Discreto, mas recorrentemente reconhecido por populares durante caminhadas rotineiras, o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, já começa a nutrir relações, ainda que superficiais, com vizinhos e admiradores que passam pela região da Savassi, em Belo Horizonte. Em busca de articular uma candidatura a deputado federal por Minas Gerais no ano que vem, o ex-parlamentar despacha de um escritório em um prédio no bairro que sedia a Praça da Liberdade.
Durante os passeios pela Savassi, Cunha intercala os passos pelas calçadas com pedidos de selfie e até mesmo de autógrafos. Na semana passada, além de posar para fotografias, assinou um exemplar de “Tchau, querida: o Diário de um Impeachment”, livro que escreveu para contar os bastidores do processo que culminou na saída de Dilma Rousseff (PT) da Presidência da República, em 2016.
O plano de Cunha por um retorno ao Congresso não se restringe a Belo Horizonte. Além da capital, o ex-deputado tenta construir pontes junto ao eleitorado do interior. Para isso, aposta em obter espaço em rádios no interior e no apoio a projetos locais, caso do Uberaba Sport Club, da cidade homônima, no Triângulo.
A “Rádio Maravilha”, emissora gospel que Cunha pretende gerir em Uberaba, anunciou um patrocínio ao clube da cidade, que está no Módulo II do Campeonato Mineiro.
A movimentação tem sido cautelosa, mas constante. Em abril, apareceu em Araxá, no Alto Paranaíba, durante a inauguração de uma unidade da Igreja Mundial do Poder de Deus.
Durante a atividade, o apóstolo Valdemiro Santiago — presidente da designação religiosa — fez elogios a Cunha.
“Esses dias eu desejei que o senhor estivesse lá (na Câmara dos Deputados), de novo; Porque foi o que teve coragem de colocar em pauta um assunto que ninguém mais teve coragem (…) E eu tiro o chapéu quando alguém tem coragem, mesmo que depois tenha que pagar um preço alto. Muito alto. Vamos em frente, porque Deus vai abençoar e tudo vai voltar a ser como era antes: coragem, ousadia, e poder de decisão. Eu nunca esqueci isso e nunca vou esquecer. O povo também não esquece não”, disse, sem sequer explicar qual seria o assunto colocado em pauta por Cunha no Legislativo”.
Apesar dos acenos e de toda sua movimentação, Eduardo Cunha tem dito que ainda não bateu martelo sobre a sua candidatura. O Fator tentou contato com o ex-presidente da Câmara dos Deputados. Até a publicação desta reportagem ,ele não havia se manifestado.
Resistências
A receptividade dos vizinhos do ex-presidente da Câmara dos Deputados em BH, porém, não tem acontecido por parte de possíveis correligionários. Cunha considerava disputar a eleição do ano que vem pelo PL, sigla do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas encontrou resistências.
Em 2024, ao receber o aval de outras lideranças para colocar em prática a estratégia de se candidatar por Minas, o presidente nacional do PL, Valdemar da Costa Neto, havia sinalizado ao ex-presidente da Câmara que poderia contar com o partido para a empreitada. A possibilidade irritou nomes do PL mineiro, como o do deputado federal Nikolas Ferreira, que não gostaria de contar com Cunha como parceiro na chapa de candidatos à Câmara.
O presidente do PL mineiro, o deputado federal Domingos Sávio, chegou a se reunir com Valdemar para tratar da questão. No encontro, ele relatou que a insatisfação com a possibilidade da filiação de Cunha não era somente de Nikolas, mas de boa parte da Executiva estadual da agremiação.
Valdemar sinalizou que o partido, então, não precisa abrigar o ex-deputado.
