valor significativamente superior aos custos oficiais do processo administrativo.

Comando oculto

A Polícia Federal também aponta Úrsula como “elemento indispensável da estrutura criminosa”, atuando na cúpula ao lado do delegado da Polícia Federal Rodrigo Teixeira e do lobista Gilberto Henrique Horta Carvalho. Embora mantivesse o filho como sócio formal na empresa Brava Mineração, ela exercia gestão efetiva, controlando estruturação societária, captação de investidores e negociação de ativos.

A investigação considera suspeita a cessão gratuita de direitos minerários de sua empresa Brazmine para a Brava Mineração, operação que beneficiou a entrada de Rodrigo Teixeira como sócio oculto com 10% do capital social sem aporte financeiro.

Influência policial

O relatório policial também aponta que Úrsula utilizava a posição de Rodrigo Teixeira, delegado da Polícia Federal e então diretor de Polícia Administrativa, para obter vantagens. A empresária reencaminhou mensagens alertando que informações discutidas em reunião constituíam “informação sigilosa” de “investigação policial”, sugerindo vazamento por parte do delegado, segundo os investigadores.

A Operação Rejeito investiga corrupção e fraudes no licenciamento ambiental mineiro, envolvendo empresários da mineração e servidores de órgãos como Fundação Estadual do Meio Ambiente, Agência Nacional de Mineração, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em Minas Gerais, Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Conselho Estadual de Política Ambiental e Instituto Estadual de Florestas.

Entre 2020 e 2024, o grupo investigado construiu rede de 42 empresas controladas pelos líderes Alan Cavalcante, João Alberto Lages e Helder Adriano. As companhias recrutavam laranjas para mascarar o controle efetivo exercido pelo núcleo central da organização.

O esquema operava através de empresas criadas para obtenção fraudulenta de licenças ambientais, outras funcionavam como veículos de movimentação de recursos, enquanto algumas atuavam como holdings para blindagem patrimonial. As vantagens indevidas eram depositadas em contas de pessoas jurídicas vinculadas aos servidores corrompidos e seus familiares.

A organização promovia confusão patrimonial entre as empresas de fachada, com participações societárias cruzadas que dificultavam fiscalização e permitiam movimentação de recursos até a destinação final em benefício dos líderes.

A Polícia Federal calcula que os projetos controlados pelo grupo criminoso poderiam gerar ganhos ilícitos de aproximadamente R$ 18 bilhões. As investigações demonstram que empreendimentos minerários avançavam mediante pagamento de propina e manipulação de processos administrativos, incluindo projetos em áreas ambientalmente sensíveis como Serra do Curral e Serra do Botafogo, em Ouro Preto, que obtiveram licenças baseadas em atos administrativos sem validade legal.

Leia também:

Moraes nega transferência de presídio pedida por condenada pelo 8/1 detida no Aeroporto de Confins

Juíza manda ação por peculato dos ‘fura-filas’ da vacina para o TJMG

Juiz manda secretários de prefeitura mineira devolverem 13º salário considerado ilegal

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse