As estratégias da Cemig para driblar ano turbulento no Mercado Livre de Energia

Com revisão de risco, avanço em licitações públicas e foco em contratos diretos, estatal mineira reverteu expectativa de prejuízo
Usina da Cemig
A Cemig lidera o Mercado Livre de Energia. Foto: Divulgação/Cemig

Em meio a mudanças regulatórias no Mercado Livre de Energia, seca antecipada e à alta dos preços no curto prazo, a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) manteve a liderança no varejo e mudou a estratégia comercial para atravessar um dos anos mais difíceis do setor.

A estatal ampliou a participação em licitações públicas e passou a priorizar negociações individuais com clientes pré-selecionados, reduzindo a dependência de feiras e grandes eventos. O movimento ajudou a área de comercialização a fechar 2025 com Ebitda de R$ 111 milhões e lucro líquido de R$ 163 milhões, revertendo a expectativa de prejuízo.

Como resposta ao cenário, a companhia atuou em duas frentes. A primeira foi de gestão de risco. A Cemig reorganizou responsabilidades internas e ampliou o acompanhamento da área por diferentes níveis de decisão, incluindo a vice-presidência de Finanças, a diretoria colegiada e o conselho de administração. Ao mesmo tempo, endureceu os critérios para novas contratações.

Na prática, isso significou uma operação mais conservadora. Segundo o vice-presidente de Comercialização da energética, Sérgio Lopes, a empresa passou a exigir indicadores mais robustos das companhias interessadas em comercializar com a Cemig, em uma tentativa de reduzir a exposição a novos episódios de inadimplência em um mercado mais sensível a oscilações de preço.

Negociações diretas

A segunda frente foi comercial. Em vez de concentrar esforços em feiras e grandes eventos, modelo que havia sido mais usado na fase de forte expansão do mercado, a companhia passou a buscar contratos com maior previsibilidade e maior escala.

De um lado, aumentou a participação em licitações públicas, aproveitando o amadurecimento de órgãos e empresas estatais que passaram a entrar no mercado livre. De outro, criou encontros próprios com grupos menores de clientes potenciais, previamente selecionados.

“Em 2025, várias entidades de gestão pública amadureceram o entendimento sobre o mercado livre e realizaram licitações para a contratação de seu fornecedor. Estivemos ativos e fomos vitoriosos em muitos desses certames”, diz o executivo.

Entre os contratos citados pela companhia está o da Companhia de Saneamento de Alagoas, a Casal, firmado em julho. Segundo a Cemig, o acordo envolve o fornecimento para três unidades da empresa no Nordeste.

A energética também menciona contratos com unidades do Exército em diferentes regiões do país, o que ajuda a explicar o foco em clientes com múltiplas unidades consumidoras e maior potencial de escala.

Essa estratégia foi reforçada pela expansão do mercado varejista, segmento em que a comercializadora representa o consumidor na Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) e assume a gestão contratual.

Varejo como vitrine

É nesse segmento que a Cemig sustenta sua principal vitrine. Conforme Sérgio, a companhia manteve a liderança nas vendas para clientes finais, tanto atacadistas quanto varejistas.

No ano, a participação da empresa no mercado varejista cresceu 70% — de 122 megawatts médios em dezembro de 2024 para 208 megawatts médios em dezembro de 2025. Hoje, a empresa mineira responde por 8,5% de share do mercado.

O resultado foi obtido em um ambiente mais competitivo e de maior risco. Desde 2024, a abertura do mercado livre para todos os consumidores em alta tensão ampliou o número de empresas aptas a migrar de fornecedor, o que acelerou a disputa por clientes e fortaleceu o mercado varejista.

Em 2025, segundo a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica, 21.707 novas unidades consumidoras migraram para o mercado livre no país, com destaque para São Paulo, Paraná e Minas Gerais.

Impacto da estiagem

Segundo o executivo, que chegou à Cemig em fevereiro de 2025, a nova metodologia de formação do preço de curto prazo passou a reagir com mais intensidade ao encerramento antecipado do período chuvoso, provocando um choque de preços já em março.

No submercado Sudeste/Centro-Oeste, o preço médio saiu de R$ 59,21 por megawatt-hora em janeiro para R$ 327,32 em março. Ao mesmo tempo, a diferença de preços entre Nordeste e Sudeste/Centro-Oeste, que estava próxima de zero no início do ano, chegou a R$ 268,36 por megawatt-hora, ampliando o custo das posições entre regiões.

Além da pressão de preços, parte das empresas que tinham contratos de venda de energia para a Cemig não suportou o cenário e deixou de honrar compromissos, o que obrigou a companhia a recompor posições em um mercado mais caro.

“O ano estava apenas começando e a situação já estava complicada, então era natural que as projeções à época fossem pessimistas para os meses seguintes”, afirma.

Como funciona o mercado livre

Para o consumidor fora do setor elétrico, o mercado livre é hoje acessível, principalmente, a empresas atendidas em média e alta tensão, em geral consumidores com contas mais elevadas. Nesse modelo, elas podem negociar preço, prazo e condições de fornecimento, o que torna a gestão de risco da comercializadora ainda mais relevante em momentos de volatilidade.

Previsões para 2026

A Cemig atua no Ambiente de Contratação Livre (ACL) desde o início dos anos 2000 e, segundo Sérgio, completa 20 anos de liderança no mercado livre. Para 2026, a estratégia é manter a expansão no varejo, entrar no mercado de créditos de carbono e se preparar para a próxima etapa de abertura do setor, prevista para alcançar a baixa tensão a partir de 2027.

“A situação de 2025 foi difícil, mas é possível tirar lições importantes para melhorar nossas ações no futuro”, pontua.

A leitura da companhia é de que a comercialização deve seguir como uma das frentes estratégicas do grupo, mas com um perfil diferente do ciclo anterior de expansão: menos dispersão, mais contratos estruturados e seleção mais rígida de clientes e contrapartes.

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